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15/01/2007

Quando o dinheiro não fala

The New York Times
Shivani Vora, em Nova York

The New York Times
Após ter passado meses de olho em uma sacola preta de viagem da Chanel na Saks da Quinta Avenida, Shalla Azizian estava pronta para adquirir a peça. Em vez de debitar a quantia de US$ 2.000, referente à bolsa no seu cartão de crédito, Azizian, dona de uma butique de lingeries em Manhattan, colocou discretamente em frente à vendedora uma pilha de cédulas novas que ela trouxe para efetuar a compra.

Com a sua loja, a Pesca, Azizian conquistou a independência financeira, mas a fim de evitar a desaprovação do marido, com quem é casada há 27 anos, ela adota uma atitude discreta ao usar dinheiro vivo. "Os gostos dele não são tão caros quanto os meus, e ele não precisa entender a necessidade de ter tantas coisas caras", diz Azizian, de 50 anos. "Ainda que eu tenha a minha própria renda, pagar pelas minhas compras em dinheiro é bem mais fácil do que ter uma discussão com ele a respeito daquilo que comprei."

Embora estejamos em 2007, e não em 1957, a antiga prática das mulheres de camuflar os seus gastos pessoais pagando em dinheiro vivo ainda persiste, mesmo que a maioria das mulheres de hoje ganhe um salário e, em uma era de afluência, as famílias disponham de mais dinheiro para gastar.

As mulheres citam diversas razões. Algumas, como Azizian, desejam evitar uma briga com um marido ou um namorado muquirana. Outras se sentem culpadas ao gastar muito consigo, de forma que preferem pagar com dinheiro, algo que é mais facilmente esquecido do que uma conta mensal de cartão de crédito. E há aquelas que simplesmente têm uma sensação de liberdade ao gastarem sem o conhecimento dos maridos.

Embora seja difícil obter dados fidedignos sobre isso, o número de mulheres que pagam em dinheiro pelas compras aumentou nos últimos anos, segundo analistas de vendas e entrevistas feitas com dez proprietários de grandes butiques dos Estados Unidos e com funcionários de redes como a Neiman Marcus e a Nordstrom.

"O fato de as mulheres comprarem artigos de luxo com dinheiro vivo é um fenômeno que cresce rapidamente", diz Marshal Cohen, analista do Grupo NPD, uma firma de pesquisa de mercado que realiza 45 mil entrevistas online sobre hábitos de consumidores semanalmente. Cohen, que entrevista até cem compradores por semana, diz que as mulheres disseram que pagam com dinheiro para ocultar compras cujos valores variam entre US$ 150 e US$ 10 mil.

"A resposta delas quando lhes perguntam por que estão fazendo isso é sempre a mesma", diz ele. "Os seus maridos ou namorados não se identificam com a necessidade de terem objetos tão caros, e as compras em dinheiro vivo dão a elas uma sensação de independência."

Howard Davidowitz, que estudou os hábitos de consumo em primeira mão durante décadas, diz que nos últimos três anos presenciou mais compras em dinheiro vivo em butiques de luxo como a Louis Vuitton e redes semi-luxuosas como a Coach. Davidowitz, presidente da Davidowitz & Associates, uma firma varejista de consultoria, suspeita que agora que as bolsas de US$ 2.000 e os sapatos de US$ 700 se tornaram comuns, mais mulheres passaram a pagar com cédulas retiradas de caixas eletrônicos a fim de ocultar as suas ações.

As mulheres são responsáveis por cerca de 65% das compras de artigos de luxo, segundo a firma de consultoria Unity Marketing. O mercado para estes artigos está crescendo de 20% a 32% ao ano, segundo o Conselho de Marketing de Artigos de Luxo, uma associação de marketing com sede em Manhattan.

Pagar por mercadorias caras com pilhas de dinheiro chama mais atenção do que adquirir artigos mais baratos com umas poucas cédulas. Mas uma pesquisa informal feita com gerentes de lojas e vendedores em 15 lojas de preços médios como a Banana Republic e a Ann Taylor indica que as freguesas dessas lojas também gostam de usar dinheiro vivo - às vezes para a compra de produtos que custam menos de US$ 100. É difícil afirmar se elas estão procurando camuflar uma compra ou simplesmente usando o dinheiro que está na bolsa.

"Nas lojas de artigos de alto luxo, com a Bergdof Goodman, a compra é mais uma experiência social do que em lojas como a Gap", explica Davidowitz. "Os vendedores são treinados para interagir e discutir com os fregueses". Desta forma, ele sugere que os funcionários das lojas de luxo têm maior probabilidade de ouvir as mulheres que apresentam racionalizações para o fato de comprarem com dinheiro vivo.

Essas compras remontam a um tempo no qual um número bem menor de mulheres trabalhava e em alguns casos recebiam mesadas dos seus maridos, cujo controle do orçamento familiar reforçava os seus poderes de chefes de família. Mas atualmente, ainda que cerca de 56,2% das mulheres com mais de 16 anos trabalhem, e embora o casamento tenho se transformado muito mais em uma parceria igualitária, um número surpreendente de mulheres ainda acha necessário ocultar quanto gasta com a compra de objetos pessoais, especialmente em se tratando de artigos em torno dos quais paira o estereótipo da vaidade fútil feminina, como vestuário.

"As mulheres têm esse temor quanto à reação dos maridos aos seus gastos em lojas", diz Amu DiFrisco, que testemunhou vários casos de compras com dinheiro vivo como vendedor pessoal da Bergdof Goodman durante quase uma década. "O dinheiro permite que elas evitem o confronto."

Como dona de uma butique, a Two Blondes, na região de Upper East Side em Manhattan, ela continua a presenciar esse hábito. "No início foi uma surpresa, mas hoje em dia não vejo nada de mais nisso", diz DiFrisco.
DiFrisco, que é casada há 17 anos, possui a sua própria conta bancária e cartões de crédito, mas até mesmo ela às vezes usa dinheiro na hora de comprar artigos caros. Assim como as mais de doze mulheres entrevistadas para esta entrevista, DiFrisco disse que pagar em dinheiro vivo é mais simples do que explicar o motivo da compra ao marido.

"No caso do dinheiro não existe rastreamento", diz ela. "Se eu usar o cartão, sinto que terei que lidar com as contas no final do mês e, de alguma forma, justificá-las".

Até mesmo compras baratas costumam deixar alguns maridos irritados, já que eles as consideram desnecessárias. Sandy Stern, 55, uma coordenadora de traduções que mora em Mahwah, Nova Jersey, desconta os seus cheques para ocasionalmente fazer compras em lojas de preços moderados como a Chico's. "Gosto de ter uma quantidade de coisas, e é isso o que o meu marido não entende, ainda que tais objetos não sejam caros", conta Stern.

Mas não são apenas as mulheres casadas que fazem compras de forma dissimulada. Amy Butewicz, 23, uma estudante de farmácia que mora com os pais em South River, em Nova Jersey, paga em dinheiro vivo por metade das suas compras, tais como a sua nova agenda Louis Vuitton. Ela minimiza o seu gosto por artigos de luxo ao conversar com o namorado, que prefere artigos da Old Navy. "Se ele fosse da área de design, não creio que teria que esconder tanto, mas me sinto muito culpada", diz Butewicz, que usa o dinheiro ganho em um emprego de meio expediente.

"Quando compro algo tão caro e ele me pergunta quanto custou, não sinto vontade de lhe dizer o preço real porque às vezes temo que ele me ache louca."

Marlin S. Potash, uma psicóloga de Manhattan que se depara freqüentemente com questões financeiras no decorrer da sua prática profissional, diz que até mesmo se as reservas monetárias de um casal não forem compartilhadas, as mulheres temem que os homem possam desprezar o desejo delas de renovar o guarda-roupa.

Em uma época na qual as mulheres compõem quase a metade da força de trabalho e ocupam empregos executivos, a idéia de ocultar as compras parece antiquada, e até mesmo perversa. Aqueles que estudam o sexo põem a culpa na persistência dos estereótipos.

"Tradicionalmente, a idéia era de que as mulheres eram altruístas, colocando os interesses dos outros na frente, e que não gastavam desnecessariamente consigo mesmas", afirma Kathleen Gerson, professora de sociologia da Universidade de Nova York e autora de "The Time Divide: Work, Family and Gender Inequality" ("O Divisor Temporal: Trabalho, Família e Desigualdade entre os Sexos"). Segundo ela, as mulheres ocultam as suas compras pessoais a fim de lidarem com esse rótulo.

Uma prática favorita de várias compradoras clandestinas é retirar algumas centenas de dólares de cada vez de contas bancárias a fim de evitar as reduções drásticas do saldo total. O dinheiro é colocado em um local privado, como uma gaveta de lingeries, até que haja o suficiente para uma compra. Algumas mulheres dizem que também emitem cheques em supermercados com valores mais elevados e embolsam a diferença.

Outras são mais ardilosas. Uma mulher de 50 anos de Nova Jersey, que pediu que o seu nome não fosse divulgado para proteger o seu casamento, disse que exagera o preço da mobília e da decoração da casa, e fica com o restante quanto o marido lhe dá o dinheiro. Ele prefere pagar por esses projetos em dinheiro vivo porque, neste caso, certas lojas e fornecedores não cobram impostos. "O engraçado é que ele não vê problema em desembolsar dinheiro para quaisquer despesas relacionadas à casa, não importa qual seja o valor", diz ela, acrescentando que ele é o único que ganha salário na residência. "A única coisa que o irrita são as minhas compras".

Essa mulher às vezes sente prazer em ludibriar o marido, que de vez em quando percebe as suas jóias David Yurman. "Se ele me pergunta se o que estou usando é novo, respondo que não, que tenho essas jóias há décadas", conta ela. O casal certamente não tem carência de dinheiro: eles possuem três casas. Mas a mulher ainda sente necessidade de surrupiar dinheiro para as suas próprias compras. "Isso faz com que eu mantenha a minha independência", diz ela.

Segundo os psicólogos isto não é verdade. "Quem precisa esconder não é realmente livre e independente", diz Kathleen Gurney, um psicólogo que é diretor-executivo do financialpsychology.com, um website que presta assessoria a indivíduos e instituições sobre a psicologia do comportamento financeiro. Segundo ela, os bate-bocas e brigas regulares sobre os gastos fazem parte de um relacionamento saudável.

Mas Azizian compara os seus gastos a uma brincadeira inócua. "Não é algo enganoso", diz ela. A sua butique registra regularmente compras de lingeries em dinheiro vivo, como sutiãs La Perla de US$ 250.

Os homens certamente também fazem compras caras. Mas a diferença, segundo os psicólogos, é que os homens têm maior predisposição a admitir que compraram um iPod ou uma caixa de Chateau Pavie 2003, de US$ 2.500 para a sua adega, ainda que isso gere uma discussão. "Segundo a minha experiência, quando os homens ganham dinheiro, eles assumem que o dinheiro é deles", diz Potash. "Já as mulheres, mesmo quando ganham o próprio dinheiro, às vezes sentem-se compelidas a pedir permissão para fazer compras".

Justin Mastrangelo, 28, um criador de websites de Pittsburgh, recentemente comprou um Sony PlayStation portátil de US$ 200 para distraí-lo durante um vôo. "Não precisava do aparelho, mas eu realmente desejava adquiri-lo", conta Mastrangelo. Apesar da desaprovação da mulher, Mastrangelo diz que nunca lhe ocorreu fazer segredo sobre os aparelhos que compra, mesmo quando estes custam milhares de dólares. "Prefiro ter uma briga devido ao que estou comprando do que fazer segredo", diz ele.

Outros maridos adotam uma política do tipo "não pergunte e não diga". Um gerente financeiro de 40 anos de idade de um hedge fund de Nova York diz que vai até Atlantic City, em Nova Jersey, com amigos, algumas vezes por ano e aposta US$ 10 mil, e que nunca comenta isso com a mulher. O homem, que é o único que tem salário na família, suspeita que a mulher faça regularmente pagamentos em dinheiro nas butiques de SoHo. "Ela aparece com seis pares de sapatos novos, que não surgem na conta do cartão de crédito", conta ele. "Não discuto isso com ela porque não temos carência de dinheiro. Esse é o preço do casamento, e fazer uma auditoria da minha mulher não faz sentido, contanto que a situação esteja sob controle."

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