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16/01/2007

Na terra da beleza ousada, um espelho confiável quebra

The New York Times
Larry Rohter

no Rio de Janeiro
Como rei do Carnaval, o corpulento Rei Momo supostamente personifica toda a alegria, carnalidade e excessos associados ao mais brasileiro dos bacanais. Assim, quando o monarca reinante do evento se submete a uma cirurgia para redução do estômago, perde 68 quilos e dá início a um programa de exercícios, você começa a se perguntar o que está acontecendo.

E quando seis mulheres jovens morrem de anorexia em uma rápida sucessão - duas nas últimas duas semanas - a pergunta se transforma em perplexidade. O Brasil pode ter a sociedade mais consciente do corpo no mundo, mas tal corpo sempre foi um corpo confiantemente brasileiro - não norte-americano nem europeu.

Para as mulheres daqui isto significava ter um pouco mais de carne, distribuída de forma diferente para enfatizar o traseiro em vez do peito, os contornos de um violão em vez de uma ampulheta, e certamente não um palito. A anorexia, apesar de há muito associada a países industrializados mais ricos, era uma aflição praticamente desconhecida no Brasil.

Mas isto foi antes dos avanços da estética Barbie, modelos celebridades, televisão por satélite e cirurgias plásticas deixarem claro quão longe algumas noções importadas de beleza, necessidade e saúde invadiram os ideais brasileiros antes considerados invioláveis.

Ao "'atualizar' para os padrões internacionais de beleza", disse Mary del Priore, uma historiadora e co-autora de "História da Vida Privada no Brasil", o país está abandonando sua crença tradicional de que "rechonchudez é um sinal de beleza e magreza deve ser temida". O resultado contraditório, ela disse, "atualmente é que os ricos no Brasil são magros e os pobres são gordos".

Há uma geração, o tipo ideal aqui era o de Martha Rocha, a Miss Brasil de meados dos anos 50. Ela ficou em segundo lugar no concurso de Miss Universo supostamente porque seu corpo era um pouco generoso demais no quadril, traseiro e coxas, mas como tais características eram altamente valorizadas no Brasil, como sugerido pelos cartuns e a popularidade dos desenhos pornográficos de Carlos Zéfiro que circulavam, era o gosto do restante do mundo que era questionável.

Mesmo a famosa "garota de Ipanema", imortalizada na canção de bossa nova composta em 1962, ilustrava as diferenças culturais que predominavam na época: apenas na letra em inglês é que ela é "alta e bronzeada, jovem e adorável". Na versão original em português, a ênfase é dada no "doce balanço" dos seu quadril e traseiro, descrito como "mais que um poema, é a coisa mais linda que eu já vi passar".

Hoje, em um profundo contraste, o sinônimo de beleza é Gisele Bündchen, a top model cujo enorme sucesso internacional inspira milhares de meninas brasileiras que sonham em imitá-la a se inscrevem em cursos e concursos de modelo. Mas muito pouco no corpo de Gisele -alta e loira, esguia mas peituda- a associa a auto-imagem tradicional de sua terra natal.

"A dela é uma beleza globalizada que não tem nada a ver com o biótipo brasileiro", disse a dra. Joana de Vilhena Novaes, autora de "O Intolerável Peso da Feiúra -Sobre as Mulheres e Seus Corpos" e uma psicóloga daqui. "Ela tem pouco quadril, coxas ou traseiro. Ela é uma Barbie", uma cujos pais são de descendência alemã.

A dra. Novaes e outros notaram que durante os anos 60 e 70, as meninas brasileiras brincavam com uma boneca local chamada Susi, que, refletindo a estética nacional, era mais escura e mais carnuda que suas equivalentes do exterior. Mas nos anos 70 a Barbie chegou, e em meados dos anos 80 a produção das bonecas Susi diminuiu, apesar de ter sido retomada nos últimos anos em uma espécie de reação.

Mas até recentemente, ninguém aqui falaria com admiração em ter uma figura como ampulheta como a da Barbie, muito menos o físico esfomeado das passarelas internacionais. Em vez disso, o ideal era conhecido como "um corpo de violão"; isto é, como o da Susi, mais cheio na cintura, coxa e traseiro.

Um indicador de quão rapidamente os valores estão mudando pode ser visto em um estudo do governo divulgado em novembro, pouco depois da primeira das mortes por anorexia, a de Ana Carolina Reston, uma modelo de 21 anos. Segundo a pesquisa, o percentual da população tomando medicamentos para suprimir apetite tinha mais que dobrado entre 2001 e 2005, tornando o Brasil o campeão mundial no consumo de pílulas para dieta.

"Os motivos são puramente estéticos, não médicos, especialmente para as mulheres", que representam pelo menos 80% do mercado, disse o dr. Elisaldo de Araújo Carlini, um professor da Universidade Federal de São Paulo e que foi o autor do estudo. "Elas querem ficar magras a qualquer custo, tudo por causa das imagens do norte do Equador. É uma imposição cultural cruel sobre as mulheres brasileiras."

Mulheres em países de todo mundo estão sujeitas a tais pressões, é claro. Mas os brasileiros argumentam que a situação aqui é mais extrema: aqui é, afinal, um país tropical no qual, muito mais do que nos Estados Unidos, Europa ou Japão, as pessoas vivem suas vidas ao ar livre, freqüentemente, por questão de conforto, com roupas parcas que exibem as glórias e defeitos do corpo.

Um resultado é uma cultura de vaidade que parece não conhecer limites. Neste verão, a nova onda é, segundo o noticiário local, lipoaspiração nos dedos do pé e há também relatos de um boom na cirurgia plástica entre mulheres com 80 anos ou mais.

Os homens não estão imunes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria recentemente se submetido um tratamento cosmético nos dentes, e mesmo o chefe de uma tribo indígena na Amazônia se submeteu a cirurgia plástica porque, como colocou de forma franca, "eu estava me achando feio e queria ficar bonito de novo".

Mas grande parte das queixas daqui sobre a tirania da cultura da beleza vem das mulheres. Todo ano segue o mesmo padrão: as matrículas em academias de ginástica caem à medida que o inverno se aproxima e aumentam no último trimestre do ano, à medida que as mulheres tentam preparar seus corpos para ter uma bela aparência nas praias durante o verão.

Mas os hábitos alimentares dos brasileiros não facilitam o processo. Se a emblemática refeição americana consiste de frango frito, espiga de milho e uma torta de maçã, seu equivalente brasileiro é arroz e feijão, batatas, massa, pão, salada e um bife com farofa.

A dieta brasileira é muito mais rica em carboidratos e baixa em proteínas do que o recomendado, disse Cláudia Carahyba, uma nutricionista em São Paulo que tem como clientes agências de modelos, que querem acabar com os maus hábitos de suas garotas. "Isto é particularmente verdadeiro entre os pobres", ela disse. "Como a proteína custa mais, eles a trocam por mais carboidratos como mandioca, que é mais barata e faz você se sentir satisfeito."

Na verdade, o novo paradigma tem entrado mais lentamente nas regiões mais pobres da Amazônia e do Nordeste, onde a fome ainda é disseminada e a idéia de "fartura" é particularmente valorizada. Lá, os homens em particular se orgulham em exibir esposas e filhos cujos corpos são mais rechonchudos, como um sinal de que são bons provedores.

"Ser gordo costumava ser considerado maravilhoso no Brasil, porque mostrava que você comia bem, o que é importante para os brasileiros", disse Roberto da Matta, um antropólogo e colunista de jornal que é um importante comentarista social. "Fazer três refeições por dia e comer feijoada, calmamente, à mesa com amigos e parentes, significa que alguém está cuidando bem de você."

Especialistas também concordam que os homens brasileiros, independente de classe ou raça, têm sido mais lentos em aceitar magreza como sinal de beleza feminina. Quando procuram por uma parceira sexual, os homens brasileiros são consistentes e claros em dizer que preferem mulheres mais carnudas no traseiro - "popozuda" é a gíria que usam aqui- e com curvas pronunciadas.

No passado, tal padrão era tão firmemente estabelecido que algumas mulheres brasileiras recorriam a cirurgia para redução de seio ou aumento do traseiro, às vezes até mesmo transferindo tecido de cima para baixo.

Mas à medida que o padrão internacional se estabeleceu, os gostos passaram a mudar. "Aqueles seios imensos que você vê nos Estados Unidos, como na 'Playboy', sempre foram considerados ridículos no Brasil", disse Ivo Pitanguy, o mais renomado cirurgião plástico do país. "Mas agora há uma tendência maior do que antes para querer seios um pouco maiores -não torná-los imensos, mas mais proporcionais como parte de um corpo que é mais esbelto e mais atlético."

Apesar de tais padrões globalizados de beleza se originarem nos bairros ricos, de maioria branca, eles estão gradualmente se espalhando pelo restante do país e ultrapassando fronteiras raciais por atrizes e modelos que vivem aqui e atuam nas populares telenovelas. Academias de ginástica podem ser encontradas em favelas e os jornais notaram que a mais recente vítima de anorexia era uma adolescente de pele morena de um subúrbio operário do Rio, que sonhava se tornar uma modelo.

Na verdade, todas as seis mulheres que morreram de anorexia viviam ou no Rio ou em São Paulo, os Estados mais cosmopolitas do país e os centros da indústria de moda brasileira. A morte que se seguiu a de Reston foi a de uma estudante de moda de 21 anos. Também ocorreu a de uma estudante e funcionária de escritório de 23 anos, que tinha uma página de Internet e dava aulas de inglês.

Del Priore, a historiadora, apontou para outras mudanças fundamentais, que ela disse que levaram a uma rebelião contra o machismo e a estrutura patriarcal que ela acredita que persistem aqui.

"Esta mudança abrupta é uma decisão feminina que reflete mudanças de papel" à medida que as mulheres saem de casa e trabalham fora, ela disse. "Os homens ainda resistem e claramente preferem o tipo mais rechonchudo, mais carnudo. Mas as mulheres querem ser livres e poderosas, e uma forma de rejeitarem a submissão é adotarem estes padrões internacionais que não têm nada a ver com a sociedade brasileira." George El Khouri Andolfato

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