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10/01/2007

Somália diz que dezenas foram mortos em ataque aéreo americano

The New York Times
Jeffrey Gettleman e Mark Mazzetti*

em Mogadício, Somália
Autoridades somalis disseram nesta terça-feira (9/1) que dezenas de pessoas foram mortas em um ataque aéreo americano no domingo, a maioria combatentes islâmicos que fugiam em picapes armadas por um trecho remoto, lamacento, da fronteira do Quênia com a Somália.

Funcionários americanos disseram que terroristas da Al Qaeda foram o alvo do ataque, que eles disseram ter matado cerca de uma dúzia de pessoas. Mas os funcionários reconheceram que as identidades das vítimas ainda são desconhecidas.

Vários moradores da área, na parte sul do país, disseram que dezenas de civis foram mortos, e a notícia do ataque imediatamente provocou novas ondas de revolta antiamericana em Mogadício, a capital somali marcada pelo conflito, onde os Estados Unidos têm um legado complicado.

"Eles apenas estão tentando se vingar pelo que fizemos a eles em 1993", disse Deeq Salad Mursel, um taxista, se referindo ao infame episódio retratado no livro e filme "Black Hawk Down" (Falcão Negro em Perigo), no qual somalis mataram 18 soldados americanos e derrubaram dois helicópteros americanos durante uma batalha intensa em Mogadício.

O movimento islâmico do país tomou rapidamente grande parte da Somália no ano passado e governou com resultados ambíguos, trazendo uma muito desejada aparência de paz, mas também um estilo duro de Islã.

Há duas semanas, tudo mudou depois que tropas lideradas pelos etíopes expulsaram as forças islamitas e ajudaram a trazer o governo de transição apoiado pelo Ocidente a Mogadício. As autoridades etíopes disseram que os islamitas eram uma crescente ameaça regional.

Os últimos remanescentes das forças islamitas fugiram para Ras Kamboni, uma aldeia de pescadores isolada na fronteira com o Quênia, cujos habitantes disseram já ter sido usada como refúgio para terroristas. Desde meados dos anos 90, eles disseram, os islamitas construíram trincheiras, hospitais e salas de aula especiais para terroristas na aldeia, taxando os pescadores locais para pagarem os custos.

No domingo, um avião americano AC-130 atacou a área ao redor de Ras Kamboni e também mais ao norte, onde funcionários americanos disseram que três líderes dos atentados a bomba de 1998 às embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia estavam escondidos. As autoridades somalis disseram que os atentados foram planejados em Ras Kamboni, depois que um grupo terrorista local somali convidou a Al Qaeda a usar a aldeia como base.

Segundo Abdul Rashid Hidig, um membro do Parlamento de transição da Somália que representa a área da fronteira, o ataque aéreo americano no domingo eliminou um longo comboio de líderes islamitas que tentavam fugir para dentro da mata, apesar de ter dito não saber se os suspeitos específicos visados pelos Estados Unidos estavam com eles. "Suas picapes atolaram na lama e se tornaram alvos fáceis", ele disse.

Hidig disse que dois civis foram mortos pelo ataque aéreo, mas representantes das forças islamitas disseram que muitos mais foram mortos.

Mohammed Daskhani, o diretor de saúde dos islamitas, disse que dezenas de pastores nômades e suas famílias conduziam seus animais para pastar no mesmo vale encharcado que os islamitas tentavam cruzar. "Suas mulas, camelos, vacas - todos foram destruídos, ele disse. "E muitas crianças foram mortas." Daskhani falou por telefone de uma local não revelado; seu relato não pôde ser verificado de forma independente.

Mustef Yunis Culusow, um ex-líder islâmico que abandonou o movimento dias atrás, disse que os antes poderosos líderes do movimento islamita agora estão presos em uma pequena aldeia com os soldados etíopes à sua frente, o Oceano Índico atrás e agora aviões de guerra americanos circulando sobre eles.

"Os líderes sabem que estão liquidados, disse Culusow em uma entrevista por telefone de Kismayo, uma grande cidade ao norte de Ras Kamboni. "Eles basicamente disseram aos jovens combatentes que podem partir, que está acabado, e que qualquer um que ficar para trás deve se resignar com a morte."

Por vários dias, caças e helicópteros de ataque etíopes têm espalhado um cobertor de fogo pela área, e os ataques prosseguiam na terça-feira. Oficiais militares e funcionários da inteligência americanos expressaram confiança de que pelo menos um alto líder da Al Qaeda na Somália foi morto no ataque americano ou nos ataques subseqüentes das tropas etíopes. Um oficial disse que Abu Taha al Sudani -um assessor sudanês de Fazul Abdullah Mohammed, que é considerado o líder da célula do leste africano da Al Qaeda - pode ter sido morto.

As autoridades americanas disseram esperar novos ataques militares, mas que os terroristas estavam provavelmente viajando separadamente e tentando se misturar à população civil.

Funcionários de inteligência e do Pentágono disseram que a ofensiva etíope trouxe à luz nova inteligência sobre o paradeiro de agentes da Al Qaeda cujo rastro há muito tinha sido perdido. "Quando você provoca uma ruptura nas coisas e as pessoas começam a se movimentar, se torna mais fácil avistá-las", disse um funcionário americano de contraterrorismo, falando sob a condição de anonimato. "Eles precisam fazer arranjos de improviso e se tornam mais fáceis de encontrar."

Forças americanas e etíopes estão compartilhando inteligência para determinar o paradeiro dos terroristas e seus séquitos. O Pentágono anunciou que o porta-aviões USS Dwight D. Eisenhower foi enviado para a região para reforçar o bloqueio naval na costa somali.

Agora que os islamitas perderam seu controle do país, a Somália pode estar próxima de um momento de virada. Pela primeira vez desde 1991, quando o ditador Siad Barre fugiu do país, o lançando na anarquia, um governo potencialmente viável está de volta à capital. Mas sua sobrevivência depende dos milhares de soldados etíopes que ainda estão aqui, e cada vez mais, ao que parece, muitos somalis não gostam deles. Por sua vez, os etíopes prometeram que não ficarão por muito tempo.

Alguns chamam os etíopes de invasores infiéis, porque a Etiópia é um país com uma antiga identidade cristã, apesar de ser na verdade meio muçulmano. Outros não gostam deles porque a Etiópia é uma forte aliada dos Estados Unidos, o motivo dos ataques aéreos americanos poderem tornar as coisas difíceis para os etíopes e para as autoridades do governo de transição.

Alguns islamitas prometeram prosseguir em uma insurreição ao estilo do
Iraque, e na noite de quinta-feira duas picapes lotadas de homens armados atacaram soldados etíopes baseados em um prédio do governo no centro de Mogadício.

As explosões das granadas propelidas por foguete ecoaram por toda a cidade e deram início a dois minutos de trocas de tiros, com longas rajadas de fogo automático. Enquanto compradores em um mercado próximo se agachavam para se proteger, cartuchos usados tilintavam no pavimento. Os moradores informaram posteriormente terem visto dois corpos na rua.

*Mohammed Ibrahim e Yuusuf Maxamuud, em Mogadício, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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