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24/12/2006

Diferença salarial entre homens e mulheres parou de diminuir

The New York Times
David Leonhardt

The New York Times
Ao longo dos anos 80 e início dos anos 90, mulheres de todos os níveis econômicos —classes pobre, média e alta— ganharam constantemente terreno em relação aos seus pares do sexo masculino na força de trabalho. Em meados dos anos 90, as mulheres ganhavam mais de 75 centavos para cada dólar pago por hora para os homens, um aumento em comparação a 65 centavos de apenas 15 anos antes.

Mas de forma pouco notada, um grande grupo de mulheres deixou de fazer progresso: aquelas com diploma de quatro anos de ensino superior. A diferença entre o que é pago à elas e aos homens com diploma superior na verdade aumentou ligeiramente desde meados dos anos 90.

Para as mulheres sem ensino superior, a diferença salarial em relação aos homens diminuiu ligeiramente no mesmo período.

Estas tendências sugerem que recentes feitos de destaque —a primeira mulher Secretária de Estado, principal âncora de noticiário noturno, presidente de Princeton e, no próximo mês, presidente da Câmara— não refletem o que está acontecendo com a maioria das mulheres, dizem pesquisadores.

Há uma década, era possível imaginar que homens e mulheres com qualificações semelhantes poderiam em breve ganhar salários praticamente idênticos. Hoje, isto está mais difícil de prever.

"Nada aconteceu em relação à diferença salarial de meados dos anos 50 até o final dos anos 70", disse Francine D. Blau, uma economista de Cornell e principal pesquisadora de gênero e salário. "Então os anos 80 se destacaram como um período de grandes aumentos nos salários das mulheres. Mas ficou muito menos impressionante depois disso."

No ano passado, mulheres com ensino superior entre 36 e 45 anos, por exemplo, ganhavam 74,7 centavos por hora para cada dólar que os homens do mesmo grupo ganhavam, segundo dados do Departamento do Trabalho analisados pelo Instituto de Política Econômica. Há uma década, as mulheres ganhavam 75,7 centavos.

Os motivos para a estagnação são complicados e parecem incluir tanto discriminação quanto as escolhas feitas pelas próprias mulheres. O número de mulheres que permanecem em casa com filhos pequenos aumentou recentemente, segundo o Departamento do Trabalho; o aumento foi maior entre as mães com ensino superior, que caso contrário poderiam estar ganhando altos salários. O ritmo com que as mulheres ingressam em ocupações melhor remuneradas também parece estar desacelerando.

Como muita coisa em relação a gênero e local de trabalho, há pelo menos duas formas de ver estas tendências. Uma é que as mulheres, diante de grande parte do fardo de cuidar das famílias, são forçadas a escolher trabalhos que pagam menos -ou, no caso das mães que ficam em casa, nenhum.

Se o governo oferecesse programas de creches semelhantes aos de outros países ou os homens passassem mais tempo em casa cuidando da família, as mulheres teriam maiores oportunidades para perseguir os empregos que desejam, segundo este ponto de vista.

A outra visão é de que as mulheres consideram dinheiro uma alta prioridade com menos freqüência que os homens. Muitas abrem mão da chance para cuidar de filhos ou pais e preferem empregos, como aqueles no setor sem fins lucrativos, que lhes permitem influenciar as vidas de outras pessoas.

Ambas as visões, notam os economistas, contam com algum grau de verdade.

"É igualdade de renda o que realmente queremos?" perguntou Claudia Goldin, uma economista de Harvard que escreveu sobre a revolução da mulher no trabalho ao longo da última geração. "Nós queremos que todas tenham a chance de trabalhar 80 horas no auge dos anos reprodutivos? Sim, mas não esperamos que todas vão optar por isto."

Seja qual for o papel que suas preferências possam exercer na diferença salarial, muitas mulheres dizem que continuam enfrentando formas sutis de preconceito persistente.

De fato, a diferença salarial entre homens e mulheres que possuem qualificações semelhantes e exercem a mesma ocupação -o que os economistas dizem que é uma das medidas mais puras de igualdade de gênero- mal se mexeu desde 1990. Atualmente, a discriminação vem de chefes que acreditam que tratam todos igualmente, dizem as mulheres, mas que ainda criam um teto de vidro que as impede de chegarem aos melhores cargos.

"Eu não acredito que alguém diria que não posso realizar o trabalho tão bem quanto um homem", Christine Kwapnoski, uma gerente de padaria de 42 anos em um Sam's Club no Norte da Califórnia, que ganhará US$ 63 mil neste ano, incluindo hora extra. Ainda assim, ela ganha significativamente menos do que homens em cargos semelhantes, e participa de uma ação coletiva contra a Wal-Mart Stores, que é dona do Sam's Club.

A ação faz parte de uma série de casos nos últimos anos que acusam grandes empresas de discriminação de gênero, incluindo Boeing, Costco, Merrill Lynch e Morgan Stanley. No mês passado, a Suprema Corte ouviu os argumentos em um caso contra a Goodyear.

No Sam's Club, Kwapnoski disse que quando foi supervisora, ela descobriu que um subalterno dela ganhava tanto quanto ela. Ela foi posteriormente promovida sem nenhum aumento, apesar dos homens que receberam tal promoção terem recebido aumentos, ela disse.

"Basicamente, me disseram que não era da minha conta, que não havia nada que eu pudesse fazer a respeito", ela disse.

Kwapnoski não tem diploma superior, mas o caso dela é típico de outra tendência recente: a diferença salarial agora é maior entre os trabalhadores que ganham salários relativamente bons.

No Wal-Mart, o percentual de mulheres diminui a cada sucessivo nível administrativo. Elas ocupam quase 75% das posições de chefe de departamento, segundo a empresa. Mas apenas cerca de 20% dos cargos de gerente de loja, que ganham significativamente mais que US$ 100 mil, são ocupados por mulheres.

Isto ocorre apesar das mulheres receberem em média melhores avaliações do que os homens e manterem o emprego por mais tempo, disse Brad Seligman, o advogado principal no processo.

Theodore J. Boutrous Jr., um advogado do Wal-Mart, disse que a empresa não discrimina. "É realmente um salto de lógica presumir que os dados são produto de discriminação", ele disse. "As pessoas têm interesses diferentes, prioridades diferentes, carreiras diferentes" -e diferentes níveis de interesse de ingressar na administração, ele acrescentou.

As outras empresas que estão sendo processadas também dizem que não discriminam.

Os economistas dizem que as recentes tendências salariais também foram ignoradas por que a diferença salarial geral, como é medida pelo governo, continua estreitando.

O salário por hora médio pago a todas as trabalhadoras aumentou para 80,1% do salário pago aos homens no ano passado, em comparação a 77,3% em 2000. Mas isto se deve em grande parte porque as mulheres continuam reduzindo a diferença de qualificação. Mais mulheres que homens se formam atualmente na faculdade, e o número de mulheres com décadas de experiência de trabalho está crescendo rapidamente.

Mas dentro de muitos grupos demográficos, as mulheres não estão mais ganhando terreno.

Blau e seu marido, Lawrence M. Kahn, outro economista de Cornell, realizaram alguns dos estudos mais detalhados envolvendo gênero e salário, comparando homens e mulheres que têm a mesma ocupação, formação, experiência, raça e status sindical. No final dos anos 70, as mulheres ganhavam cerca de 82% do que os homens com perfis semelhantes. Uma década depois, o número saltou para 91% -motivo para imaginar se as mulheres atingiriam a paridade.

Mas no final dos anos 90, o número permanecia em 91%. Blau e Kahn ainda não examinaram a atual década em detalhe, mas ela disse que outros dados sugerem que há pouco movimento.

Durante o boom dos anos 90, homens com diploma superior recebiam em média maiores aumentos que as mulheres. As mulheres se saíram ligeiramente melhor que os homens nos últimos poucos anos, mas não o suficiente para compensar o final dos anos 90, revelou a análise do Instituto de Política Econômica.

Não há prova de que discriminação é a causa da diferença salarial remanescente, disse Blau. É possível que o homem médio, criado para ver a si mesmo como o arrimo da família, seja mais comprometido com seu trabalho do que a mulher média.

Mas pesquisadores notam que os esforços do governo para reduzir a discriminação sexual diminuíram ao longo do período em que a diferença salarial estagnou. Nos anos 60 e 70, leis como a Título VII e Título IX proibiam a discriminação no trabalho e na escola e podem ter ajudado a reduzir a diferença salarial. Não ocorreram esforços semelhantes nas duas últimas décadas.

Mulheres continuam a ingressar em profissões melhor remuneradas como direito, medicina e administração corporativa, onde antes eram raras, mas os aumentos parecem ter diminuído, notou Reeve Vanneman, uma sociólogo da Universidade de Maryland.

A medicina oferece uma janela particularmente boa para estas mudanças. Atualmente, cerca de 40% das pessoas que se formam nas faculdades de medicina são mulheres. Mas muitas das especialidades melhor remuneradas, aquelas em que os salários freqüentemente ultrapassam US$ 400 mil, continuam dominadas por homens e continuará assim nas próximas décadas, com base na amostragem de residentes.

Apenas 28% dos residentes em radiologia em 2004-2005 eram mulheres, informou a Associação das Faculdades de Medicina Americanas. Apenas 10% dos residentes em cirurgia ortopédica eram do sexo feminino. As especialidades em que mais da metade dos novos médicos são mulheres, como dermatologia, medicina familiar e pediatria, tendem a pagar menos.

Melanie Kingsley, uma residente de 28 anos na Escola de Medicina da Universidade de Indiana, disse que queria ser médica desde que consegue se recordar. Para a festa celebrando sua formatura na escola de medicina, sua mãe imprimiu convites com uma foto dela usando um estetoscópio -quando ainda era bebê.

Como primeira médica em sua família, ela não tinha uma idéia clara de que especialidade escolher até que passou um verão trabalhando com uma dermatologista em Chicago. Lá, ela viu que os dermatologistas trabalham como todos, de recém-nascidos a idosos e em praticamente todas as partes do corpo, o que a deixou interessada.

"Você ganha o suficiente para sustentar sua família e curtir a vida", disse Kingsley, que morou a vida toda em Indiana. "Sim, talvez eu não vá ganhar muito dinheiro. Mas ficarei feliz com meu trabalho diário, e este é o motivo para ter feito medicina -ajudar outras pessoas." Ela acrescentou: "Eu já vi pessoas fazerem isto pelo dinheiro, e não são muito felizes".

As diferenças de gênero entre as especialidades médicas apontam para outro aspecto da atual diferença salarial. Em décadas anteriores, o tamanho da diferença era semelhante entre trabalhadores de classe média e classe alta. Às vezes, chegava a ser menor no topo.

Mas atualmente a diferença é maior entre os trabalhadores melhor remunerados. Uma mulher que ganha mais que 95% de todas as outras mulheres ganhava o equivalente a US$ 36 por hora no ano passado, ou cerca de US$ 90 mil por ano trabalhando 50 horas por semana. Um homem que ganha mais que 95% de todos os outros homens, trabalhando o mesmo número de horas, ganhava US$ 115 mil -uma diferença de 28%.

No topo da escada de renda, a diferença é provavelmente ainda maior. As estatística oficial não registra os salários mais altos do país, e em muitos campos onde o salário decolou -Wall Street, fundos hedge, tecnologia- os altos cargos são predominantemente ocupados por homens.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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