UOL Notícias Internacional
 

28/01/2007

Autoridades sauditas tentam controlar o preço do petróleo

The New York Times
Jad Mouawad
A Arábia Saudita, que se beneficiou imensamente com os preços recordes do petróleo no ano passado, enviou sinais nas duas últimas semanas de que está comprometida a manter o petróleo em torno de US$ 50 o barril --US$ 27 a menos do que o pico em meados do ano passado, o que abalou os consumidores em todo o mundo desenvolvido.

As indicações vieram na forma tipicamente críptica do reino rico em petróleo. Em Tóquio na semana passada, Ali al Naimi, o ministro do petróleo saudita, disse que a política de seu país era manter "preços moderados". Na semana anterior, em uma parada em Nova Déli, ele fez uso de seu veto em uma reunião de emergência da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para elevar os preços depois que o petróleo caiu brevemente abaixo de US$ 50 o barril, o nível mais baixo em quase dois anos.

Os eventos que levaram os preços do petróleo acima de US$ 77 o barril em julho do ano passado, e depois os derrubaram de novo, estavam além do controle de qualquer produtor individual. Ainda assim, a Arábia Saudita, que é de longe a maior produtora de petróleo dentro da Opep e geralmente estabelece a agenda do cartel, está buscando evitar uma repetição dos aumentos radicais de preços ao mesmo tempo que tenta estabelecer um piso.

Em nenhum outro lugar o pico nos preços do petróleo do ano passado foi mais sentido do que nos Estados Unidos. Quando o preço da gasolina ultrapassou os US$ 3 o galão (3,785 litros), os consumidores foram obrigados a cortar gastos em outras partes, reduzindo os lucros no varejo, turismo e outros setores. As montadoras americanas foram duramente atingidas, com os consumidores trocando grandes veículos por modelos menores, historicamente uma especialidade dos japoneses; na última quinta-feira, a Ford anunciou que 2006 foi o pior ano em sua história.

O recente recuou para US$ 50 o barril de petróleo -que se traduz em cerca de US$ 2 o galão de gasolina nos Estados Unidos- aliviou a pressão sobre a economia doméstica, reduzindo a conversa de que os preços do petróleo e o desaquecimento no mercado imobiliário levariam a uma recessão. Por outro lado, disseram os economistas, apesar de todo o temor sobre os altos custos da energia, a economia americana se mostrou notavelmente resistente, evitando um declínio sério.

Os sauditas parecem estar reaprendendo o fato de que preços dolorosamente altos de energia têm um impacto profundo na economia global, o que por sua vez reduz a demanda por seu petróleo. Mas também parece haver outras motivações, como o desejo dos sauditas de restringir as ambições do Irã na região. Eles expressaram suas preocupações em relação ao Irã ao vice-presidente Dick Cheney, em novembro passado, durante uma reunião relâmpago em Riad com o rei saudita Abdullah, e alertaram os americanos contra uma retirada rápida do Iraque.

Não se sabe se petróleo foi discutido, mas a reunião levou a novas especulações de que os sauditas estariam tentados a drenar as ambições do Irã derrubando os preços do petróleo. Um telefonema na noite de sexta-feira ao gabinete do vice-presidente, em busca de comentários sobre a viagem, não foi retornado até a manhã de sábado.

O governo Bush reconheceu repetidas vezes os esforços da Arábia Saudita para tentar moderar os preços. "Compradores e vendedores têm um interesse comum em manter preços razoáveis para o petróleo", disse Samuel Bodman, o secretário de Energia, em outubro.

Mais do que qualquer meta específica, os sauditas sempre buscaram estabilidade nos preços do petróleo. Mas a estabilidade pode provar ser tão esquiva neste ano como no ano passado, dado quão vulnerável permanece a oferta global de petróleo às variações do clima assim como à turbulência política no Oriente Médio e na África.

Apesar da decisão por voto unânime dos 12 membros da Opep de aumentar a produção de petróleo -o que reduz os preços ao tornar a oferta mais abundante- as pressões do consumo é que determinam, e um inverno extremamente frio após um verão muito quente pode superar qualquer meta de preço que os sauditas tenham estabelecido.

Preços entre US$ 50 e US$ 55 o barril são considerados bons pelos sauditas, disseram analistas de energia -não altos demais para prejudicar a economia global, nem baixos demais para prejudicar sua própria economia. Eles também permitem que os sauditas mantenham seus aliados contentes ao mesmo tempo em que mantêm uma vantagem sobre seus rivais.

Os sauditas redescobriram que preços altos demais podem ser um tiro pela culatra. Assim como os choques do petróleo dos anos 70 e 80 levaram a uma busca por carros mais econômicos e um esforço para reduzir a dependência do Ocidente em petróleo, o recente aumento dos preços levou a uma redução do consumo de petróleo nos países desenvolvidos. A desaceleração do crescimento e o clima ameno levaram a uma queda no preço dos petróleo.

Os preços mais altos reacenderam a busca americana por alternativas e levou a segurança da energia ao topo da agenda nos Estados Unidos e na Europa. Mesmo o presidente Bush, que iniciou sua presidência buscando aumentar a produção doméstica de petróleo, pediu por reduções no consumo de gasolina ao longo da próxima década no discurso do Estado da União na semana passada.

O papel da Casa Branca nos preços do petróleo, especialmente nos preços do petróleo saudita, é uma fonte constante de intriga e especulação em Washington. Bush e seu pai, que iniciaram suas carreiras na indústria do petróleo, mantêm laços estreitos com o príncipe Bandar bin Sultan. E Cheney, um ex-executivo do setor de serviços de energia, também mantém laços estreitos com os sauditas.

Os altos preços encorajaram rivais dentro da Opep, entre eles o Irã e a Venezuela, que usaram sua receita do petróleo para promover seus governos e exportar suas agendas mais radicais. A Arábia Saudita, que estabelece a agenda da Opep, tem trabalhado de forma mais cooperativa com o Irã desde o final dos anos 90, quando os produtores de petróleo estavam em pânico diante do declínio dos preços para cerca de US$ 10 o barril. Mais recentemente, o Irã tem defendido o aumento dos preços em vez da moderação pretendida pela Arábia Saudita. A Venezuela, que também defende preços mais altos, tem menos influência política no Cartel.

"Preços altos não são do interesse da Arábia Saudita", disse Sadek Boussena, um ex-presidente da Opep da Argélia. "Nós todos já vimos o que US$ 70 causa: ele atrai alternativas, ele reduz a demanda. Por outro lado, eu não acho que os sauditas querem o petróleo abaixo de US$ 50. Eles precisam da receita."

Não há fórmula científica para estabelecer os preços do petróleo. Nos anos 80, o mercado estabeleceu cerca de US$ 18 o barril como um preço justo. Nos anos 90, tal preço subiu para US$ 22 a US$ 25 o barril. Recentemente, os produtores de petróleo perceberam que podem cobrar o dobro de tal valor sem atrapalharem significativamente a economia global, apesar dos países consumidores ainda se queixarem de que o preço está alto demais.

Naimi, o ministro do petróleo saudita, exibindo os modos de um cuidadoso diretor de banco central, raramente é explícito sobre seus planos. Cada palavra dele é dissecada por legiões de analistas em busca do menor indício de uma variação na política.

Às vezes a incerteza gera mais teorias conspiratórias. Corriam boatos entre os mercadores de petróleo nas últimas semanas sobre se a Arábia Saudita está ativamente buscando derrubar o preço do petróleo na esperança de debilitar a economia do Irã, com sugeriu um analista saudita -apesar de uma pessoa não ligada ao governo- em um artigo de opinião no "The Washington Post" no final do ano passado. Os sauditas rejeitaram rapidamente a sugestão, mas dadas as tensões no Oriente Médio, petróleo e política permanecem estreitamente ligados.

"É difícil determinar o que os sauditas realmente querem, já que nunca dizem as coisas explicitamente", disse Leo Drollas, o economista chefe do Centro para Estudos de Energia Global, um grupo de pesquisa com sede em Londres e fundado pelo xeque Ahmed Zaki Yamani, um ex-ministro do petróleo saudita. Às vezes, ele disse, "é preciso ler nas entrelinhas".

Os altos preços impuseram um custo aos consumidores e tiveram um impacto negativo na economia. Em resposta, o aumento no consumo global de petróleo caiu para 1% em 2006, em comparação ao pico de aumento de 4% em 2004.

Ainda assim, mesmo os produtores de petróleo mais radicais foram prejudicados pelos altos preços do ano passado. O Irã, por exemplo, foi forçado a gastar US$ 3 bilhões para importar gasolina para seu mercado doméstico no ano passado, porque não possui capacidade suficiente de refino; o país agora está considerando racionar a gasolina em uma tentativa desesperada de reduzir o consumo. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que é um dos maiores defensores dos altos preços do petróleo, está enfrentando críticas por causa de seus planos para aumentar os preços domésticos da gasolina pela primeira vez em nove anos.

Estes países têm menos espaço para manobras do que a Arábia Saudita: o orçamento do Irã mal conseguia se equilibrar quando o petróleo estava custando US$ 60 o barril, enquanto a Venezuela precisa de preços de petróleo acima de US$ 75 para equilibrar seu orçamento assim que os pagamentos de sua dívida são incluídos, segundo um estudo da PFC Energy, uma firma de consultoria de energia com sede em Washington.

O governo saudita não revele qual preço do petróleo utiliza quando elabora seu orçamento, mas analistas do Samba Financial Group, um banco na Arábia Saudita, disseram acreditar que o preço é de US$ 42 o barril para 2007, com a produção de petróleo em cerca de 9 milhões de barris por dia. Com o barril de petróleo custando em média US$ 66 no ano passado, o reino registrou um superávit orçamentário de quase US$ 71 bilhões, disse o Samba, cinco vezes mais do que em 2005.

As autoridades sauditas apontam repetidamente que não estabelecem o preço do petróleo nos mercados de commodities internacionais -elas apontam o dedo para os fundos hedge e outros mercadores especulativos pelo aumento da volatilidade nos últimos anos. Também dizem que não dirigem sua indústria do petróleo tendo considerações políticas em mente.

Naimi, o ministro saudita do petróleo, tem liderado a recuperação dos preços desde 2000 e administrou seus vários parceiros da Opep no sentido de uma melhor disciplina dentro do cartel. No ano passado, sob a liderança saudita, os membros da Opep concordaram duas vezes em reduzir sua produção para impedir uma queda muito acentuada dos preços.

"A política saudita não mudou", disse Roger Diwan, um analista de energia da PFC Energy. Os sauditas, ele disse, "têm comandado a administração do mercado. Eles demonstraram liderança na Opep".

Amy Myers Jaffe, a diretora associada do programa de energia da Universidade Rice, disse achar que a política saudita mudou. "Até recentemente", ela disse, "a política saudita era muito agressiva na defesa dos preços".

"O debate na Arábia Saudita é sobre qual é a estratégia certa, para onde segue a demanda e qual é o volume certo de investimentos, que são perguntas bastante difíceis." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,68
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,44
    64.861,92
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host