UOL Notícias Internacional
 

28/12/2006

Saddam está preparado para morrer, dizem advogados

The New York Times
Marc Santora*

em Bagdá, Iraque
Saddam Hussein, que deverá subir a escada da forca para sua morte em algum momento nos próximos 30 dias, disse estar preparado para morrer e certo de seu lugar no céu como mártir, assim como pediu pela união dos iraquianos, segundo uma carta que seus advogados disseram na quarta-feira ter sido escrita pelo ex-ditador.

Os temores de que o anúncio da manutenção da pena de morte, na terça-feira (26), provocaria violência aparentemente não se concretizaram imediatamente. Mas as autoridades ainda estão preocupadas com a possível reação pública diante da execução em si, e algumas especulam que o enforcamento deveria ocorrer em segredo e apenas ser anunciado após o fato. Autoridades americanas e iraquianas não disseram nada definitivo na quarta-feira sobre os detalhes da execução.

Saddam está detido no Campo Cropper, uma base americana próxima do Aeroporto de Bagdá. Apesar do local do enforcamento ainda não ter sido anunciado, o principal centro de execução em Bagdá fica próximo de sua cela. Em um prédio de concreto enfadonho, degraus de aço levam a uma plataforma, a cerca de 4,5 metros de altura. Lá, laços feitos de cordas de cânhamo são colocados em volta do pescoço dos condenados antes que um alçapão de aço se abra.

Em sua carta mais recente, Saddam não exibiu a linguagem bombástica e desafio que definiram suas aparições no tribunal.

Saddam foi condenado em 5 de novembro de crimes contra a humanidade por seu papel na execução de 148 homens e meninos na cidade de Dujail, no norte, e escreveu sua carta de adeus naquela época, disseram seus advogados.

"Eu digo adeus a vocês, mas estarei com o Deus misericordioso, que ajuda aqueles que se refugiam nele e que nunca desapontará um crente honesto", disse a carta. "Eu peço a vocês para não odiarem, porque o ódio não deixa espaço para uma pessoa ser justa, a deixa cega e fecha todas as portas do pensamento."

A carta, que foi postada no site do Partido Baath e recebeu grande cobertura dos canais de TV de notícias árabes, pareceu causar pouca comoção pública aqui, sem nenhuma manifestação em grande escala ou ataques feitos explicitamente em solidariedade a Saddam.

As forças americanas continuaram na quarta-feira a se concentrar na milícia Exército Mahdi, leal ao clérigo xiita Muqtada al Sadr.

Em Najaf, as forças americanas e iraquianas realizaram uma batida na casa de um seguidor de Sadr, Sahib al Amiri, e o mataram a tiros.

Al Amiri liderava uma conhecida organização social em Najaf chamada Fundação Shahid Allah e tinha laços estreitos com Al Sadr, disseram autoridades iraquianas em Najaf.

Enquanto milhares de manifestantes irados marchavam na procissão fúnebre de Al Amiri, Al Sadr pedia aos seguidores na cidade para permaneceram calmos. Ao mesmo tempo, ele divulgou uma declaração que elogiava os ataques contra as forças americanas.

"Nós ouvimos que Bush, o inimigo de Deus, está chorando as mortes de soldados americanos no Iraque", disse a declaração. "Nós pedimos a Deus para prolongar seu choro. Nós lhe dizemos que a morte de qualquer iraquiano pelas mãos de seu Exército é uma fonte de orgulho para nós." Os americanos transferiram o controle da segurança na província de Najaf para os iraquianos em uma cerimônia elaborada na semana passada, mas os líderes locais questionaram o significado da transferência já que os americanos ainda podem realizar ataques diretos ali.

"No momento em que os iraquianos se sentiam felizes com a aprovação da execução do ditador Saddam Hussein, hoje eles ficaram surpresos com o ataque contra a casa de Sahab al Amiri e sua morte diante dos olhos de sua família e filhos", disse Abdul Hussein al Musawi, o chefe do conselho de governo de Najaf. "Este ato horrível mostra quão imprudentes são as forças de ataque."

Oficiais militares americanos disseram que Al Amiri foi responsável pelo planejamento e orquestração de ataques com artefatos explosivos improvisados. Eles disseram que a batida foi conduzida em cooperação com a 8ª Divisão do Exército Iraquiano e que Al Amiri tentou fugir quando os soldados entraram na casa.

Ele correu para o telhado, foi perseguido e então apontou um rifle de assalto contra um oficial iraquiano. Naquele instante um soldado o matou a tiros, disseram as forças armadas em uma declaração.

Também houve uma maior pressão sobre os seguidores de Sadr em Bagdá na quarta-feira. Por todo o dia, soldados americanos e iraquianos entraram em ação contra milicianos ao redor do bairro Sadr City, no nordeste da capital, segundo testemunhas e autoridades iraquianas.

Confrontos entre as forças de segurança iraquianas e milicianos foram informados em meia dúzia de outros bairros de Bagdá. Forças do governo mataram pelo menos 32 pessoas e prenderam outras 39, disseram autoridades iraquianas.

Separadamente, por volta das 14h30, um carro-bomba explodiu perto de um restaurante popular no centro e matou pelo menos 10 civis, disse uma autoridade iraquiana. Uma hora depois, outro carro-bomba explodiu perto de uma ponte de grande movimento, matando mais quatro pessoas, disse a autoridade.

Os corpos de 50 pessoas, muitas torturadas e executadas, foram encontrados ao redor da cidade.

Na província de Anbar, onde as forças americanas estão enfrentando os rebeldes árabes sunitas, um marine americano foi morto em combate, segundo as forças armadas.

Em Washington na quarta-feira, um juiz do Tribunal Distrital Federal se recusou a intervir no caso de pena de morte para Saddam, rejeitando o pedido de advogados de defesa americanos para bloqueio temporário da execução.

Advogados de Awad al Bandar, um ex-juiz iraquiano condenado à morte juntamente com Saddam, impetraram um pedido de habeas corpus em prol dele no Tribunal Distrital Federal, buscando suspender a execução com base no fato dele não ter recebido um julgamento justo.

Os advogados, incluindo Ramsey Clark, o ex-procurador-geral dos Estados Unidos que serviu na equipe de defesa no julgamento, argumentam que o tribunal federal tinha jurisdição porque Al Bandar está sob custódia militar americana no Iraque.

Mas o juiz, Reggie B. Walton, rejeitou a alegação, dizendo não ter jurisdição. Mas ele permitiu que os advogados de defesa apelassem a decisão na esperança de persuadir os tribunais americanos a intervirem.

Notando que os iraquianos estabeleceram os tribunais nos quais Saddam e Al Bandar foram julgados, Walton perguntou: "Por que me envolveria e interferiria em operações de uma nação soberana?"

Clark disse em uma entrevista que impetrou a petição a pedido do filho de Al Bandar, depois que Saddam não permitiu que ele o fizesse. Em uma conversa no Iraque na época de seu sentenciamento no mês passado, Clark disse que tentou persuadir Saddam a apelar a tribunais americanos para bloquear a execução.

"Ele disse que seria interpretado como uma tentativa de buscar misericórdia dos Estados Unidos", disse Clark, "e ele nunca o permitiria".

*Um funcionário americano do "The New York Times", em Najaf, e Suevon Lee, em Washington, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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