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03/01/2007

'American Islam': muçulmanos nos EUA pós 11-09

The New York Times
Neil MacFarquhar
Há poucas semanas, uma conferência de mulheres muçulmanas bem-sucedidas se reuniu no Westin Hotel, perto de Times Square, para debater como as mulheres poderiam exercer uma maior influência na interpretação das Escrituras islâmicas. Durante uma discussão, uma antropóloga britânica de origem iraniana disse que apoiava a posição adotada por Jack Straw, o político trabalhista, de que os véus faciais plenos usados por algumas muçulmanas não têm lugar na sociedade ocidental porque apagam a humanidade da mulher.

Ting-Li Wang/The New York Times 
O líder religioso Siraj Wahhaj se recusa a culpar Osama Bin Laden pelo 11 de Setembro

O salão de conferência pareceu se dividir em dois. Metade das cerca de 200 mulheres presentes começou a aplaudir energicamente, enquanto a outra metade começou a vaiar, com apartes à opinião da antropóloga como "Por que ele não tira suas calças?"

No mundo pós-11 de Setembro, os muçulmanos freqüentemente são estereotipados como monoliticamente homicidas, todos os 1,3 bilhão em todo mundo agrupados como extremistas inclinados a destruir o Ocidente. Os debates acirrados entre os próprios muçulmanos sobre a violência cometida sob a bandeira do Islã são freqüentemente abafados pelo alvoroço.

O oportuno e envolvente novo livro de Paul M. Barrett, "American Islam: The Struggle for the Soul of a Religion" (Islã americano: a luta pela alma de uma religião), dá vida a algumas destas vozes nos Estados Unidos. O livro, uma série de sete perfis, explora em parte as reportagens de Barrett para o "Wall Street Journal" sobre o Islã nos Estados Unidos após os ataques de 2001. (Ele atualmente trabalha para a "Business Week".) Ele esboça um elenco variado - com uma inclinação pronunciada para os abertamente moderados- para tentar ilustrar a diversidade entre os muçulmanos americanos.

Khaled Abou El Fadl, um professor de Direito nascido no Egito e erudito islâmico da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, tenta viver a moderação que leciona: adotando cães vadios, por exemplo, apesar de muitos muçulmanos acreditarem que as Escrituras condenam os cachorros como impuros.

Há Osama Siblani, um xiita secular libanês quinquagenário que publica um jornal semanal em Dearborn, Michigan. "Desde 11 de Setembro, eu me sinto asfixiado", ele disse a Barrett, um sentimento comum entre os muçulmanos, que freqüentemente se vêem na posição contraditória de amar a liberdade oferecida pelos Estados Unidos ao mesmo tempo em que abominam a forma como o governo federal trata os muçulmanos aqui e no exterior.

Para descrever o ponto de vista muçulmano afro-americano, Barrett passou algum tempo com Siraj Wahhaj, um líder religioso carismático que passou pela transição bastante típica da radical Nação do Islã para o mais popular Islã sunita. Wahhaj defende a poligamia e se recusa a culpar Osama Bin Laden pelo 11 de Setembro; o Islã afro-americano, escreveu Barrett, "carece de líderes plenamente desenvolvidos".

"American Islam" menciona de passagem, mas não analisa, o racha pronunciado entre os imigrantes muçulmanos e os afro-americanos, que constituem cerca de 40% dos cerca de 6 milhões de muçulmanos nos Estados Unidos. Muitos afro-americanos acreditam que os imigrantes árabes e asiáticos os desdenham como insuficientemente ortodoxos, deixando de apreciar os avanços que conquistaram para o Islã.

Os perfis podem ser ligeiramente repetitivos. Nos é dito várias vezes, por exemplo, que um aumento sem precedentes de imigrante muçulmanos ocorreu após o relaxamento das leis de imigração em 1965.

Um capítulo descreve Asra Nomani, um colega de Barrett do "Wall Street Journal", que ganhou renome ao atacar a forma como as mesquitas americanas rebaixavam as mulheres. Nomani também atraiu grande atenção para os sermões extremistas e panfletos financiados pelos sauditas, distribuídos em algumas das 1.300 mesquitas nos Estados Unidos, segundo o livro. Um destes panfletos dizia que o Islã encoraja o marido a bater em sua esposa desobediente, mas gentilmente, sem quebrar ossos ou deixar hematomas.

"American Islam" carece de figuras que representem o ponto de vista conservador ou o extremista - uma dificuldade ao se apoiar em uma série de perfis para ilustrar a fé - e o formato não permite uma avaliação mais profunda do radicalismo islâmico nos Estados Unidos. Barrett se refere ao debate acirrado em torno do grau com que o credo dos wahhabistas, a seita puritana saudita hostil aos não-muçulmanos, existe aqui. Mas além de alguns poucos ataques de Wahhaj à democracia, nós só ouvimos críticos do extremismo.

Pode ter sido um problema de acesso: os muçulmanos americanos são extremamente desconfiados de repórteres. Eles sentem que foram vilificados após o 11 de Setembro, sendo considerados de alguma forma americanos menos leais, e temem que falar pode atrair atenção indesejada da lei. Se este foi o caso, Barrett não diz.

O livro inclui um esboço de um imigrante indiano que ingressou na Irmandade Muçulmana, na Universidade do Tennessee, e passou a rejeitar todos os não-muçulmanos como inferiores, mas ele superou seu radicalismo.

Barrett também ilustra as falhas do governo federal ao tentar processar suspeitos de serem agentes da Al Qaeda. Ele detalha o caso de Sami Omar al Hussayen, um estudante saudita de doutorado em ciência da computação na Universidade de Idaho, acusado de apoiar o terrorismo porque ajudou a colocar online sermões criticando veementemente os Estados Unidos.

O Departamento de Justiça exagerou, argumenta Barrett, ao processar Hussayen por três crimes de apoio material aos terroristas, com o próprio secretário de Justiça, John Ashcroft, anunciando as acusações. Mas o indiciamento não apresentou nenhuma declaração de Hussayen apoiando o terrorismo e ele foi absolvido.

"American Islam" talvez seja tranqüilizador ao notar que os muçulmanos nos Estados Unidos são mais prósperos, têm melhor escolaridade e são politicamente mais ativos do que os imigrantes em outras partes do Ocidente. Eles não estão confinados a guetos como na Europa, estigmatizados a esta altura, e o elenco de Barrett deixa implícito que há muçulmanos vigilantes determinados a extirpar os extremistas caso tentem se enraizar aqui. George El Khouri Andolfato

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