UOL Notícias Internacional
 

19/01/2007

Pressão para que o presidente do Irã abandone a política nuclear

The New York Times
Nazila Fathi, em Teerã, Irã

e Michael Slackman, no Cairo, Egito
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, parece estar sob pressão das mais altas autoridades no país para encerrar seu envolvimento no programa nuclear, um sinal de que seu capital político está diminuindo à medida que sofre uma pressão internacional cada vez maior.

Um mês após o Conselho de Segurança da ONU ter imposto sanções contra o Irã para coibir seu programa nuclear, dois jornais linhas-duras, incluindo um de propriedade do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, pediram ao presidente para que fique de fora de todos os assuntos nucleares.

No mundo nebuloso da política iraniana, tal repreensão pública foi vista como um sinal de que o próprio líder supremo -que tem a palavra final sobre todos os assuntos do Estado - não mais apoiaria o presidente como o rosto público do desafio ao Ocidente. É o primeiro sinal de que Ahmadinejad perdeu a confiança do aiatolá Khamenei, um desdobramento potencialmente prejudicial para um presidente que mobilizou sua nação e definiu seu governo ao declarar a energia nuclear um "direito inalienável" do Irã.

Mas não está claro se isto foi um mero esforço para melhorar a imagem pública do Irã, ao rebaixar Ahmadinejad, ou uma sinalização de qualquer mudança na política. A presidência está em uma posição relativamente fraca, sem nenhuma autoridade em política externa, o domínio do líder supremo. Mas Ahmadinejad vinha usando a posição como púlpito para se inserir no debate nuclear, e enquanto parecia desfrutar do apoio do aiatolá Khamenei, ele pôde continuar.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução em 23 de dezembro com sanções que visavam coibir o programa de enriquecimento de urânio do Irã, que o Irã diz ser para fins pacíficos, mas que os Estados Unidos e alguns países europeus argumentam visar a criação de armas nucleares. A medida impede o comércio de bens ou tecnologia relacionada ao programa nuclear do Irã. O urânio enriquecido pode ser usado para produção de combustível nuclear, mas também para a produção de armas nucleares.

Apesar de o Irã permanecer publicamente desafiador, insistindo que prosseguirá com suas ambições nucleares, ele está sob crescente tensão à medida que aumentam as pressões políticas e econômicas. E a mensagem que as mais altas autoridades do Irã parecem estar enviando é que o presidente, com sua abordagem dura e comentários cáusticos, está minando a causa e posição do Irã.

O presidente rejeitou a resolução do Conselho de Segurança como "um pedaço de papel rasgado". Mas o jornal "Jomhouri-Eslami", que pertence a Khamenei, disse: "A resolução é certamente prejudicial ao país", acrescentando ser "demais chamá-la de 'pedaço de papel rasgado'". O jornal acrescentou que a situação do programa nuclear exigia diplomacia própria, "às vezes firmeza e às vezes flexibilidade".

Em outro sinal da pressão sobre o presidente para que se distancie da questão nuclear, um segundo jornal dirigido por um assessor do negociador nuclear chefe do país, Ali Larijani, também pressionou Ahmadinejad a encerrar seu envolvimento no programa nuclear. Larijani também concorreu à presidência e foi escolhido para seu cargo pelo líder supremo.

"Eles querem minimizar as conseqüências das sanções agora que foram impostas", disse Mohammad Atrianfar, um executivo do jornal "Shargh", que foi fechado em setembro, e um político reformista. "Mas eles não têm uma estratégia clara e estão dando um passo de cada vez."

Ahmadinejad assumiu o cargo há mais de um ano como um forasteiro, o prefeito de Teerã que prometia mudar o status quo, distribuir igualmente a riqueza do petróleo do Irã e restaurar o que considerava valores perdidos da revolução islâmica. Sua mensagem era populista, centrada em um modelo econômico socialista e valores islâmicos. E desde o início ele encontrou oposição da direita e da esquerda, no Parlamento e entre aqueles que se consideram pragmáticos.

A pressão continuou e as críticas agora parecem ter ganhado mais credibilidade diante das sanções e da situação econômica difícil do Irã. O aumento da pressão dos Estados Unidos sobre o Irã por seu papel no Iraque também aumentou as preocupações em Teerã e pode estar por trás dos esforços para restringir o presidente, disseram analistas políticos em Teerã.

"A resolução reduziu a credibilidade política do Irã na comunidade internacional, de forma que outros países não podem defender o Irã", disse Ahmad Shirzad, um político reformista e ex-membro do Parlamento.

Apesar das sanções impostas pelo Conselho de Segurança em 23 de dezembro serem limitadas ao programa nuclear do Irã, elas começaram a afetar a economia. Cerca de 50 legisladores assinaram uma carta nesta semana convocando o presidente a aparecer perante o Parlamento para responder perguntas sobre o programa nuclear. Os signatários precisam que pelo menos mais 22 membros assinem para que ocorra a convocação.

Em outra carta, 150 legisladores criticaram o presidente por suas políticas econômicas, que levaram a um aumento da inflação, e por seu fracasso em submeter o orçamento para o próximo ano dentro do prazo.

O mercado de ações iraniano, que já estava em queda, passou a cair ainda mais rapidamente no mês passado, à medida que compradores se afastavam do mercado. O jornal "Kargozaran" noticiou na semana passada que os negócios caíram 46% desde que a resolução do Conselho de Segurança foi aprovada.

"A resolução teve um efeito psicológico nas pessoas", disse Ali Hagh, um economista em Teerã. "Não faz sentido para os investidores não considerarem eventos políticos quando desejam investir seu dinheiro."

O "Kargozaran" noticiou que um grupo de poderosos empresários, o Partido da Coalizão Islâmica, se reuniu com Mohammad Nahavandian, um alto membro do Conselho Supremo de Segurança Nacional, e pediu pela moderação nas políticas nucleares do país para impedir maiores danos à economia.

No ano passado, vários importantes bancos europeus romperam seus laços comerciais com o Irã. Os economistas disseram que a decisão dos bancos também levará a um aumento da inflação, porque os importadores precisam empregar formas complicadas para financiar as compras. "A questão nuclear abriu o caminho para outras formas de pressão sobre o Irã", disse Shirzad.

Apesar da linguagem dura de Ahmadinejad desde que a resolução da ONU foi aprovada, Khamenei não se referiu à resolução diretamente e disse apenas uma vez que o Irã não abriria mão de seu direito de perseguir seu programa nuclear.

Larijani disse que o Irã não abandonará o Tratado de Não-Proliferação Nuclear ou barrar os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica, apesar das ameaças anteriores. George El Khouri Andolfato

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