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26/12/2006

Aos 97, cardiologista é submetido a cirurgia que criou e desenvolveu

The New York Times
Lawrence K. Altman
em Houston
No final da tarde do dia 31 de dezembro do ano passado, o médico Michael E. DeBakey, então com 97 anos de idade, estava sozinho em casa imerso em seus estudos quando uma dor cortante atingiu a parte superior do seu tórax, entre as omoplatas, deslocando-se a seguir para o pescoço.

NYT 
DeBakey, hoje com 98 anos, salvo pela cirurgia que criou

DeBakey, um dos mais influentes cirurgiões cardíacos da história, acreditou que o seu coração deixaria de bater em alguns segundos.

"Não me passou pela cabeça discar 911 (telefone para emergências nos Estados Unidos) ou ligar para o meu médico", conta DeBakey, acrescentando: "Por mais tolo que isso possa parecer, você se torna, de certa forma, prisioneiro da dor, que é intolerável. Você pensa: 'O que posso fazer para me livrar desta dor?'. Se ela se tornar suficientemente intensa, você se dispõe totalmente a aceitar uma parada cardíaca como uma possível forma de acabar com a dor."

Mas seu coração continuou batendo, e DeBakey suspeitou de que não estava sofrendo um ataque cardíaco. Enquanto estava sentado, sozinho, ele chegou à conclusão de que um inchaço provavelmente enfraquecera a aorta, a principal artéria ligada ao coração, e de que o tecido interno da artéria se rompera, formando um quadro conhecido como aneurisma dissecante da aorta.

Nenhuma pessoa no mundo estava mais qualificada para fazer esse diagnóstico do que DeBakey porque, quando jovem, ele criou a operação para reparar tais aortas rompidas, um quadro que era sempre fatal. A cirurgia foi realizada pelo menos 10 mil vezes em todo o mundo, e está entre as que mais exigem dos cirurgiões e dos pacientes.

No decorrer dos últimos 60 anos, DeBakey modificou a forma como se realizavam as cirurgias do coração. Ele foi um dos primeiros a realizar cirurgias de revascularização miocárdica. DeBakey treinou gerações de cirurgiões na Escola de Medicina Baylor em Houston, operou milhares de pacientes e, em 1996, foi chamado a Moscou por Boris Ieltsin, então presidente da Rússia, para ajudar na sua cirurgia para a instalação de cinco pontes na sua artéria coronária.

Agora DeBakey está fazendo história de uma maneira diferente - como paciente. Recentemente ele recebeu alta do Hospital Metodista em Houston e voltou ao trabalho. Aos 98 anos, ele é o mais velho sobrevivente da sua própria operação, comprovando que um homem saudável da sua idade pode suportá-la.

"Ele provavelmente está bem na vanguarda de toda uma geração de indivíduos que têm entre 90 e 100 anos de idade e que vão sobreviver após passarem por esse tipo de cirurgia", diz um dos seus médicos, James L. Pool.

Mas DeBakey foi salvo por pouco.

"É um milagre", disse recentemente DeBakey, enquanto jantava em um restaurante de Houston. "Eu realmente não deveria estar aqui".

Enquanto estava deitado no sofá sozinho naquela noite, na véspera de Ano Novo, DeBakey percebeu que era improvável que estivesse sofrendo um ataque cardíaco, já que exames periódicos não indicaram que ele corria tal risco. Um quadro de aneurisma dissecante era mais provável, devido à dor, ainda que um ecocardiograma rotineiro, realizado algumas semanas antes, não tivesse dado nenhuma indicação sobre o problema.

A sua mulher, Katrin, e a filha, Olga, tinham ido à praia. Elas chegaram em casa e encontraram DeBakey deitado no sofá. Sem querer alarmá-las, ele permaneceu deitado e disse que adormecera e que acordara com uma distensão muscular.

"Eu não quis que Katrin soubesse qual fora o meu auto-diagnóstico porque, de certa forma, estaria lhe dizendo que eu morreria em breve", conta ele.

Uma ansiosa Katrin DeBakey ligou para dois colegas do marido: Mohammed Attar, seu médico de longa data, e Matthias Loebe, que estava substituindo George P. Noon, parceiro de DeBaker em cirurgias durante 40 anos. Eles seguiram rapidamente para a residência do cirurgião famoso. Após ouvirem um relato mais detalhado de DeBaker sobre a dor e também suspeitaram que esta fosse provocada por uma dissecação da aorta.

Os exames revelaram que DeBakey tinha um aneurisma dissecante da aorta do tipo 2, segundo o sistema de classificação padrão que ele elaborou vários anos atrás. É raro que alguem sobreviva a esse quadro sem passar por uma cirurgia. Mesmo assim, DeBaker diz que se recusou a dar entrada no Hospital Metodista, em parte porque não desejava ficar confinado. "Além disso, eu esperava que a situação não fosse tão ruim como parecia à primeira vista", conta ele. De Balkey temia que a operação que criou para tratar esse quadro pudesse, na sua idade, deixá-lo com sequelas mentais ou físicas. "Eu preferiria morrer", afirma ele.

Em vez disso, ele jogou com a sorte, e preferiu esperar que a aorta danificada sarasse sozinha. DeBakey escolheu receber cuidados médicos em casa. Durante mais de três semanas, os médicos ligaram freqüentemente para a residência dele, para saberem se a sua pressão estava suficientemente baixa para impedir uma ruptura da artéria. Enfermeiras monitoraram os seus alimentos e bebidas 24 horas por dia. Ele ia periodicamente ao Hospital Metodista para fazer exames de imagem a fim de medir o tamanho do aneurisma.

Mas, à medida que o tempo passava, os médicos se mostraram incapazes de controlar adequadamente a pressão arterial de DeBakey. A sua nutrição era deficiente. Ele começou a sentir falta de ar. Os seus rins falharam. O fluido acumulado na sua cavidade pericárdica envolvendo o coração sugeria que o aneurisma apresentava um vazamento.

Em 23 de janeiro deste ano DeBakey resolveu ceder e foi internado no hospital.

Exames revelaram que o aneurisma estava aumentando perigosamente de tamanho. DeBakey não respondia aos tratamentos e se aproximava da morte. Uma decisão tinha que ser tomada.

"Se não o operássemos naquele dia, seria o fim. Ele morreria, sem sombra de dúvida", conta Noon.

Naquele estágio, DeBakey já se mostrava incapaz de falar por si próprio. Os cirurgiões se reuniram e decidiram que deveriam seguir em frente com a cirurgia, apesar dos riscos. "Fizemos o que achávamos que era o certo", conta Noon, acrescentando: "Não havia nada que fizesse dele um candidato sem esperança de sobreviver à operação, com exceção do fato de ter 97 anos". Todos os membros da família concordaram com a cirurgia.

"Olga e eu rezamos bastante", diz Katrin DeBakey, que é da Alemanha. "Tínhamos um curandeiro na Europa que nos disse que ele sobreviveria. Aquilo nos ajudou".

Mas, a seguir, as coisas ficaram mais complicadas.

Foi naquele momento que os anestesiologistas do Hospital Metodista se recusaram obstinadamente a aceitar DeBakey como paciente. Eles citaram um formulário padrão que ele havia assinado, afirmando que não desejava ser ressuscitado caso o seu coração deixasse de bater, e uma nota na qual dizia que não desejava passar por uma cirurgia em um quadro de dissecação da aorta e aneurisma. Além disso, eles estavam preocupados com a idade e a condição física precária do paciente.

Katrin DeBakey conta que os anestesiologistas temiam que o paciente morresse na mesa de operação, e não queriam ficar conhecidos como os médicos que mataram o doutor DeBakey. Joseph J. Naples, o chefe do departamento de anestesiologia do hospital, não respondeu a diversos telefonemas para o seu consultório solicitando que fizesse comentários sobre o episódio.

A fim de cumprir as suas responsabilidades legais, o Hospital Metodista convocou membros do seu comitê de ética, que chegaram em uma hora. Eles se reuniram com os médicos de DeBakey em uma sala de jantar particular que ficava a alguns metros do quarto de DeBakey, segundo cinco dos médicos que participaram da reunião.

O paciente era um homem que sempre estivera no comando. Mas agora, um DeBakey inerte não tinha controle sobre o seu próprio destino.

Depois que os membros do comitê se reuniram por uma hora, Katrin DeBakey foi incapaz de suportar a situação por mais tempo. Ela ingressou na sala.

"O meu marido morrerá antes mesmo que tenhamos uma chance de fazer alguma coisa - vamos trabalhar", Katrin disse a eles.

A discussão terminou. Houve um consenso da maioria, sem a necessidade de uma votação formal. Segundo os médicos, não se perdeu mais um minuto sequer.

"Rapaz, quando aquela reunião terminou, o foco era um só - a melhor cirurgia, o melhor tratamento pós-operatório, a melhor recuperação que poderíamos proporcionar a eles", conta Pool.

A operação duraria sete horas.

Durante parte desse período, o corpo de DeBakey foi resfriado a fim de proteger o seu cérebro e outros órgãos. O seu coração foi imobilizado, enquanto uma máquina que atua como coração e pulmão artificiais bombeava sangue rico em oxigênio pelo seu corpo. Os cirurgiões substituíram a parte danificada da aorta de DeBarkey por um substituto com comprimento entre 15 e 20 centímetros feito de Dacron, um material semelhante àquele usado em camisas. O dispositivo era do tipo que DeBakey inventou na década de 1950.

Depois disso, DeBakey foi levado para uma unidade de tratamento intensivo.

Noon conta que alguns médicos acreditavam que DeBakey morreria durante a operação ou pouco depois dela. "Mas ele simplesmente melhorou".

Entretanto, conforme se temia, a sua recuperação foi conturbada.

Durante um mês, DeBakey ficou na unidade de terapia intensiva, que não tem janelas, às vezes delirante, às vezes inerte, dependendo em parte da medicação que lhe era administrada. Os médicos estavam profundamente preocupados com a possibilidade de ele ter sofrido danos cerebrais sérios e permanentes.

Mas tão logo a pressão arterial foi controlada com medicamentos, DeBakey começou a se recuperar bem.

Quando DeBakey se recuperou e foi informado sobre o que acontecera, ele disse aos médicos que estava feliz pelo fato de estes o terem operado. Os médicos disseram ter se sentido aliviados, porque temiam que DeBakey fosse repudiar a decisão tomada por eles.

"Se eles não me tivessem operado, eu estaria morto", afirma DeBakey.

Os médicos e a família jogaram os dados e venceram.

DeBakey não se recorda de ter assinado uma ordem para que não fosse ressuscitado, e atualmente acha que os médicos procederam da forma correta. Segundo ele, nesses casos os médicos devem ser capazes de tomar decisões sem compromissos.

DeBakey já voltou a trabalhar quase o dia todo.

"Me sinto muito bem", disse ele recentemente. "Estou de volta ao jogo da vida". UOL

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