UOL Notícias Internacional
 

05/01/2007

Violência continua no Iraque

The New York Times
Marc Santora e Johann Spanner*

em Bagdá, Iraque
O pé estava equilibrado sobre uma sacola de compras após ser tirado da rua suja por um homem vestindo agasalho esportivo. Não havia pessoa para acompanhar o membro. Perto dali um corpo incinerado ainda queimava, como fumaça ainda saindo do cadáver 45 minutos após o ataque. Por 45 metros os mortos se espalhavam, alguns em pedaços, alguns inteiros mais terrivelmente queimados.

Esta violência na quinta-feira envolveu duas bombas ajustadas para detonar uma após a outra no antigo bairro de classe alta de Mansour, que continua a ser devastado pela violência sectária. Treze pessoas morreram e 22 ficaram feridas, apenas uma pequena fração dos civis mortos por todo o país nesta semana.

O primeiro artefato explodiu às 10h15 da manhã, provavelmente uma bomba de estrada com timer, disseram as autoridades.

O ataque aparentemente visava um posto de gasolina. Os carros estavam enfileirados ao redor do quarteirão aguardando para serem abastecidos e dezenas de pessoas, segurando grandes galões de plástico, esperavam comprar combustível para aquecimento.

Momentos após a primeira explosão, uma segunda maior, causada por um carro-bomba, ocorreu.

O bairro é tradicionalmente misto de sunitas e xiitas. Apesar do posto de gasolina Abu Jaffar, onde se concentrou o ataque, ficar no que é considerado uma área sunita, o método do ataque - bombas múltiplas programadas para explodir sucessivamente - geralmente é considerado uma marca da Al Qaeda na Mesopotâmia, um grupo rebelde sunita.

Uma hora após a explosão, ainda havia um forte cheiro de queima de gasolina.
A rua estava viscosa com a água usada para combater o fogo, misturada a resíduos. Sangue empoçava em alguns locais. Dezenas de homens armados corriam de um lado para outro, incluindo membros do exército iraquiano e da polícia. Alguns dos que empunhavam metralhadoras não vestiam uniformes.

Disparos foram feitos, a maioria de alerta. Os vizinhos se reuniram do lado de fora, estranhamente calmos e aparentemente acostumados com tal carnificina. Um caminhão-tanque carregado de combustível que estava estacionado perto do posto escapou da explosão.

Sem causar surpresa, os moradores das proximidades culparam todos, do governo aos americanos e terroristas pelo que aconteceu. "Somos apenas pessoas inocentes", disse Nafia Abdul Jabbar. "As pessoas mortas eram pobres, precisando de querosene que não podem comprar no mercado negro, porque o preço é 10 vezes maior do que no posto."

Em outro local, um ataque com morteiro foi realizado contra o bairro xiita de Huriya, ferindo três pessoas, disseram as autoridades. Confrontos nos arredores do bairro sunita de Ghazaliya deixaram dois mortos e 25 feridos, disseram autoridades iraquianas. Um ataque com granada no bairro de Amin matou cinco pessoas.

Por toda a cidade na quinta-feira, disseram as autoridades, 47 corpos foram encontrados mutilados - quatro deles com as cabeças cortadas. Uma entrevista com a família de um homem morto e mutilado recentemente, um xeque proeminente considerado o príncipe das tribos tamin, fornece um vislumbre do submundo complicado que é, em parte, responsável pelos caminhões cheios de corpos recolhidos diariamente nesta cidade.

O homem, o xeque Hamid Mohammed al Suhail, 75 anos, foi encontrado na quarta-feira no bairro de Shuala, um reduto xiita em Bagdá, por membros de sua tribo, que é mista de xiitas e sunitas, que procuravam por ele. Ele desapareceu no último domingo e seu corpo mutilado foi encontrado enrolado em um cobertor, coberto de sangue. O grupo de busca reconheceu seu corpo pela forma característica como a barba estava aparada.

Ele era um forte crítico da luta sectária e participou de uma recente conferência no Cairo, Egito, sobre reconciliação nacional. Os seqüestradores, que os parentes insinuaram conhecer, mas que foram descritos apenas como "milicianos" por medo de represália, inicialmente telefonaram para sua família pedindo US$ 100 mil, disse um sobrinho, o xeque Ali Sammi al Suhail.

A família disse aos seqüestradores que não tinha o dinheiro, disse o sobrinho. "O corpo foi mutilado de forma brutal", disse. "Eles usaram uma furadeira nele, talvez outras ferramentas." Uma mão e uma perna foram quase que completamente decepadas.

Ali al Suhail disse que foi informado por pessoas que disseram ter testemunhado a morte que, após seu tio ter sido torturado, seu corpo foi jogado de um prédio de dois andares. Ele sobreviveu à queda, mas foi brutalizado ainda mais antes de finalmente ser morto.

Outro iraquiano proeminente, o xeque Akram al Zubeidi, foi morto na quinta-feira em Karbala, uma cidade santa xiita onde há pouco conflito sectário. Al Zubeidi foi assassinado quando parou em uma falsa barreira, disse um funcionário do hospital local. Três outras pessoas que estavam no carro com ele também foram mortas por homens armados, cujo motivo ainda não é claro.

As conseqüências da execução de Saddam Hussein prosseguiram na quinta-feira, com os sunitas, da Caxemira até a Líbia, usando sua morte como motivo de mobilização.

O governo líbio anunciou que erguerá uma estátua dele ao lado da de um dos heróis nacionais da Líbia, informaram agências de notícias.

Pelo menos nove pessoas ficaram feridas na parte controlada pela Índia da Caxemira, quando a polícia disparou balas de borracha para dispersar um grande grupo de pessoas que protestava contra a execução, informou a agência de notícias "Reuters".

Duas autoridades iraquianas envolvidas na investigação da distribuição do vídeo do enforcamento disseram, na quinta-feira, que um segundo guarda estava detido para interrogatório. As autoridades anunciaram a prisão do primeiro guarda na quarta-feira.

Há crescente pressão, inclusive da Casa Branca, para que o governo iraquiano proceda com cautela na execução dos outros dois co-réus do caso de Saddam, Barzan Ibrahim al Tikriti, o meio-irmão de Saddam, e Awad al Bandar, um ex-juiz.

Apesar da reação internacional dirigida ao governo do primeiro-ministro Nouri Kamal al Maliki, a popularidade deste entre os xiitas no sul do Iraque parece ter aumentado.

Em Basra, a segunda maior cidade do Iraque, centenas de manifestantes representando partidos islâmicos se aglomeraram nas ruas, elogiando Al Maliki e colocando fogo em fotos de Saddam.

*Ahmad Fadam e funcionários iraquianos do "The New York Times", em Carbala, Basra e Hillah, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h49

    -0,55
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    13h54

    1,37
    64.090,30
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host