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01/01/2007

Problemas no sistema de saúde? Examinem a psique norte-americana

The New York Times
Anna Bernasek
Qual é o problema mais urgente no que diz respeito à economia? Um grande candidato é a crise crescente do sistema de saúde. Custos que disparam, cada vez mais pessoas que não contam com cobertura e uma erosão constante dos benefícios de saúde concedidos pelas corporações são questões que compõem um gigantesco percalço à futura prosperidade dos Estados Unidos.

Embora o cenário pareça amedrontador, ele não tem de ser. Existe uma solução, que se mostrou eficiente para centenas de milhões de pessoas: os planos de saúde pagos a uma única entidade.

Sim, aquela idéia tão repudiada, segundo a qual todos pagam a um único segurador, geralmente o governo ou uma agência pública. A seguir o segurador paga aos médicos, aos farmacêuticos e aos hospitais segundo taxas preestabelecidas. Os pacientes que desejam procedimentos não aprovados pelo sistema e os médicos que não se dispõem a aceitar o pagamento padronizado têm a liberdade de negociarem entre si diretamente, fora do sistema.

Tal modelo faz com que seja muito mais fácil lidar com os custos crescentes dos tratamentos médicos, incluindo as despesas administrativas e os medicamentos vendidos com receita médica. Isso poderia também reduzir as montanhas de papel que prejudicam o sistema atual, e proporcionar seguro-saúde para os 46 milhões de norte-americanos que estão descobertos.

Além do mais, conforme ficou demonstrado na França, no Reino Unido, no Canadá, na Austrália e em outros países com sistemas funcionais desse tipo, pode-se obter uma economia significativa sem que se prejudique a saúde da população.

Só existe um problema. A maioria dos norte-americanos não acredita que isso possa ser feito. Ou seja, a crise do setor de saúde pode ser mais um problema relativo à ideologia do que à economia.

A argumentação em favor do sistema de um único segurador é surpreendentemente robusta. Comecemos por aquilo que já sabemos. Países que adotaram esse sistema possuem longos históricos de menos gastos com seguro de saúde do que os Estados Unidos. Os Estados Unidos gastaram em média US$
6.102 por pessoa em 2004, de acordo com a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento, enquanto o Canadá gastou US$ 3.165, a França, US$ 3.159, a Austrália, US$ 3.120 e o Reino Unido, apenas US$ 2.508.

Ao mesmo tempo, a expectativa de vida nos Estados Unidos, um amplo indicador de saúde, foi ligeiramente inferior à desses outros países em 2004, o último ano para o qual existem estatísticas disponíveis. E os Estados Unidos apresentaram um índice mais elevado de mortalidade infantil.

Na verdade, um sistema desse tipo tem vários críticos. Características desestimulantes de tal sistema, incluindo filas de espera para determinadas especialidades, são muitas vezes citadas pelos céticos. Mas os que o apóiam observam que a saúde geral da população é melhor nesses países.

"A história nunca muda", diz Gerard F. Anderson, professor da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. "Os Estados Unidos são duas vezes mais caros, com um resultado mais ou menos igual. Como consumidor, eu não me importo de pagar mais se estiver recebendo mais, mas não é isso o que acontece nos Estados Unidos", explica Anderson, que publica uma revisão anual comparando o sistema de saúde pública dos Estados Unidos com o de outros países.

O que talvez pouco se conheça é o grau de desperdício administrativo no sistema de saúde pública dos Estados Unidos, quando comparado ao de outros sistemas. Embora os norte-americanos tendam a igualar eficiência à iniciativa privada, não é isso o que ocorre no atual sistema.

O sistema norte-americano, baseado em múltiplas seguradoras, gera mais custos desnecessários. Processos duplicados de pedidos de consultas e exames, grande número de produtos de seguradoras, sistemas de pagamentos de contas complicados e altos preços de mercado se somam às enormes despesas administrativas.

Além disso, há a enorme quantidade de papel exigida dos médicos e hospitais norte-americanos, algo que simplesmente não existe em países como Canadá e Reino Unido.

"Atualmente há pouco desacordo entre os economistas de que um sistema de segurador único geraria uma redução dos custos administrativos", diz Len Nichols, economista especializado na área de saúde que trabalha na New America Foundation, uma organização de pesquisas políticas com sede em Washington. Mas ele diz que as estimativas variam quanto à economia que poderia ser obtida.

Um dos primeiros grandes estudos a quantificarem os custos administrativos nos Estados Unidos foi publicado em agosto de 2003 no "The New England Journal of Medicine", por três pesquisadores da Universidade Harvard —Stefanie Woolhandler, Terry Campbell e David U. Himmelstein. O estudo concluiu que tais custos respondem por 31% de todos os gastos com saúde nos Estados Unidos.

Mais recentemente, em 2005, um estudo feito pelo Lewin Group, uma firma de consultoria da área de saúde, encomendado para examinar uma proposta para o fornecimento de cobertura universal de saúde na Califórnia, calculou que os custos administrativos consomem 20% das verbas totais destinadas à saúde em toda a nação.

A seguir, houve o teste do tempo. Os custos de saúde tendem a aumentar no decorrer do tempo, à medida que surgem novas tecnologias e procedimentos médicos. Mas, aqui também os sistemas financiados pelos governos pareceram ajudar a conter as despesas de longo prazo.

Vejamos o sistema do Canadá. Anderson, da Universidade Johns Hopkins, observa que, na década de 1960, o Canadá e os Estados Unidos desembolsavam mais ou menos o mesmo valor por pessoa nos seus sistemas de saúde. No entanto, cerca de três décadas depois, o Canadá gasta a metade do dinheiro despendido pelos Estados Unidos.

Como foi que o Canadá conseguiu isso? Por meio do controle da utilização de equipamentos médicos e recursos hospitalares, que as estatísticas demonstram que ajudaram os canadenses a conter os custos sem comprometer, de forma mensurável, a saúde geral da população.

Estudos econômicos também revelam que um sistema financiado pelo governo poderia reduzir os custos, e ao mesmo tempo proporcionar cobertura para todos. O relatório de Lewin sobre a proposta para o fornecimento de seguro universal de saúde na Califórnia prevê que, se tal sistema estivesse funcionando em 2006, ele teria economizado US$ 8 bilhões, ou cerca de 4,3% dos gastos totais com saúde naquele Estado. De 2006 a 2015, calcula-se que a economia total poderia ser de US$ 343 bilhões. Atualmente, a Califórnia gasta cerca de US$ 180 bilhões ao ano com o sistema de saúde.

Apesar de tudo o que se sabe a respeito dos benefícios econômicos de um sistema desse tipo, existe um grande obstáculo para a sua adoção: muitos norte-americanos não acreditam nele. Ele ouviram histórias de horror de outros países, muitas vezes disseminadas pelos defensores da atual situação, e que enfatizaram os piores casos. Tais histórias encontram ressonância na aversão de muitos norte-americanos pelo envolvimento do governo na economia.

Victor R. Fuchs, professor de economia da Universidade Stanford e especialista em economia aplicada ao setor de saúde, explica a questão da seguinte forma: "O sistema canadense não tem chances de ser bem sucedido nos Estados Unidos, mesmo que seja um bom sistema para os canadenses. Estamos lidando com dois países diferentes. O nosso país foi criado com base na vida, na liberdade e na busca da felicidade. Ele foram criados com base na paz, na ordem e no bom governo. Existe uma diferença de valores".

Outros especialistas da área ecoam esse ceticismo. Mas isso faz com que se questione se os estadunidenses compreendem o sistema que têm, e quais são as alternativas.

A julgar pelos outros países, muitas das características que os norte-americanos realmente apreciam —como poderem escolher os seus próprios médicos— continuariam disponíveis em um sistema bem projetado de um único provedor. E um sistema dessa natureza não significaria serviços prestados pelo governo: muitas vezes ele significa seguro fornecido pelo governo que encoraja a concorrência entre os provedores de serviços de saúde.

Grande parte da resistência ao sistema de provedor único parece se basear na falta de confiança na capacidade do país de realizar uma mudança positiva. Com toda a sua competência em pesquisa e tecnologia, será que os Estados Unidos não são capazes de alcançar a eficiência de outras nações desenvolvidas, ou até mesmo de superá-las?

Mudar a mentalidade de milhões de pessoas não é algo que se faça da noite para o dia. Mas, cedo ou tarde, as tentativas de persuadir os cidadãos a fazerem algo que seja de seu interesse econômico serão bem-sucedidas.

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