UOL Notícias Internacional
 

10/01/2007

Um país com uma longa memória, mas com história truncada

The New York Times
Hassan M. Fattah

em Beirute, Líbano
Aulas de história em todo o mundo servem a dois propósitos - elas educam os jovens e moldam a identidade nacional. Elas também freqüentemente se esquivam de controvérsia para evitar ofensas. É o mesmo aqui como em qualquer outro lugar, mas a controvérsia que está sendo evitada é a guerra civil viciosa, que teve início em 1975 e durou 15 anos, na qual o Líbano seqüestrou, matou e bombardeou a si mesmo quase até desaparecer.

Tamara Abdul Hadi/The New York Times 
Pelas ruas de Beirute, no Líbano, lojas vendem máscaras de figuras políticas atuais

O resultado bizarro está evidente em qualquer livro escolar daqui - a história parece simplesmente parar no início dos anos 70, o apogeu do Líbano. Com as tensões sectárias novamente fervendo aqui, alguns educadores temem que o fracasso em se chegar a uma versão comum dos eventos está condenando os jovens a repetir o passado, com a maioria deles aprendendo a história contemporânea por meio de suas famílias, das ruas ou de líderes políticos que podem ter sua própria agenda.

"A América usou a escola para criar um mistura de raças; nós a usamos para reforçar a identidade sectária às custas da identidade nacional", disse Nemer Frayha, o ex-diretor do Centro Educativo para Pesquisa e Desenvolvimento, uma organização de pesquisa que desenvolve o currículo libanês. "Desde o início, eu estou formando o estudante como uma pessoa sectária, não como um cidadão. E o pior é que as pessoas que estão encorajando isto são os próprios intelectuais."

Os estudantes ficam frustrados com as omissões, cientes de que estão recebendo uma visão distorcida do passado. "Nós sempre perguntamos quando vamos aprender a história real", disse Fatima Taha, uma aluna do primeiro colegial da Hara International College, uma escola de ensino médio nos subúrbios do sul de Beirute. "A história simplesmente pára de repente. Você tem a sensação de que pensam que se a história criará um problema, então é melhor esquecer a história."

As escolas privadas, que educam cerca da metade dos aproximadamente um milhão de estudantes, ensinam história com base em livros de sua própria escolha, mas aprovados pelo Ministério da Educação; as escolas públicas ministram cerca de duas horas por semana de história, baseada em um livro escolar escrito nos anos 60.

Em um livro, os alunos aprendem que os otomanos foram ocupadores; em outro, são apresentados como administradores. Em alguns, eles estudam os franceses como colonizadores; em outros, eles os estudam como um exemplo a seguir.

Em algumas escolas cristãs, a história começa com os antigos fenícios, que muitos cristãos acreditam ser seus ancestrais originais, e com o início do cristianismo. Em muitas escolas muçulmanas, os fenícios são atenuados e a ênfase é dada à história árabe e à chegada do Islã.

Se o Líbano foi ocupado pelos otomanos, subjugado pelos otomanos ou era simplesmente um principado do Império Otomano depende da seita e região, assim como os franceses, que supervisionaram o país até os anos 50, são descritos como colonizadores, administradores ou modelos a serem seguidos.

"Se apenas nos dessem uma história nacional, todo o panorama deste país poderia mudar", disse Jawad al Haj, o diretor de Hara. Haj, que disse que dois de seus alunos foram mortos durante a guerra com Israel no ano passado, proibiu seus alunos de participarem dos protestos em Beirute, temendo que pudessem ser doutrinados por vários partidos políticos.

Ele também proibiu qualquer conversa sobre política dentro de sua escola e é particularmente rígido com qualquer indício de sectarismo. Cerca de metade de seus 1.500 alunos são xiitas e o restante é principalmente sunita, com alguns poucos cristãos.

"As crianças precisam de realidade, uma história em que possam acreditar", ele disse. "Caso contrário, elas nunca aprenderão o significado de cidadania."

Segundo o acordo de Taif de 1989, que colocou um fim à guerra civil, o Líbano devia unificar seus currículos de educação cívica e história na esperança de formar um consenso nacional e uma identidade nacional mais sólida.

Mas quase duas décadas depois, os currículos de história e educação cívica são as únicas matérias que não foram reformuladas, ainda vistas como um assunto a ser evitado na política libanesa. A partir de 1997, um comitê formado pelo Ministério da Educação passou três anos tumultuosos e cheios de discussão tentando chegar a um currículo comum de história.

Em 2000, ele divulgou diretrizes para um novo currículo que buscava despolitizar a história, disseram vários membros do comitê, se concentrando nos efeitos do desenvolvimento científico e econômico no país, com lições de sociologia e economia além do ensino de técnicas de análise histórica.

O currículo deveria se aprofundar na guerra civil, suas causas e nas diferenças sectárias, e explicar como tais diferenças foram finalmente resolvidas - sem qualquer grupo despontando à frente, disseram vários membros do comitê.

"É preciso enfatizar os custos da guerra, mostrar que é uma causa perdida", disse Antoine Messarra, diretor da Fundação Libanesa para a Paz Civil Permanente e membro do comitê. Mas tal esforço fracassou, de forma que, em 2001, outro comitê, desta vez chefiado por Frayha, o ex-diretor do grupo de pesquisa, foi encarregado de revisar o currículo e escrever novos textos. Ele conseguiu publicar um livro, de história para terceira série, e está preparando a publicação de vários outros.

Mas o texto evita qualquer discussão da guerra civil, passando para a história internacional após os anos 60. George El Khouri Andolfato

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