UOL Notícias Internacional
 

30/12/2006

Morte do tirano é ofuscada pela realidade da guerra

The New York Times
Jeff Zeleny

Em Crawford, Texas
A captura de Saddam Hussein há três anos foi um momento de júbilo para a Casa Branca, saudada pelo presidente Bush em um discurso na Sala do Gabinete transmitido pela televisão. Mas a execução de Saddam não pareceu inspirar o mesmo sentimento.

Desde sua prisão em 13 de dezembro de 2003, Saddam gradualmente desapareceu de vista, exceto por seus acessos no tribunal e textos escritos na prisão. O crescente caos e violência no Iraque foram ofuscando constantemente o governo torturante de Saddam, que por mais de duas décadas ocupou um lugar único na política e psique dos Estados Unidos, um símbolo da manifestação do mal no Oriente Médio.

Agora, o que poderia ser uma conclusão triunfante para a invasão americana ao Iraque foi abafada pela realidade sombria das condições em solo aqui. O enforcamento de Saddam significa que o líder derrubado respondeu por seus crimes, cumprindo a meta americana da guerra mais citada pela Casa Branca após ter sido provada a inexistência das armas de destruição de massa do Iraque.

Mas tal guerra está se aproximando de seu quinto ano e a violência sectária, que cresceu independente de qualquer antiga fidelidade sunita ou baathista a Saddam, gera perguntas sobre que mudança, se é que haverá alguma, sua morte poderia promover.

"A face de Saddam está neste processo desde o início e agora tal face se foi", disse Bruce Buchanan, um professor de governo da Universidade do Texas, em Austin. "Mas em muitos aspectos, ele tem um papel pequeno agora."

Mas mesmo em um papel pequeno, o espectro de Saddam permanece intimamente interligado a Bush e seu pai, George H.W. Bush. Dois anos após a Guerra no Golfo Pérsico, Saddam ordenou uma tentativa de assassinato de Bush pai, um ato de despeito que o 43º presidente nunca esqueceu.

Aqui em Crawford, onde o presidente está passando a semana entre o Natal e o Ano Novo, assessores planejaram a forma como a Casa Branca responderia à execução de Saddam. Eles descartaram rapidamente a idéia de colocar o presidente diante das câmeras de televisão, temerosos de passar uma mensagem de que Bush estava cantando vitória ou de que os Estados Unidos orquestraram a execução, que oficialmente foi realizada pelo governo iraquiano.

Mas um alto funcionário do governo, falando sob a condição de anonimato para discutir a estratégia interna, também reconheceu que os desafios no Iraque contribuíram para a decisão do presidente de simplesmente emitir uma breve declaração por escrito após a execução. A Casa Branca concluiu que mesmo um desdobramento tão dramático quanto o enforcamento de Saddam não poderia ser usado para renovar o apoio à guerra.

"Os americanos já levaram isto em consideração", disse Frank Newport, o editor-chefe da Pesquisa Gallup. "Os benefícios da deposição de Saddam Hussein são ultrapassados em muito pelo custo da guerra."

Uma pesquisa Gallup realizada entre 8 e 10 de dezembro mostrou que 64% dos americanos disseram que os custos da guerra ultrapassam os benefícios. Apenas 33% discordaram, dizendo que os benefícios - incluindo a derrubada de Saddam - superam os custos.

É uma mudança notável de pensamento, disse Newport, considerando que, desde a primeira guerra do Golfo, uma ampla maioria de americanos apoiava a derrubada de Saddam. Este foi o principal motivo, segundo as pesquisas, para mais de 60% dos americanos apoiarem inicialmente a guerra no Iraque, ele disse.

Em junho de 1993, após a tentativa fracassada de assassinato de Bush pai por agentes do governo iraquiano, 53% dos americanos disseram sobre Saddam, em uma pesquisa Gallup, que apoiavam "a ação extrema de assassiná-lo para removê-lo do poder", enquanto 37% disseram que não.

Tais sentimentos, é claro, foram manifestados uma década antes da invasão que deu início à guerra atual.

O senador John Kerry, o democrata de Massachusetts que concorreu contra Bush em 2004 e se tornou um crítico cada vez mais forte da guerra, além de ter voltado recentemente de uma visita ao Iraque, disse que a execução de Saddam dificilmente valeu o custo.

"Ir à guerra para matar um sujeito? Por favor", disse Kerry, acrescentando que a execução se tornou "quase um espetáculo paralelo ao dilema fundamental no Iraque".

"O que não será resolvido pela sua morte é a resolução política que é crítica para a mudança de direção e dinâmica no país", ele acrescentou. "Tais pontos permanecem fundamentalmente os mesmos." George El Khouri Andolfato

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