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17/01/2007

Nos Estados Unidos cresce o interesse por quadrinhos clássicos

The New York Times
Ben Schwartz

em Los Angeles
"Foi um pesadelo", diz Joe Matts com um suspiro. "Todos esses anos, tanto dinheiro e trabalho. Nunca recuperarei nada disso".

Matt, escritor de livros ilustrados, e que é mais conhecido pela sua comédia autobiográfica "Peepshow", está sentado em uma mesa da lanchonete Daily Donut em Los Feliz, um local do bairro que costuma ser visitado por fregueses idosos tranqüilos e que de vez em quando é invadido por grupos de adolescentes que vêm fazer um lanche após a escola. Ele fala da sua busca pela coleção perfeita das tiras de quadrinhos de Frank King, "Gasoline Alley", de 1921 a 1960. Matt, que não tem casa, carro, computador ou telefone celular, calcula que já gastou mais de US$ 15 mil nessa busca desde 1994.

IDW via The New York Times 
'Complete Dick Tracy' foi financiada por fãs, já que não existe mais projeto para a publicação

"Eu encontrei vendedores especializados em quadrinhos e encomendei os que queria", conta ele. "Em um ano são publicados cerca de 312 tiras, das quais é possível encontrar 290 ou mais. Multiplique por 40, a US$ 50 cada uma. E sempre ficam faltando algumas. Tive que encomendar várias vezes quadrinhos referentes ao mesmo ano apenas para obter as tiras de alguns dias que estavam faltando. E que deus não permita que elas caiam no chão, porque se isso acontecer o indivíduo terá que selecionar 300 tiras sem data, se baseando apenas no fio condutor das histórias. Depois descobri que jornais diferentes publicavam as tiras em tamanhos diferentes, ou com melhor qualidade de impressão. Foi um processo enlouquecedor".

Esse é um hábito que Matt cultiva há algum tempo. Ele recortou a sua primeira tira de quadrinho, um "Li'l Abner", quando tinha nove anos de idade, em 1972. Agora Matt procura trabalhos obscuros, que dificilmente voltarão a ser publicados, e os de King são um bom exemplo disso. A sua coleção contém o grosso de "Walt & Skeezix" (cujo nome original, "Gasoline Alley", foi modificado por motivos relacionados a direitos editoriais), uma série de vários volumes, que abrangem o trabalho de uma década, com a reimpressão dos quadrinhos completos de King publicados pela "Drawn & Quarterly" (o volume três sai em junho).

Matt não é um caso único entre os colecionadores. Peter Maresca, que é diretor de criação da GoComics/uClick Mobile, publicou ele mesmo a sua própria coleção das tiras de domingo "Little Nemo" sob o título "So Many Splendid Days" ("Tantos Dias Esplêndidos"). A publicação das séries de "Popeye" e de "Krazy Kat" se tornou possível devido ao trabalho do arquivista Bill Blackbeard, e a da coleção "Complete Dick Tracy", da IDW, foi financiada por uma legião de fãs, já que não existe mais nenhum projeto para a publicação da série.

Essa compulsão por possuir todas as tiras de quadrinho de um artista - que às vezes chegam a mais de 15 mil - e de recortá-las, preservá-las e organizá-las, ajudou a resgatar um aspecto da cultura popular norte-americana que estava em processo de desaparecimento. Após décadas durante as quais as agências de jornais e as bibliotecas se livraram dos seus arquivos de papel e os substituíram por microfilmes, as coleções desses fãs são, muitas vezes, tudo o que restou.

"Não poderíamos ter feito isso sem eles", diz Kim Thompson, co-fundador da "Fantagraphics", a editora de histórias ilustradas populares como "Ghost World", de Daniel Clowes. A "Fantagraphics" passou a lançar projetos "completos" na década de 1980, com coleções de vários volumes de "Popeye" e "Prince Valiant", e atualmente com a "Krazy Kat" (relançada como "Krazy & Ignatz", por motivos relacionados a direitos editoriais), uma coletânea revisada de "Popeye" e "Peanuts" de Charles M. Schulz.

Thompson recorreu à Internet para procurar tiras raras, e os fãs apresentaram o que ele queria: "Até mesmo com 'Peanuts', trabalho do qual Schulz só tinha um único arquivo, encontramos uma fã, Marcie - sim, o mesmo nome da personagem de 'Peanuts' - que compilou um banco de dados por conta própria que permite que ela localize a data de publicação de qualquer tira, e lhe informa se uma tira específica algum dia foi reimpressa".

Até recentemente, o mercado para vários desses projetos era limitado a outros colecionadores, e as vendas fracas condenaram séries de vários volumes anteriores, como "Little Orphan Annie" ("A Pequena Órfã Annie") quando elas estavam pela metade.

Mas as coleções atuais prometem mais sob o ponto de vista comercial, graças em grande parte a sucessos de literatura ilustrada como "Maus", "Jimmy Corrigan", "Ghost World" e "Persepolis". A "Fantagraphics" informa que vendeu cerca de 100 mil cópias do primeiro volume de "The Complete Peanuts" (" Peanuts Completo") desde 2004, e a revista lança novos volumes duas vezes por ano. A editora também vendeu de 10 mil a 16 mil cópias de cada uma das três primeiras coleções de "Krazy & Ignatz", e está lançando um oitavo volume no mês que vem. Foram vendidas 7.500 cópias de "The Complete Dick Tracy" ("Dick Tracy Completo") em outubro passado. Uma segunda edição deverá ser lançada no final de fevereiro. O lançamento do segundo volume está previsto para abril.

"Existe um público mais jovem que cresceu durante esse renascimento dos quadrinhos", conta o cartunista conhecido como Seth, que elaborou "The Complete Peanuts". "Esses indivíduos, que provavelmente têm agora pouco mais de vinte anos, cresceram lendo coisas como 'Eightball' quando adolescentes. Portanto, eles estão bem preparados para isso, e para eles não há nada de mais em abraçar a história dos quadrinhos."

Essa história é resgatada pelos atuais cartunistas, que elaboram livros de excelente qualidade artística, contribuem freqüentemente com ensaios históricos e reformulam inteligentemente esses trabalhos para que eles apareçam nas contracapas. Chris Ware, o criador de "Jimmy Corrigan", faz as séries "Krazy & Ignatz" e "Walt & Skeezix", enquanto Adrian Tomine é responsável por uma série de trabalhos do cartunista japonês Yoshihiro Tatsumi.

Jeet Heer, um historiador que edita os trabalhos de Herriman e de King, diz: "Eles fazem com que os trabalhos pareçam novos e vivazes, e não apenas um objeto de interesse dos colecionadores de antiguidades. As primeiras reproduções das séries - 'Terry and the Pirates', 'Flash Gordon' e 'Prince Valiant' - atraíram mais os homens na faixa etária dos 50 e dos 60 que desejavam reviver a infância. Já a nova safra de livros não está sendo lida por pessoas que têm uma memória nostálgica com relação à primeira leitura dessas obras".

Chris Oliveros, o editor da "Drawn & Quaterly", diz: "Artistas como Ware e Tomine tornaram possível contornar as bancas de revista especializadas em super-heróis para um público geral. Estamos introduzindo isto como um bom trabalho que deve contar com uma audiência".

Para fazer isso, o trabalho é que é enfatizado, e não a propaganda kitsch gerada freqüentemente pelas tiras mais populares. As capas feitas por Seth para "Peanuts", por exemplo, se focam mais nas emoções das tiras de Schulz do que nas imagens do Barão Vermelho de Snoopy ou da sala de psiquiatria de Lucy, que agradam mais ao grande público.

"O mundo de Charles Schulz na prancheta de desenho é completamente diferente do mundo de Charles Schulz nas lojas, na televisão, nos cinemas ou no Japão", explica David Michaelis, autor do livro "Schulz: A Biography" ("Schulz: Uma Biografia"), que está para ser lançado nos Estados Unidos. O que Seth fez foi pegar um diamante na sua velha coleção, lapidá-lo e reformulá-lo de forma que ele brilhasse mais. Ele abordou Schulz com o olho de uma câmera, mergulhando profundamente nas imagens e pinçando e expandindo trechos selecionados. Isso não é Schulz, é Seth. Ele não retira nada. O que ele faz é reconstruir. Seth refaz Schulz. "Esse é um dos presentes mais generosos que um artista gráfico já deu a outro".

Ted Adams, da IDW, diz que espera reapresentar os leitores à imaginação sombria e brutal de Chester Gould. "No início as pessoas me perguntavam: 'Dick Tracy? Por que você está imprimindo isso novamente? Que coisa chata'", conta ele. "Creio que as memórias desses indivíduos estão vinculadas ao filme de Warren Beatty, que me agradou. Mas aquilo não é Gould. É uma trama policial da década de 1930 sobre um tira que faz o que é necessário".

A restauração gráfica dos quadrinhos é auxiliada enormemente pela tecnologia digital: as letras que faltam são "clonadas" de outros balões, as cores desbotadas são reequilibradas e as cenas de fundo ausente, transpostas a partir de quadros similares.

"Isso não teria sido possível cinco ou dez anos atrás", afirma Thompson. "Os resultados são muito melhores. Àquela época tirávamos fotografias de páginas inteiras e a seguir fazíamos as correções à mão. Agora escaneamos as imagens, as inserimos em um computador e fazemos as correções com Photoshop".

Para Maresca, que editou sua coletânea "Little Nemo", tudo se resume a "tecnologia avançada salvando a tecnologia primitiva". Ele fundou a editora Sunday Press Books na sua casa, restaurou as suas próprias páginas usando o programa Photoshop e os reeditou em tamanho original de jornal. Pela primeira vez em um século, "Little Nemo" de Winsor McCay saiu como se pretendia, em um livro de mesa de café. Foram vendidas 5.000 cópias e Maresca pretende lançar um livro similar de Frank King com Ware.

Talvez o melhor exemplo do interesse renovado nos quadrinhos clássicos seja "Gasoline Alley", de King, agora rebatizado de "Walt & Skeezix", em uma alusão ao pai e ao filho que são protagonistas das histórias. Obscuro até mesmo para os fãs devotos das comédias, hoje em dia o único fator real que promove a venda desse trabalho é a narrativa de King.

O primeiro volume, que vendeu mais de dez mil cópias em 2005, teve início em 1921, quando King mandou relutantemente o seu filho para um colégio interno. Pouco depois, ele deixou o bebê Skeezix em frente à porta de Walt.

"Isso sugere que o quadrinho é essencialmente a vida imaginária de King com um filho que não estava mais lá", explica Ware. "As tiras de King adquiriram a estrutura formal da tira cômica diária e comum, e foram usadas para contar uma longa história, de quase 50 anos, sobre uma vida de classe média norte-americana. As crianças cresceram, se casaram, foram à guerra, tiveram filhos e depois netos".

Surpreendentemente, o renascimento de King encontrou um dissidente no seu fã número um, Matt. "Estranho, não?", diz ele. "Quero dizer, eu adoro os livros, mas onde está a minha compensação?".

Ele diz que não se refere aos US$ 540 que a "Drawn & Quaterly" pagou pela sua coleção, ou ao crédito, embora lembre aos leitores do novo "Peepshow" que foi ele quem apresentou o trabalho de King à "Drawn & Quaterly". Não, ele acredita ser uma vítima de um final alterado do tipo O. Henry, no qual o seu trabalho como colecionador destruiu o seu próprio propósito.

"Nunca pretendi lançar os livros", diz Matt. "Fiz isso de forma que pudesse ler Frank King sempre que pudesse. Eu me concentrei nele porque achei que King jamais seria reimpresso. Quero dizer, quais eram as chances de que isso acontecesse? É claro que eles estão relançando 'Peanuts'. Mas e quanto a King? Agora todo mundo pode comprar um exemplar".

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