UOL Notícias Internacional
 

08/01/2007

A natureza se impõe numa bela região da costa da Califórnia

The New York Times
Gregory Dicum
Quando se mudou para lá vindo da França em 1940, Henry Miller, que havia sido criado no Brooklyn, chamou Big Sur de seu "primeiro lar verdadeiro nos Estados Unidos". Numa extensão que vai de Carmel, a cerca de 250 quilômetros ao sul de São Francisco, até San Simeon, a massa compacta de montanhas de Big Sur se lança audaciosamente em direção às ondas do Pacífico. Sargaços flutuam aos pés de rudes penhascos. Vales profundos protegem algumas das sequóias que estão mais ao sul. A única forma de viver toda essa densidade é percorrendo as curvas estonteantes da Highway 1 da Califórnia.

Jeff Pflueger/The New York Times 
Na estalagem Deetjen, que existe desde os anos 30, chalés sob um bosque de sequóias

Quase duas décadas após se estabelecer na região, Miller escreveu "Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch", uma coleção de ensaios filosóficos e apaixonados que expressavam toda uma nostalgia pelo local, advinda de seu medo de que a magia em torno de Big Sur poderia desaparecer quanto mais pessoas aparecessem para visitar. Bem, certamente os verões por aqui provocam engarrafamentos, num paraíso perdido cheio de veículos utilitários e recintos um tanto congestionados.

Mas quando chega o inverno, a natureza prevalece. Baleias, leões marinhos e borboletas-monarca chegam após viagens em que atravessaram milhares de quilômetros. Lontras do mar da Califórnia, que já foram consideradas extintas até serem redescobertas somente numa única angra de Big Sur, flutuam entre algas, tão casualmente e sem esforço como voam os condores de Califórnia recentemente reintroduzidos na região, sobre sequóias em penhascos.

O inverno é um refúgio, não apenas para os buscadores e os animais selvagens, mas também para a própria costa de Big Sur. Certos dias são assim tão perfeitos, com a luz solar dourada polindo verdes montes contrastando com o mar azul-escuro, que se tornam verdadeiras metáforas pulsantes. Em outros dias tempestades punitivas rugem vindas do Pacífico.

As ondas malham a costa como punhos ferozes enquanto torrentes de chuva castigam os canyons, obscurecendo a distinção entre algas e sequóias. Mas mesmo em épocas assim, basta ter por perto um alojamento confortável e uma fogueira crepitando para poder conferir esses aspectos da natureza, tão sublimes em seu jeito peculiar.

Apesar de Big Sur estimular o 'serendipismo', a arte de fazer descobertas felizes ao acaso, não é um lugar para se chegar totalmente distraído - é bom ficar esperto, porque as poucas hospedarias lotam rapidamente, e a maioria das construções não é visível da estrada. Após três horas de viagem partindo de São Francisco, minha esposa, Nina, e eu ficamos felizes por ter feito reservas no Deetjen, a primeira estalagem de estrada aberta na região. O hotel existe desde os anos trinta, quando Vovô Deetjen ergueu um estábulo cercado de sequóias.

Sendo o único lugar que há para ficar, transformou-se no melhor lugar disponível, evoluindo para um conjunto de chalés sob galhos de um bosque de sequóias. Nosso quarto era escuro e confortável, com vista para troncos viscosos. Os galhos superiores das árvores absorviam a fumaça saída de nossa chaminé, que se misturava com a névoa vinda lá de cima. Lá embaixo, um córrego seguia para o oceano.

Embora se encontre o Pacífico por toda parte em Big Sur, a costa cheia de reentrâncias reserva alguns acessos como se fosse uma amante protetora e ciumenta. Praias incrustadas em pequenas baías são protegidas por temíveis penhascos, sendo que somente em alguns lugares é fácil - ou até mesmo possível - chegar a pé. A praia de Pfeiffer é uma delas - numa baía protegida da força plena do oceano por sólidos rochedos em mar aberto, sua bela areia curtida é pontilhada de minerais de cor púrpura.

Quando nós estivemos por lá, o sol estava tão quente quanto a água estava fria. Alguns estudantes universitários circulavam de moletons e óculos escuros como leões marinhos cheios de poses. Um arco nas rochas servia de proscênio para o sol que baixava e para a quebra das ondas gentis no mar alaranjado.

Conscientes de que qualquer crepúsculo de inverno nesta costa poderia ser o único que veríamos em nossa viagem, saímos da praia e subimos até o cume do morro, lá onde o Post Ranch Inn oferece seu luxo discreto.

As casas de campo ficam espalhadas tacitamente sobre acres inclinados cheios de grama e madeiras. E, como tudo em Big Sur, o encanto do Post Ranch Inn se baseia tanto em seu estilo quanto na própria paisagem. Com nossos moletons curtidos e amarrotados e bainhas da calça molhadas nós claramente não éramos a clientela-alvo do estabelecimento, mas de qualquer forma encontramos uma boa recepção de boas-vindas. No restaurante do hotel, o jovial barman mexicano nos acolheu sob suas asas e nos trouxe o vinho à mesa, no deck ao ar livre.

O deck era só da gente. Enquanto saboreávamos o frutuoso pinot noir Barnett vindo das montanhas de Santa Lúcia ali perto, o oceano lá embaixo ondulava ao sol do crepúsculo, feito uma folha dourada em tom de mel. Sentíamos o cheiro do mar em rajadas quentes e perfumadas, enquanto víamos a espuma sobre as pedras lá embaixo, distante demais para ser ouvida pelos pássaros cantores.

Sob o por do sol, e com morcegos velozes substituindo os pássaros, nós retornamos ao Deetjen, para o encantador restaurante que fica no estábulo original. Uma lareira crepitava no ambiente em pedra, madeira e gesso de teto baixo, com um confortável número de usuários, esquentando o ar gelado da noite lá fora. Nós nos dedicamos a um risoto suculento e perfeito e a um cassoulet consistente e delicioso, no final das contas contentes porque que só precisávamos andar alguns metros pela escuridão perfumada de sequóias até chegar ao nosso pequeno chalé.

"Aquele lugar é tão espantosamente grandioso e imponente que ninguém se atreveria a concebê-lo", disse Henry Miller a respeito de Big Sur em 1957, "engendrando uma humildade e uma reverência não muito freqüente entre os americanos. Já que não há nada a melhorar pelos arredores, por lá o jeito é tentar melhorar a si mesmo."

Essa bem poderia ser a descrição do autor a respeito do instituto de Esalen. Fundado em 1962, Esalen é uma espécie de Harvard da Nova Era, morada intelectual do Movimento pelo Potencial Humano e da terapia gestalt na costa oeste - um lugar onde buscadores e celebridades (incluindo, na época dele, Henry Miller) se encontram para vivenciar a "energia" e o "espírito", prontos para conhecer Deepak Chopra e a Atlântida.

O campus glamuroso se estende da Highway 1 em direção a um penhasco que se precipita sobre o oceano - como sempre, numa estrada que poderia passar desapercebida. Mas é logo saindo da estrada que se encontra esse acampamento de verão para adultos - californianos sérios de meia idade, dedicados ao auto-conhecimento e auto-aperfeiçomento, gente que mergulha em conversas profundas rápida e naturalmente.

Logo depois que chegamos, enquanto eu observava uma lontra que longe do refeitório degustava um molusco apoiado em sua barriga, um homem com tapa-olho foi se aproximando, lentamente e em passos hesitantes. Enquanto estávamos na fila para o almoço à base de kale e feijões de fava orgânicos absolutamente frescos, um outro homem nos abraçou. "Nós todos iremos morrer após o almoço!", anunciou de repente, antes de se dirigir ao workshop sobre Joseph Campbell que aparentemente transformava a consciência dele.

No Esalen, a arquitetura típica do norte da Califórnia, elaborada em metal áspero e filigranado, tábuas de sequóia sustentáveis e telhados com grama combina bem com a paisagem de gramados exuberantes, pinheiros por toda parte e hortas de vegetais orgânicos. Terrenos bem cuidados têm aparência informal e são tratados com requintes. Videiras imponentes escondem um poleiro; aqui e acolá, bancos de madeira esculpidos são arrastados para que se possa: ver o por do sol; conversar baixinho na noite fria; ou simplesmente para inalar o perfume dos bosques de eucalipto.

O quarto em que dormíamos era apertado e um pouco úmido, mas quaisquer queixas que pudéssemos ter eram neutralizadas pelas magníficas piscinas quentes - conhecido pelas centenas de workshops de relacionamento que empreende, assim como pelos seminários dedicados à voz interior, o instituto Esalen também é famoso por essas lendárias piscinas.

Debruçadas num penhasco da orla, o complexo de piscinas armazena momentaneamente águas quentes naturais antes de despejá-las no Pacífico. Paredes de concreto em forma de prancha, pisos de arenito mornos e acolhedores e jamelões, que vão do assoalho ao teto de frente para o mar, dão ao lugar a impressão de ser uma estação de embarque para o céu.

Nós tomamos um longo banho à meia-noite em suaves águas sulfurosas, olhando bem alto para a constelação de Orion em um céu do inverno mais negro do que jamais poderíamos imaginar. As ondas lá embaixo agitavam o penhasco, enchendo nossos ouvidos com seu clamor, como se pudéssemos ouvir a engrenagem celestial disparando estrelas sobre nossas cabeças. A maresia fresca e úmida soprava suave em nossos rostos, tudo fazendo parte do que Henry Miller chamou de "natureza que sorri de si mesma, diante do espelho da eternidade".

Para nós o mundo se dissipava; chegamos até a esquecer de Miller. Só na manhã de terça-feira, quando já voltávamos para São Francisco, foi que nos lembramos de visitar a biblioteca do Memorial de Henry Miller.

A pequena biblioteca tem uma sala de leitura e uma loja com café quente, e é sede de oficinas, leituras e eventos especiais. O curioso é que o pai de Nina teve uma participação como personagem do romance "Sexus" de Miller, urinando sobre uma mesa de sinuca, e pensamos que seria engraçado visitar e contar essa história para quem estivesse por lá.

Nós estacionamos o carro ao lado da estrada sob grandes árvores diante da biblioteca, uma casa modesta de telhado fino num pequeno vale. Não havia ninguém por perto, mas o portão estava entreaberto e eu fui entrando, sem ver a placa sustentada por uma pilha de lenha - estava escrito "fechado às terças". Andei pelo gramado úmido, adornado por esculturas e bric-a-brac, pisei no deck molhado e olhei para dentro da casa, onde vi uma figura sentada no chão cercada de livros. Ele conferiu e nossos olhos se encontraram. Foi quando recordei um texto sobre a implicância de Miller com os turistas que apareciam em sua casa pedindo sanduíches.

"O destino de um viajante nunca é um simples lugar", ele também escreveu. "É uma maneira nova de olhar para as coisas." Marcelo Godoy

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