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27/12/2006
Seduzido pelo lado praiano de uma terra sofrida

Por Jeff Koyen

Era um dia de céu claro e deslumbrante, e havia menos de 100 pessoas na praia de Inani, uma ampla faixa de areia branca rala que se estende de horizonte a horizonte ao longo da extremidade sudoeste de Bangladesh. É apenas parte de uma faixa arenosa que se estende por uns 130 quilômetros de ponta a ponta, e que é chamada freqüentemente de a mais longa praia do mundo, se bem que mais pareceu ser a mais isolada de todas.

The New York Times 
Coqueiros emolduram praia deserta em Bangladesh

Eu estava todo esparramado numa cadeira de praia que aluguei, durante várias horas no último mês de abril, sobre areia tão macia e lisa quanto a própria baía de Bengala, e a praia se estendia como uma estrada recentemente pavimentada. Fileiras de abetos, árvores coníferas, balançavam na brisa cheia de sal. E as únicas interrupções ficavam por conta de meninos bengaleses que poderiam me trazer um refrigerante morno se eu lhes desse uma pequena baksheesh, ou gorjeta.

Não há jetskis, nem barcos a motor nem carros - apenas o espirrar das águas mornas do banho de mar. Riquixás movidos a pedal seguiam pela estrada de terra. Barcos pesqueiros de madeira navegavam delicadamente pelas águas de tom verde-escuro, como os navios de piratas de antanho. Era tão silencioso que até usar headphones de algum modo pareceria ser rude, mesmo se você estivesse escutando o "Concerto de Bangladesh" de George Harrison.

Para uma determinada geração, é assim mesmo que este país é mais reconhecido - pelo Concerto para Bangladesh de 1971, que Harrison e seus amigos, incluindo o músico bengalês Ravi Shankar, produziram para levantar dinheiro para os famintos deste país sul-asiático.

Bangladesh raramente gera notícias, a menos que haja uma inundação arrasadora, uma epidemia ou uma turbulência política, como ocorreu no mês passado, quando greves relacionadas às eleições que ocorrem daqui a um mês paralisaram o país, deixando pelo menos dois mortos. (No site travel.state.gov/travel, o Departamento do Estado dos EUA já advertiu os americanos que "espera uma situação inconstante por toda Bangladesh durante janeiro".)

Mas este país pobre, superpovoado e tão sofrido está atraindo turistas, silenciosamente. Por enquanto muitos, se não a maioria dos visitantes de Bangladesh, vêm da Índia, mas cada vez mais os ocidentais descobrem que este recanto primitivo ao longo da margem oriental da baía de Bengala é uma alternativa, menos conhecida e mais barata, em relação a Bali e Tailândia.

Espremido ali no nordeste da Índia e ao longo de uma pequena fronteira com Mianmar (anteriormente Birmânia), esta terra fértil ao nível do mar atravessa o trópico de Câncer e é entrecortada pelos rios Ganges, Jamuna e Meghna, que correm em direção à baía de Bengala. Tem selvas pantanosas atravessadas por inúmeros córregos, uma ampla variedade de praias selvagens e ao sudoeste há Sundarbans, a maior floresta de manguezais no mundo e terra do tigre real de Bengala.

A maior parte do país, felizmente, está a salvo de turistas. Não é à toa que o comitê turístico do país adotou o slogan "Visite Bangladesh antes que os turistas venham." Com 147 milhões de pessoas ocupando aproximadamente a mesma área que o estado de Iowa, Bangladesh está entre as nações mais densamente povoadas na terra. É também uma nação muçulmana. Sendo assim, cada aspecto da vida é influenciado pelo Islã, da transmissão das preces da manhã até as altas cidadelas, a ausência de lojas de bebidas e de qualquer coisa que possa lembrar a vida noturna ocidental.

Eu comecei minha visita de um mês de duração por Dacca, a agitada e caótica capital, às margens do rio Buriganga. Não é possível apreciar uma voltinha casual por Dacca. Uma visita ao centro da cidade significa engarrafamentos causados por tropéis de riquixás decorados com extravagância, ônibus com peças coladas com argamassa Bondo e os táxis que roncam e aprontam cobrando pelo relógio.

Dacca também não é a cidade de cheio mais agradável; na atmosfera quente e abafada há sugestões de cheiro de esgoto e de povo.

Eu não fiquei por lá durante muito tempo. Como a maioria dos viajantes, me dirigi a Cox's Bazar, uma cidade mais movimentada, na mesma longa faixa de areia de Inani. A viagem a partir de Dacca durou umas 10 horas angustiantes num antigo ônibus escolar caindo aos pedaços. Esta não foi uma viagem calma - os motoristas de Bangladesh não são propriamente conhecidos por permanecerem em suas faixas de tráfego.

Mas, a poucos quilômetros da frenética e industrializada Dacca, a paisagem mudou de forma dramática, revelando uma terra verdejante e plana coberta por arrozais colhidos a mão e palmeiras preguiçosamente ondulando no calor. Lagoas minúsculas, verdes das algas, pontilhavam a paisagem como poças após uma tempestade. Crianças se banhavam, brincavam e acenavam animadas para os ônibus que passavam.

Cox's Bazar pode até ser um balneário, mas de certa forma parece ser uma cidade grande. Com vias estreitas e sujas que ficam engarrafadas do amanhecer ao por do sol, é uma versão menor de Dacca - enervante, desleixada e muito doida. Mas é também o epicentro do turismo de Bangladesh, e a terra favorita para os visitantes que se dirigem às intactas praias de areia branca e balsâmicas águas livres de tubarões.

Embora a praia se estenda por quilômetros ao norte e ao sul, a maioria dos visitantes já se sente satisfeita em se sentar ali mesmo, pela areia de Cox's Bazar. São praias liberadas, abertas ao público e tão vastas que é quase impossível se sentir numa multidão.

Para ocidentais que tentam se integrar, ir à praia no estilo de Bangladesh significa deixar calções e biquínis em casa. Os banhistas locais se vestem como se estivessem indo trabalhar. Os homens usam calças com pregas e camisas sociais - alguns usam até mesmo gravatas. Suas esposas, sem exceção, usam saris tradicionais. Mesmo as crianças são vestidas de maneira simplória, com calças compridas e camisas de abotoar. E ninguém consegue nadar muito, já que assim que mergulham na água ficam atrapalhados pelo excesso de roupa.

Você não verá muitos ocidentais, mas a situação pode mudar. Os lotes diante do mar estão sendo arrematados por cadeias hoteleiras que esperam desenvolver o oásis tropical, o transformando em via turística. Já foram abertos diversos hotéis de luxo direcionados aos estrangeiros ricos.

Entre os mais novos está o (autoclassificado como "quatro estrelas") Seagull Hotel, a poucos passos da via Hotel Road, nome apropriado, a alguns quilômetros ao sul do centro da cidade. Pairando acima das sempre-vivas que margeiam a praia, sua fachada espelhada e de concreto branco se destaca, em contraste com as choupanas da cidade ,de tijolo vermelho, modestas e empoeiradas. Parece mais com um edifício americano suburbano de escritórios do que com um resort praiano.

O hotel tem 182 quartos no estilo Holyday Inn e também um restaurante que serve pizzas, um salão de beleza, uma passagem privativa que vai dar na praia e uma grande piscina em cuja beira, numa tarde de segunda-feira, um grupo de homens europeus levava uma reunião de negócios. Fora isso, o hotel estava vazio.

Mas por U$ 60 a noite por um quarto duplo, com vista para o oceano, o apelo é inegável. Além disso, o serviço do hotel é eficiente, profissional e amigável. Na verdade, por toda parte onde se vai em Cox's Bazar (ou em toda Bangladesh, nesse aspecto) as pessoas são invariavelmente simpáticas.

Como mosquitos em uma tarde quente, nuvens de crianças e homens adultos rondam os estrangeiros que seguem rua abaixo, procurando um restaurante ou um corte de cabelo. No início, isto pode parecer agressivo, mas logo você se dá conta que esta é a maneira deles de mostrar hospitalidade.

Eu aprendi essa lição logo em um passeio de um dia a Moheshkali, uma ilha a alguns quilômetros da costa de Cox's Bazar. Por lá refugiados de Burma vivem num acordo pacífico com os bangladeshis e uma minoria hindu, dando a esta pequena ilha de pescadores um ar incomum de multiculturalismo.

Já que estávamos no fim da estação seca, o tempo era sujeito a tempestades repentinas. E quando eu entrei na balsa naquela manhã, enquanto o céu estava límpido e as águas mansas, também havia trovoadas ameaçadoras, e relâmpagos violentos me aguardavam no retorno algumas horas mais tarde.

Enquanto a balsa - na verdade, um barco a motor para 10 pessoas - balançava muito pela baía, um rapaz se intrometeu e gritou em inglês: "Ei, americano! Está assustado?"

Verdade seja dita, eu não estava não. Desde que chegara em Bangladesh, já tinha sobrevivido a uma viagem de ônibus num sacode-e-desce com galinhas a bordo, havia enfrentado as pistas montado em riquixás cambaleantes e avançado por ruas estreitas atravancadas por vacas nervosas. Perto disso tudo, que mal havia em um pouco de enjôo marítimo?

Mas aquele homem no barco não estava me provocando não; estava era puxando uma conversa. Quando chegamos à terra firme, o rapaz, Muhammad, professor do ensino médio, me convidou para irmos a um café das redondezas, onde nos recompusemos e saboreamos chá adocicado e até umas sobremesas bem doces.

Para compensar a bondade do rapaz, eu visitei a turma dele na manhã seguinte, onde dei uma aula de inglês improvisada. Mais uma vez eu fui convidado para um chá, desta vez por um estudante de olhos ingênuos e ansioso para aprender mais sobre os Estados Unidos. Eu declinei educadamente - toda esta generosidade com idas e voltas poderia se estender durante dias, e eu queria mais era voltar para a praia.

Tradução: Marcelo Godoy

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