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15/01/2007

Um futuro promissor para um vinho com um passado e tanto

The New York Times
J. Frank Prial
Hoje em dia os americanos bebem vinhos de quase todas as uvas, de quase todos os estados e continentes. Mas houve uma época em que americanos bebiam basicamente apenas um: o Madeira, um vinho fortificado e rico, proveniente da ilha portuguesa no Atlântico que nomeou a bebida.

Nos tempos coloniais, devido ao bloqueio britânico era quase impossível obter outros vinhos. Mas lá pelos meados do século19, tempos depois do final da crise e já com bons vinhos podendo ser importados do mundo inteiro, o Madeira passou a ficar basicamente esquecido pelo comércio vinícola.

Mannie Berk quer mudar essa realidade. Admitindo ser um fanático pelo Madeira, Berk, nativo de Dallas e aos 56 anos, está tentando quase que isoladamente reviver o interesse dos Estados Unidos pelo vinho que já foi, de maneira forçada, o seu favorito.

"Do começo do século 18 até a Guerra Civil", diz Berk, "os americanos afluentes eram tão orgulhosos de suas coleções de Madeira como se orgulhavam de seus acervos de arte e de suas propriedades. Nosso caso do amor com o Madeira se destaca como o exemplo pioneiro do estudo dedicado ao vinho nos Estados Unidos."

Berk é fundador e presidente da Rare Wine Co., com escritórios em Sonoma, na Califórnia, e em Guilford, Connecticut. A empresa oferece uma considerável variedade de grandes vinhos, mas o velho Madeira é sua razão de ser. "Um amigo me introduziu ao Madeira no início dos anos oitenta", diz Berk, "e eu fui fisgado."

Na Inglaterra em 1986, pesquisando um livro sobre antigas safras, Berk ouviu falar que a Hedges & Butler, uma importante loja de vinhos de Londres, estava disponibilizando estoques de Madeiras envelhecidos que estavam em suas adegas por décadas. "Com uma ajuda financeira de um amigo, comprei tudo o que eu podia", diz. "E aquele era o começo da Rare Wine Co.".

Berk conseguiu umas 400 caixas de Madeira, sendo a maior parte do século 19. Indisponíveis em todos os outros cantos do mundo, provavelmente nunca mais voltariam ao mercado.

Mas ele tinha planos mais ambiciosos do que apenas vender estes achados. "Queria tornar os americanos mais conscientes de nossa herança em relação ao Madeira".

Mesmo assim, conforme ele mesmo admite, "os Madeira novos que vieram para os Estados Unidos recentemente têm sido bem medíocres. Não proporcionam aos consumidores um sentido verdadeiro das possibilidades do Madeira."

O Madeira é capaz de alcançar uma idade surpreendente. Uma safra de Madeira deve envelhecer pelo menos 20 anos nos barris antes que possa ser vendida.

Em 1998, Berk começou a trabalhar com a Vinhos Barbeito, um de seus fornecedores, para produzir misturas com sabores ricos e buquês sutis de vinhos Madeira antigos, mas com um preço razoável. A partir deste conceito evoluiu a "Série Histórica" da empresa, que tem Madeiras batizados com nomes de cidades portuárias americanas, mantendo os laços históricos com a ilha portuguesa e seus vinhos.

Até agora a série é composta de quatro vinhos. Três deles - Boston Bual, New York Malmsey e Charleston Sercial - já foram lançados. Um quarto, dedicado a Nova Orleans, deve chegar ao mercado este mês.
As uvas bual, malmsey (malvasia) e sercial são as principais utilizadas nos primeiros três blends que foram lançados. Aproximadamente 25 por cento da mistura que compõe o Nova Orleans vêm da terrantez, uma uva extremamente rara, quase totalmente devastada pela praga filoxera no século 19.

"Levamos uns bons quatro anos para chegar aos nossos primeiros compostos", diz Berk. "O segredo consistia em incluir aproximadamente 15 por cento de casta tinta negra mole bem antiga -de 50 a 60 anos- com cerca de 85 por cento das uvas principais." A tinta negra mole não é das uvas mais nobres da ilha, mas envelhece bem, segundo o especialista.

Enquanto safras raras de Madeira podem alcançar cifras de centenas ou mesmo milhares de dólares por garrafa, os compostos da Série Histórica estão cotados a aproximadamente U$ 40, para os vinhos de Boston, de New York e de Charleston, sendo que Nova Orleans deverá valer U$ 60. Parte da renda proveniente da venda do vinho de Nova Orleans será destinada a atividades culinárias e culturais pós-Katrina na cidade devastada pelo furacão.

As primeiras três variedades são escuras na cor, ricas e com sabor de nozes, com sabores de laranjas e limões, açúcar mascavo e xarope de maple fundamentados com a acidez apropriada para o equilíbrio e a harmonia perfeitos. O Charleston Sercial é o mais seco, sendo de cor mais clara que os outros, enquanto o New York Malmsey é o mais adocicado. O Boston Bual fica no meio termo, com um aroma espetacular de açúcar mascavo e laranja.

Estes vinhos crescem lentamente depois de aberta a garrafa, e logo o ambiente estará perfumado com os aromas do café, do chocolate e dos frutos secos. Um crítico chegou a detectar "sabores quase trufados". Acertou em cheio.

O Madeira, assim como o Porto, é um vinho fortificado criado adicionando conhaque brandy durante a fermentação. O brandy interrompe a conversão do açúcar da uva em álcool e dióxido de carbono. Como conseqüência, o vinho, assim como o Porto, tem um teor de aproximadamente 18 por cento de açúcar.

Mas, ao contrário do Porto, o Madeira fica aquecido ao descansar em barris por três anos ou mais, nos sótãos abafados das casas da ilha de Madeira, em Funchal, a subtropical capital da ilha. Os melhores barris são reservados como vinhos de safra especial, e alguns não serão vendidos até que completem 60 ou 70 anos. Uma quantidade menor de vinhos é misturada, para a venda dentro de cinco, dez ou quinze anos.
No século 18 os comerciantes aprenderam que, quando o Madeira era enviado em embarcações a vela, o calor dos trópicos e o movimento dos navios realçavam a suavidade e a riqueza do vinho. Uma carta de vinhos do século 19, de um hotel de Nova Orleans, oferecia um Madeira que supostamente havia feito "duas viagens às Índias Orientais", por cinco vezes o preço de Madeiras mais comuns.
Os efeitos do longo declínio do Madeira ainda estão evidentes. A ilha já teve 60 produtores, mas agora tem somente oito.
Mesmo assim, o interesse por bons Madeiras tem crescido. A maioria de restaurantes que leva vinho a sério agora oferecem o Madeira.
O Gramercy Tavern em Nova York dispõe de cinco Madeiras para servir em taças, um deles um Boal Reserva de 1922 da D'Oliveiras que custa U$ 75 por taça. Entre os restaurantes de New York que dispõem dos Madeiras da Série Histórica estão o Gordon Ramsay at the London, o Hearth, o Del Posto, o Telepan, o Blue Hill e o DB Bistro Moderne.

Entre as lojas nova-iorquinas que oferecem pelo menos um ou dois vinhos da Série Histórica estão Astor, Crossroads, Harlem Vintage, Garnet, Crush, 67 e, em Westchester, a Zachys.

Enquanto muitas lojas de vinho oferecem compostos Madeira com preços a partir de U$ 20, os Madeiras de primeira linha custam muito mais. Na Sherry-Lehmann em Nova York, um Sercial 1974 da Blandy's custa U$ 175, e um Bual 1920 sai por U$ 795.

É evidente que a casa Rare Wine Co. consegue suplantar esses preços. O enólogo Berk tem um safra 1720 por U$ 3.000. Thomas Jefferson, o lendário pioneiro e também connoisseur de vinhos, provavelmente sorveu o 1720, mas somente mais tarde na vida dele. O vinho tinha somente 23 anos quando Thomas nasceu.

Uma uva modesta que já teve melhores dias

Se há um bandido na história da decadência do Madeira, a vilã é a uva tinta negra mole.

Uva indiferente, de rápido amadurecimento e prolífica, foi usada, na composição dos vinhos híbridos americanos, para substituir uvas nobres de videiras devastadas pelo míldio e pela filoxera no final do século 19.

A nobre linhagem do Madeira foi afogada num mar de vinho enviado em enorme remessa, na maior parte como bebida feita para se usar na cozinha.

Os híbridos foram proibidos em 1990 pelo Instituto do vinho Madeira, a agência reguladora oficial, e desde 1993 que somente ligeiras sugestões da tinta negra mole são permitidas na composição, para realçar doçura e cor.

Novos plantios das famosas uvas de Madeira usadas na Série Histórica de Mannie Berk - as uvas bual, malmsey e sercial - e a verdelho proporcionam todo esse retorno.

Tom Stevenson, enólogo britânico, acredita que o Madeira precisa de inovações para sobreviver. "A vinicultura nessa ilha tão íngreme exige tanto trabalho intenso", escreve o especialista na enciclopédia de vinhos da Sotheby's de Londres, "que produzir vinho barato por ali não faz sentido econômico algum." Marcelo Godoy

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