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08/01/2007

Nos Estados Unidos, um guitarrista dos anos setenta vira congressista

The New York Times
Kate Stone Lombardi
No auge da sua popularidade, a banda Orleans, da década de 1970, fazia turnês dez meses por ano, tocando os seus grandes sucessos "Still the One" e "Dance With Me". Mas John Hall, o guitarrista da banda, não se contentava em interpretar melodias românticas. Ele também usava o palco para falar à platéia a respeito dos perigos representados pela produção de plutônio.

"Ele tomava a liberdade de fazer pausas em vários concertos e discursar um pouco a respeito da energia nuclear", conta Larry Hoppen, o baixista do Orleans. "Mas é preciso que se entenda isso no contexto dos anos setenta, quando havia Nixon e a polêmica em torno da energia atômica. Fazendo uma retrospectiva, aqueles não eram tempos confortáveis, mas a situação nunca esteve tão ruim a ponto de o diretor dos shows ordenar a suspensão dos discursos".

Os amigos roqueiros de Hall se acostumaram à sua veia política. Jackson Browne se lembra dele falando de política nos bastidores enquanto guardava a guitarra. Hall foi um dentre os vários ativistas políticos daquela era. Mas quando tomou posse como congressista na última quinta-feira (4), ele se tornou o primeiro músico de rock genuíno a assumir um cargo na Câmara dos Deputados (Sonny Bono nunca tocou nenhum instrumento).

As camisetas velhas, os cabelos longos e as fotografias com o torso nu nas capas dos álbuns deram lugar aos ternos escuros, às gravatas conservadoras e aos sapatos sociais. Quando Hall, 58, sai do seu Subaru Outback com sua estrutura esguia, a sua aparência é a de um executivo. E quando ele fala, as palavras são organizadas em parágrafos sobre tópicos como a importância das energias renováveis e o aumento do salário mínimo.

Mas há aqueles momentos em que ele parece tocar uma guitarra invisível a fim de demonstrar como tem facilidade em usar a mão esquerda. E há as referências pelo primeiro nome a Bonnie, Jackson e Pete (Raitt, Browne e Seeger). "De alguma maneira John conseguiu manter vivo o idealismo que tanta gente tinha nas décadas de sessenta e setenta, mantendo ao mesmo tempo uma espécie de pragmatismo", diz Browne, que colaborou com Hall no estúdio e no movimento anti-nuclear da década de 1970.

Hall, um democrata, derrotou Sue W. Kelly, uma republicana que ocupou o cargo durante seis mandatos, para representar o 19º Distrito Congressual de Nova York, que começa na divisa com o Estado de Connecticut, passa pelo Vale do Rio Hudson, e se estende pela região montanhosa de Catskills até a divisa com a Pensilvânia.

Compareceram à sua cerimônia de posse a filha, os pais, o irmão e outros apoiadores. Depois ele foi visitado pelos seus colegas da delegação de Nova York, Nita Lowey e Elliot Engel. Naquele dia, ele também ajudou a eleger Nancy Pelosy para o cargo de primeira mulher presidente na história da casa, e discutiu legislações e normas referentes à ética parlamentar.

Anteriormente outros artistas também foram eleitos para cargos políticos - por exemplo, Ronald Reagan e Arnold Schwarzenegger -, mas a maioria era do Partido Republicano. Hall é um liberal, conforme sugere o adesivo no seu carro, "Tragam os soldados de volta para casa", e defende não só a retirada das tropas do Iraque, mas também um sistema universal de saúde e a redução da dependência do petróleo estrangeiro.

Até mesmo em um Congresso eleito para promover mudanças, a sua posição se inclina demasiadamente para a esquerda em relação a muitos deputados, e ele é relativamente novo na política, já que a sua experiência eleitoral prévia se limitou a conquistar uma cadeira no conselho escolar no Condado de Ulster. Lá, ele ajudou a derrotar uma proposta para a construção de uma usina de incineração de lixo em Saugerties, perto de Woodstock - uma vitória que alguns dizem que não era suficiente para que ele merecesse ser eleito para o Congresso.

"John era membro de uma banda de rock, e ajudou a lutar contra uma usina de lixo, mas há uma grande diferença entre impedir a construção de um uma unidade de processamento de lixo e combater problemas como o terrorismo", critica Robert T. Aiello, um legislador republicano do Condado de Ulster.

Raitt, que organizou o grupo Músicos pela Energia Segura (MUSE, na sigla em inglês) com Hall na década de 1970, diz que o grupo costumava confiar na habilidade do guitarrista de pensar e discursar de improviso. "John era o cérebro do grupo", diz ela. "Embora fôssemos todos bem informados e motivados, quando se tratava de explicar os detalhes de algum problema, John era muito astuto intelectualmente e bastante articulado, além de ter uma facilidade enorme com a guitarra e ser muito criativo".

E mesmo quando compunha melodias românticas, Hall não deixava de fazer canções sobre o meio ambiente, como "Power" e sobre a economia, como "Plastic Money". "Os seus grandes sucesso são muito românticos, mas ele também compôs músicas sobre aquilo em que acredita", diz Browne. "Será interessante observar que poder criativo ele será capaz de trazer para o cenário político".

Hall foi aconselhado a não enfatizar o seu passado durante a campanha. Ele raramente apareceu vestindo alguma roupa que não fosse um terno. As suas declarações foram ponderadas e cuidadosas.

E isso faz com que seja difícil explicar como ele terminou participando de uma dupla musical, interpretando "Dance With Me", com Stephen Colbert, no Comedy Central. No show, que se estendeu por algumas semanas antes da eleição, Colbert provocou Hall, dizendo como este deve ter ficado satisfeito com o fato de o presidente George W. Bush ter usado "Still the One" como tema da sua campanha de reeleição em 2004. Hall diz que pediu ao seu advogado que entrasse com uma reclamação formal na Justiça.

Colbert persistiu, dizendo que a música se adequava muito bem ao presidente. Poucos minutos depois, Colbert pediu ao convidado que cantasse uma música. Hall se recusou, dizendo que os seus assessores lhe aconselharam a se ater a temas políticos. Mas quando Colbert insistiu, Hall cantou. O clipe, que circulou amplamente no YouTube, parece ter contribuído para a sua eleição.

Hall, que venceu uma primária muito disputada para concorrer pelo Partido Democrata, começou a campanha com uma verba de US$ 57 mil, contra os US$ 900 mil de Kelly. Mas o fato de ter amigos famosos ajudou muito. "Eu não tinha uma Exxon ou uma Mobil, mas tinha Jackson, Bonnie e Pete", diz Hall. Os seus concertos na área do Vale do Rio Hudson não só propiciaram a arrecadação de verbas - Browne obteve US$ 100 mil em dois dias -, mas também geraram publicidade.

Hall, que geralmente é sério e discreto, fica agitado quando fala da relação entre música e política. "Jackson cantou uma música, 'Waiting Here for Every Man'", diz Hall, "Eu me lembro dessa música do seu primeiro álbum, um som que teve um impacto sobre mim por falar da letargia, da apatia e do fatalismo exibidos pela maioria dos norte-americanos enquanto esperam que surja alguém para acabar com a balbúrdia".

A campanha foi intensa. Em determinado momento, um panfleto de autor desconhecido circulou, com a mensagem: "John Hall, um nome errado para os Estados Unidos". O panfleto mostrava Hall nos seus dias de rock, com os cabelos longos e o peito nu.

Um dia antes da eleição, os eleitores receberam ligações automáticas com a voz de Bush, pedindo a eles que reelegessem Kelly. "Eu queria agradecer a todos esses sabotadores da minha campanha. Vocês me ajudaram muito", diz Hall, referindo-se aos organizadores da campanha por telefone.

Kelly não respondeu a pedidos para que comentasse o assunto. Agora Hall foi para Washington. Dias antes da sua eleição, ele participou de uma sessão de orientação para os novos membros, com discursos sobre tudo, desde a localização de departamentos distritais até estratégias para encontrar moradia. Os novos membros anotaram dicas como: se você encontrar um par de sapatos confortáveis, compre um par para usar em Washington e outro para a sua cidade.

Em uma viagem de ônibus para um evento, Hall comparou a sua situação à do colega recém-eleito Heath Shuler, um ex-jogador profissional de futebol americano. Alguns deputados pediram a ele que cantasse algo, incluindo Paul W. Hodes, de New Hampshire, que também toca guitarra. Ele brincou, dizendo que os dois poderiam formar uma dupla, Hall & Hodes - uma expressão que soa como Hall & Oates, um outro conjunto popular dos anos setenta com o qual o grupo de Hall é muitas vezes confundido.

Hall também passou uma semana na Escola de Governo John F. Kennedy, na Universidade de Harvard, participando de sessões que ele descreveu como sendo "sossegadas". Em Washington, ele foi designado para o Comitê de Transporte e Infra-estrutura da Câmara dos Deputados.

De certa forma, a transição foi mais fácil para ele do que para outros novos membros do Congresso. Hall está acostumado ao fato de ser uma figura pública e a viajar. Ele também tem familiares na área de Washington, incluindo a irmã Sofi, que está fazendo mestrado em Belas Artes na Universidade de Maryland, e um irmão, Jerry, um padre jesuíta que leciona na Universidade Católica. Os seus pais vivem perto de Baltimore.

Hall mora em Dover Plains com a mulher, Pamela, uma advogada que, segundo Browne, também toca um pouco de guitarra. Entre as sessões de orientação e as compras para o apartamento, ele fez visitas ao seu distrito eleitoral, em uma "sessão para ouvir". Em uma recente festa de feriado no Condado de Putnam, ele conversou sobre síndrome do estresse pós-traumático com um policial que estava no World Trade Center no 11 de setembro, discutiu a proteção de pântanos e alagados com uma integrante de um grupo ambiental e comprou uma camiseta com a mensagem "The One with the Most Guitars Win" ("Aquele que Tiver Mais Guitarras Vence") para a sua mulher.

Hoppen diz que as pessoas podem subestimar o seu ex-parceiro. "Certas pessoas podem achar que ele é apenas um astro do rock que tirou proveito de uma tendência geral. Tais pessoas estarão cometendo um erro", avisa ele.

Raitt diz que vê nele algo semelhante a Bill Bradley, o ex-senador por Nova Jersey. "Dentre todos os músicos que sei que foram ativistas, o mais bem preparado para a função de atuar de fato no Congresso é John", diz ela.

Browne acrescenta: "Um guitarrista para o Congresso, isso é algo que faz todo o sentido para mim. De certa forma, os músicos organizam o mundo. O idealismo de John vem do mesmo local que a sua música. Ambos se originam da alegria".

Mesmo assim, na noite anterior à eleição, Hall diz que ele e a mulher alugaram o filme "The Candidate" ("O Candidato", EUA, 1972), estrelando Robert Redford. "Quando ele ganha, pergunta: 'E o que fazemos agora?'", diz Hall. "A gente absorve o sentimento, o visual, a personalidade, aquele punhado de jargões, as palavras-chave, os tópicos. Mas depois disso é preciso encarar a complexidade vinculada ao fato de ter realmente que legislar".

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