UOL Notícias Internacional
 

03/01/2007

Refugiados iraquianos encontram portas fechadas na busca por segurança

The New York Times
Sabrina Tavernise e Robert F. Worth*

em Bagdá, Iraque
Com milhares de iraquianos fugindo desesperadamente de seu país a cada dia, defensores dos refugiados, e mesmo algumas autoridades americanas, dizem que há uma necessidade urgente de permitir a entrada de mais refugiados iraquianos nos Estados Unidos.

Johan Spanner/The New York Times) 
Americanos não estão cumprindo obrigação de abrigar iraquianos que trabalham para eles

Até recentemente, o governo Bush planejava reassentar apenas 500 iraquianos neste ano, uma mera fração dos cerca de 60 mil a 90 mil que estão, no momento, fugindo de seu país a cada mês. Funcionários do Departamento de Estado dizem estar abertos a admitir a entrada de um grande número, mas estão limitados por um desajeitado e mal financiado sistema de controle da ONU.

"Nós não estamos nem mesmo atendendo nossa obrigação básica para com os iraquianos que correm perigo porque trabalham para o governo americano", disse Kirk W. Johnson, que trabalhou para a Agência Americana para Desenvolvimento Internacional em Fallujah, em 2005. "Nós não poderíamos funcionar sem o trabalho árduo deles, e é vergonhoso que não possamos lhes oferecer nada em sua hora mais difícil."

O senador Edward Kennedy, democrata de Massachusetts, que está assumindo o subcomitê para imigração, segurança na fronteira e refugiados, planeja realizar audiências neste mês sobre a responsabilidade americana de ajudar os iraquianos vulneráveis. Cerca de 1,8 milhão de iraquianos atualmente vivem fora do Iraque. O ritmo do êxodo acelerou significativamente nos últimos nove meses.

Alguns críticos dizem que o governo Bush tem relutado em criar um programa significativo de refugiados, porque fazê-lo seria o equivalente a reconhecer o fracasso no Iraque. Eles dizem que uma grande mudança na política só poderia acontecer como parte de uma mudança mais ampla da Casa Branca em relação ao Iraque.

"Eu não conheço ninguém dentro do governo que considere isto uma prioridade", disse Lavinia Limon, presidente do Comitê Americano para Refugiados e Imigrantes, uma agência não-governamental para reassentamento de refugiados, com sede em Washington. "Se você pensa que está vencendo, você acha que eles voltarão em breve."

Para os iraquianos, uma ligação com os Estados Unidos pode ser um risco fatal, particularmente nos bairros sunitas linhas-duras. Em 2003, Laith, um intérprete do Exército que só permitiu que seu primeiro nome fosse mencionado, recebeu um bilhete ameaçando sua família caso não deixasse seu emprego. Seu bairro, Adhamiyah, era cheio de pessoas leais ao Partido Baath. Um mês depois, seu pai abriu a porta para um estranho que o matou a tiros.

A mãe de Laith implorou para que largasse o trabalho, mas seu salário, US$ 700 por mês na época, sustentava a família toda. Então alguém atirou uma granada contra a casa. Pichações em uma tinta preta feia apareceram em uma parede, acusando Laith de vender informações sobre os rebeldes para os militares. Laith e sua família se mudaram da casa. Logo depois, ela foi invadida e fotos dele com soldados americanos foram encontradas no álbum de fotos da família.

"Eles me conhecem", disse, sentado em um dos hotéis de Bagdá, porque sua família não permitiria a presença de um repórter ocidental dentro da casa. "Eles sabem quando chego e saio."

Muitos iraquianos que trabalharam para os americanos já fugiram da capital ou do país, e muitos imploram por ajuda ou asilo diariamente. Das cerca de 40 nacionalidades à procura de asilo nos países europeus na primeira metade de 2006, os iraquianos estavam em primeiro lugar com mais de 8.100 pedidos, segundo a ONU.

Notavelmente, poucos pedem o status de refugiados aos Estados Unidos, principalmente porque a maioria dos iraquianos, mesmo aqueles que trabalharam para o governo americano aqui, simplesmente presume que obter o status americano é praticamente impossível. Os iraquianos não podem pedir o status de refugiados diretamente na embaixada americana em Bagdá.

Outro intérprete, Amar, que não quis que seu nome completo fosse citado, foi a pelo menos dez embaixadas durante sua viagem à Jordânia no ano passado, mas foi recebido friamente. Ele exibe seu sacrifício pelos Estados Unidos na pele e ossos. Ele perdeu um dedo, um olho e parte do crânio após a explosão de uma grande bomba ao lado de seu jipe Humvee, no ano passado. Ele já recebeu duas ameaças à sua vida. Dois guarda-costas o acompanham a toda parte. Ele fica em três casas diferentes para confundir agressores potenciais.

"Eles dizem que não têm nada para os iraquianos", disse Amar, sentado em uma pequena casa no oeste de Bagdá. "Nós nos sentimos apenas como lixo estúpido."

Até recentemente, o governo não parecia entender a gravidade do problema. Funcionários do Departamento de Estado dizem que agora estão abertos para aumentar o número de vagas destinadas a refugiados iraquianos, pedidas formalmente pelo governo em setembro. Tal pedido já permite mais 20 mil refugiados de países não especificados.

Mas defensores dos refugiados dizem que tal aumento é improvável se nenhuma medida especial for tomada, como designar nominalmente os iraquianos como um grupo em perigo e formalizar um sistema para recebê-los.

Ellen Sauerbrey, a secretária assistente de Estado para população, refugiados e migração, disse que os Estados Unidos esperam identificar os refugiados iraquianos mais vulneráveis, mas também depende do Alto Comissariado da ONU para Refugiados para isto.

Funcionários da agência de refugiados da ONU reconheceram que estão lentos na identificação de refugiados, em parte por obstáculos processuais e por falta de dinheiro.

O orçamento da agência para a Síria no ano passado foi de US$ 700 mil, menos de um dólar para cada refugiado iraquiano naquele país. O Alto Comissariado da ONU para Refugiados disse em outubro que seu programa para o Iraque apresenta um déficit de US$ 9 milhões e que alguns funcionários estão sem receber salários.

O Departamento de Estado gastou US$ 35 milhões com os refugiados iraquianos no Iraque e na região em 2006. Os Estados Unidos gastam aproximadamente US$ 8 bilhões por mês na guerra.

Mas não há obrigação legal dos Estados Unidos em depender da ONU. Eles já adotaram seus próprios programas no passado, notadamente no Sudeste Asiático. Centenas de milhares de vietnamitas foram no final reassentados nos Estados Unidos após a retirada americana do Vietnã, em 1975. Naquela ocasião, vários grupos de ajuda nos países vizinhos dividiram o trabalho de entrevistar e avaliar os refugiados, um sistema que Limon e muitos outros defensores dos refugiados estão pressionando para ser usado atualmente para os iraquianos.

Os Estados Unidos até mesmo adotaram programas semelhantes no Iraque, ajudando a reassentar cerca de 40 mil refugiados iraquianos nos Estados Unidos e em outros países, após o levante fracassado contra Saddam Hussein, em 1991. Em 1996, foi concedido asilo a cerca de 6.500 iraquianos ligados a uma tentativa de golpe contra Saddam Hussein, patrocinada pelos americanos.

O governo Bush suspendeu o reassentamento de refugiados iraquianos após os ataques terroristas de 11 de Setembro, e não os retomou até abril de 2005, após o início do processo para outros países árabes. Um total de 198 iraquianos foram reassentados nos Estados Unidos como refugiados no ano fiscal de 2005, e 202 em 2006, mas a maioria já aguardava antes da invasão de 2003, e poucos casos tratam da crescente situação difícil para os iraquianos no momento.

*Reportagem de Sabrina Tavernise, em Bagdá, e Robert F. Worth, em Nova York George El Khouri Andolfato

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