UOL Notícias Internacional
 

19/01/2007

Lidando com o poder com elegância

The New York Times
Lizette Alvarez
Elogiar alguém por seu estilo no Capitólio é como celebrar o melhor surfista na Costa do Golfo da Flórida - é tudo relativo, com alguns argumentando ser irrelevante. Washington nunca abraçou a moda (nem o mundo da moda nunca abraçou Washington) e por motivos compreensíveis. Nos círculos políticos moda é um termo carregado, com cheiro de frivolidade e vaidade.

Assim, em grande parte, os políticos são agnósticos da moda, se atendo teimosamente aos seus ternos azuis escuros, gravatas vermelhas, echarpes multicoloridas e cabelo laqueado.

David Scull/The New York Times 
Ascensão de Nancy Pelosi, com seus terninhos Armani, levou a moda para o Capitólio

Mas com a ascensão de Nancy Pelosi, 66 anos, amplamente reconhecida e admirada por seus Armanis e olho para moda, os dias de pessoas mal vestidas em Washington parecem contados. Pelo menos esta é a esperança de várias mulheres no Capitólio, republicanas e democratas, que vêem Pelosi, a nova presidente da Câmara, também como uma líder em moda.

Estas mulheres não temem que sua seriedade como políticas será minada por falarem em voz alta sobre penteado e comprimento do cabelo, ou do que uma delas, a deputada Mary Bono, republicana da Califórnia, chama de "uniforme Saint John", uma referência à grife segura de preferência no Capitólio.

"Eu estou tão cheia da caixa matrona - o restante da América não se veste assim", disse Bono, 45 anos, que, com seu endereço em Palm Springs, gosto por artes marciais e casamento com o falecido Sonny Bono, decididamente não tem nada de Washington. "Nós todas queremos ser levadas a sério e você certamente não deseja parecer muito sensual", acrescentou Bono, "mas é preciso manter sua feminilidade. Pelosi se veste muito bem. Eu espero que ela tenha um grande impacto - em termos de moda, não políticos".
Durante sua primeira semana no cargo, Pelosi apoiou votações na Câmara para o salário mínimo, financiamento de pesquisa de células-tronco e preços dos medicamentos no Medicare (o serviço de saúde para idosos e inválidos), obtendo duas ameaças de veto (em pesquisa e medicamentos) de um presidente notoriamente averso a vetos.

E ela o fez com uma aparência de frescor sobrenatural, com um figurino que, apesar de ainda contido e apoiado em terninhos, raramente despontou nos corredores do Congresso. Em 9 de janeiro, uma terça-feira, ela vestiu um tailleur preto e branco impecável, com ombros fortes e casaco acinturado; na quarta-feira, ela passou um xale vermelho de forma despreocupada em torno do casaco vermelho do lado de fora da Casa Branca; e na quinta-feira, ela apareceu em um esguio terninho de veludo azul.

As autoridades da moda dizem que Pelosi deveria ser aplaudida por sua escolha de cores (vinho em 4 de janeiro, quando foi empossada), seu estilo descontraído com jóias (grandes, mas de bom gosto, incluindo pérolas taitianas) e sua seleção de casacos (de veludo a tweed), todos capazes de ser imitados por um preço mais razoável por mulheres que não são ricas. As mulheres já estão começando a tomar nota de seu estilo; as encomendas de pérolas taitianas cresceram enormemente.

"Ela veste as roupas e não o contrário, a forma como deve ser", disse Pamela Fiori, a editora-chefe da revista "Town & Country", que enfatizou que as palavras de Pelosi são mais importantes que suas roupas. "Se ele puder ter um pouquinho de influência no Senado, na Câmara ou em casa, isto não seria uma coisa ruim."

O simples levantar da questão das escolhas de guarda-roupa de uma mulher poderosa soa para algumas pessoas como sexista, uma forma de minar seus talentos e qualificações. Na semana passada, quando uma repórter abordou várias das parlamentares na Câmara e Senado, ou seus assessores, para falar sobre moda, algumas pessoas não quiseram tratar do assunto.

Outras fizeram cara feia, pelo menos inicialmente. Mas quando a conversa se enveredou pelo básico - o que você veste, onde compra e que imagem deseja passar - as mulheres na política conversaram alegremente. "Ah, Ferragamo", disse a senadora Dianne Feinstein, democrata da Califórnia, 73 anos, reconhecendo que paparica seus pés como forma de vingança contra os pisos de mármore do Capitólio.

As mulheres na política são as primeiras a dizer que pensam seriamente na aparência porque, gostem ou não, os eleitores em casa, os poderosos no Capitólio e a imprensa ficam atentos ao menor deslize. É errado se arriscar demais na aparência, elas disseram. Mas não é retrógrado associar boa aparência a ter a cabeça vazia?

"À medida que cresce a confiança nas parlamentares em determinadas questões, eles podem sentir que há mais abertura", disse a deputada Stephanie Herseth, democrata de Dakota do Sul, 36 anos, de forma otimista. Ele recentemente ficou com a orelha vermelha de tanto que ouviu sobre o clareamento de seu cabelo. A situação é muito mais fácil para os homens, porque diferente das mulheres, eles raramente são punidos por deslizes de moda.

Assim, é compreensível que as mulheres na política tenham tanto cuidado em suas escolhas. A senadora Hillary Rodham Clinton, democrata de Nova York, 59 anos, foi torturada por suas mudanças cosméticas mensais quando era primeira-dama. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, 52 anos, fotografada vestindo botas pretas de cano de até o joelho, uma saia preta acima do joelho e casaco preto estilo militar em 2005, foi chamada de dominatrix pela crítica de moda do "The Washington Post".

As mulheres na política ainda agem em um mundo masculino e não querem parecer como carentes de seriedade. "Esta ainda é essencialmente uma cidade masculina", disse Susan Molinari, uma republicana e ex-congressista por Staten Island de Nova York, que dirige o Washington Group, uma firma de lobby e relações com o governo. "As autoridades eleitas com assuntos sérios desejam ser levadas extremamente a sério. Você avalia tudo o que veste. Isto distrai? Isto atrapalha minha mensagem?"

Mesmo Pelosi tem seus limites. Os membros de sua equipe, após repetidos pedidos, se recusaram a falar sobre suas opções de roupa para este artigo. Em uma recente entrevista para o programa "60 Minutes", Pelosi disse que é seu marido quem freqüentemente lhe compra roupas.

A verdade é que as escolhas das mulheres no Capitólio são freqüentemente ditadas pelos seus cargos. Os legisladores estão constantemente caminhando longas distâncias por pisos punitivos (calçados de salto baixo e confortáveis são obrigatórios), lidando com móveis caprichosos (pense em tecidos duráveis) e saltando de salas de comitês para eventos de arrecadação de fundos (versatilidade é a chave). Não basta manter uma boa aparência por meras três horas, o motivo de muitas mulheres preferirem o modelos Saint John.

"Você quer algo que não seja frágil, que não vai rasgar ao encontrar uma lasca", disse a deputada Ellen Tauscher, democrata da Califórnia, 55 anos, que diz que os móveis de madeira em que se senta nas salas dos comitês são "mais velhos do que eu".

"Ao mesmo tempo, você quer que as pessoas escutem o que você está dizendo e não olhando o que você está vestindo", disse Tauscher, que é uma líder em assuntos militares.

Dizer que os eleitores não se importam com moda ou imagem não é o caso para a maioria das políticas. A deputada Debbie Wasserman Schultz, 40 anos, democrata da Flórida, disse que suas eleitoras adoram falar sobre sua aparência.

Quando ela começou a alisar seu cabelo, sua nova aparência ganhou espaço nos jornais e provocou uma avalanche de comentários, bem positivos. A mudança não diminuiu sua seriedade; ela atualmente é vice-líder da bancada.

"Eu digo às minhas eleitoras, 'me dêem uma dica'", ela disse. "E todas dizem, 'Debby, você precisa de um corte de cabelo'. Se eu parecer desleixada, vou ouvir a respeito."

Ela também apela ao uniforme Saint John (apesar da opinião de Bono). Mas diferente de outras legisladoras, ela adere a um orçamento restrito. Seu guarda-roupa Saint John foi comprado no (site de leilão) e-Bay, às vezes pelo seu marido, ela confidenciou: "Não dá para comprar estas coisas em loja. É caro".

Na verdade, o tailleur laranja que ela vestia outro dia no plenário da Câmara era um Valentino. "Rodeodriveresale.com", ela disse de forma conspiratória. "Você sabe quanto um Valentino é caro?"

Lembrando sua entrada na política de Washington, Wasserman Schultz disse: "Eu tinha que me vestir de forma mais conservadora". "Mas ficar mal vestida também não é eficaz", ela acrescentou. Sua melhor amiga, ela lembrou, recentemente lhe ordenou "parar de se vestir como sua mãe". Ela sente alguma liberdade para ser ousada? "Não por aqui", ela disse.

Houve algum progresso. Consultores de imagem disseram que Hillary Clinton parece ter finalmente encontrado seu centro fashion - terninhos meio "nehru", freqüentemente pretos, uma camisa mais chamativa por baixo e jóias ousadas. Seu cabelo lisonjeia sua idade e cargo. Na verdade, muitas senadoras agora adotaram terninhos pretos. Certo dia na semana passada, seis das 16 senadoras caminhavam pelo Senado em terninhos pretos.

Com tantas imagens de celebridades seminuas e tão poucas de profissionais de carreira bem vestidas, tudo ajuda. "Você não precisa se parecer com uma bibliotecária", disse Lauren Solomon, fundadora e diretora da LS Image Associates, que tem clientes nos campos corporativo e político. "Mas também não precisa se parecer com uma prostituta." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,28
    3,182
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,29
    64.676,55
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host