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02/01/2007

Aparição de Kissinger revive lembranças da era do Vietnã

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg

em Washington
De todos os antigos detentores de poder de Washington que reapareceram à sombra da morte do ex-presidente Gerald R. Ford, há um, Henry A. Kissinger, cujo retorno aos holofotes pode ser tanto uma maldição quanto uma bênção.

Stephen Crowley/The New York Times 
Henry Kissinger, entre Alan Greenspan e Brent Scowcroft, nos funerais de Gerald Ford

Aos 83 anos, Kissinger, o ex-secretário de Estado dos presidentes Ford e Richard M. Nixon e às vezes consultor do atual ocupante da Casa Branca, continua sendo uma figura importante nas relações exteriores. Ele deverá ser um dos poucos escolhidos, incluindo o presidente Bush, a falar sobre Ford na cerimônia fúnebre na Catedral Nacional, na terça-feira.

Mas em um momento em que a opinião pública se volta contra a guerra no Iraque - e no preciso momento em que os Estados Unidos atingem o marco de 3 mil americanos mortos lá- a reaparição de Kissinger está trazendo à tona memórias e reacendendo debates sobre seu papel na administração de outro conflito impopular, a Guerra do Vietnã.

"Henry é certamente um dos personagens mais complexos na história americana recente, e é alguém que, eu penso, justificadamente esteve em destaque tanto por seu brilhantismo e competência extraordinários quanto por seus defeitos claros", disse David Rothkopf, um ex-diretor administrativo da firma de consultoria de Kissinger e escritor de "Running the World", sobre o Conselho de Segurança Nacional. "Uma das dimensões interessantes da morte de Gerald Ford são as fotos que trouxe de volta aos jornais, de Ford com Rumsfeld, Ford com Cheney, Ford com Henry."

"Foi esquecido que todas estas pessoas estavam juntas há 30 anos lidando com o Vietnã, lidando com uma nação dividida."

Mas de todos os ex-conselheiros de Ford, apenas Kissinger continua a evocar as paixões sobre o Vietnã que Rumsfeld evoca atualmente em relação ao Iraque. Neste ano, o secretário de imprensa da Casa Branca, Tony Snow, confirmou que Kissinger estava discretamente aconselhando Bush sobre o Iraque em reuniões privadas no Escritório Oval. Kissinger, disse Snow, "apóia o impulso e direção geral da política do governo" no Iraque.

Dada a experiência pessoal de Kissinger com decisões difíceis sobre a retirada do Vietnã, a revelação provocou as comparações inevitáveis entre o Iraque e o Vietnã que Bush busca assiduamente evitar. Agora, o funeral de Ford está renovando tais comparações.

Aaron David Miller, um estudioso do Centro Internacional Woodrow Wilson que recentemente entrevistou Kissinger para um livro sobre a política americana no Oriente Médio, descreve Kissinger como "o foco da raiva das pessoas contrárias à guerra no Vietnã", uma imagem que ele disse que não pode ser evitada no momento em que as presidências de Nixon e Ford são revisitadas nesta semana. "Aqui está Kissinger de volta ao centro das atenções", disse Miller. "Com grande parte de sua bagagem o acompanhando."

Parte de tal bagagem inclui sacolas de Watergate. Em 1969, como conselheiro de segurança nacional de Nixon, Kissinger teve um papel no grampeamento do telefone de um assessor, Morton H. Halperin, que era suspeito de vazar informação confidencial para a imprensa. Halperin processou. Em 1992, Kissinger emitiu um pedido formal de desculpas.

"Foi o preço para encerrar o processo", disse Halperin, que se tornou um defensor das liberdades civis e atualmente é um dos principais oponentes dos grampos domésticos do governo Bush. "Toda vez que havia um desdobramento no processo, isto lembrava às pessoas seu papel no grampo telefônico. Ele prefere ser lembrado por outras coisas."

Kissinger, é claro, é lembrado não apenas pelo Vietnã, mas também por ser o arquiteto da détente com a União Soviética e vencedor do Prêmio Nobel da Paz. Mas em meio aos tributos lisonjeiros a Ford, na última semana, estiveram algumas descrições desagradáveis de Kissinger, incluindo algumas feitas pelo ex-presidente.

Havia alguma tensão no relacionamento. Kissinger foi nomeado secretário de Estado por Nixon em 1973, ao mesmo tempo em que mantinha seu posto como conselheiro de segurança nacional. Foi um arranjo incomum, um que permitiu a Kissinger centralizar seu poder sobre a política externa enquanto Nixon se preocupava com Watergate. Em 1975, Ford acabou com isto, destituindo Kissinger do título de conselheiro de segurança nacional.

Kissinger reagiu. "'Sr. presidente, a imprensa entenderá isto equivocadamente'", disse Ford, recontando a reação de Kissinger a Bob Woodward, do "The Washington Post", em entrevistas publicadas na semana passada.

As entrevistas pintaram Kissinger como uma espécie de desafio administrativo para Ford, de alto impacto, mas também de alta manutenção.

Ford chamou Kissinger de "supersecretário de Estado", mas o retratou como excessivamente confiante -"Em sua mente, Henry nunca cometeu um erro"- e muito sensível às críticas da imprensa, tanto que rotineiramente ameaçava renunciar por causa delas.

"Publicamente Henry era um diplomata de origem alemã mal-humorado e obstinado", Ford foi citado como tendo dito, "mas ele era a figura pública mais sensível que já conheci".

Em uma retrospectiva na "Newsweek" online, Kissinger dedicou palavras gentis ao seu ex-chefe, dizendo que Ford "atuou com calma e firmeza" para tranqüilizar o país durante o que poderia ter se transformado em uma crise constitucional.

Mas ele também descreveu como o ex-presidente dependia dele, dizendo: "Após Nixon informar a Ford sobre a decisão de renunciar, o primeiro telefonema de Ford foi para mim".

Rothkopf, que trabalhou com Kissinger e entrevistou Ford para seu livro, disse que Kissinger dizia freqüentemente que "Ford era subestimado, que era muito mais inteligente e muito mais capaz do que as pessoas lhe davam crédito".

Enquanto isso, Ford acreditava que diminuir o papel de Kissinger foi sua "contribuição mais importante" para a burocracia de política externa.

"O que ele tentou fazer foi devolver Henry ao seu papel de conselheiro, não 'o' conselheiro", disse Rothkopf. "Eu acho que ele sentia que o sistema de segurança nacional exigia que o presidente recebesse uma diversidade de pontos de vista, e o que aconteceu foi que Nixon afundou nas profundezas e Henry assumiu um maior poder, que havia decisão e poder demais nas mãos de uma pessoa que não era o presidente." George El Khouri Andolfato

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