UOL Notícias Internacional
 

30/01/2007

Casamento diplomático estranho tenta evitar guerra no Líbano

The New York Times
Michael Slackman

em Beirute, Líbano
Em uma colaboração incomum que poderia complicar a política americana na região, Irã e Arábia Saudita estão mediando um acordo para colocar um fim à violenta crise política no Líbano.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Aproximação de Arábia Saudita e Irã para conter a crise no Líbano desagradou os EUA

Os líderes do Hizbollah - o partido apoiado pelo Irã que está tentando derrubar o governo do Líbano - recentemente visitaram o rei saudita em Riad, segundo autoridades que participaram do encontro. E o príncipe Bandar bin Sultan, o conselheiro chefe de segurança saudita, se encontrou com seu par iraniano, Ali Larijani, em Riad e Teerã para tentar impedir o mergulho do Líbano na guerra civil.

"A única esperança é que iranianos e sauditas consigam aliviar a situação e trazer as pessoas de volta à mesa de negociação", disse Radwan Sayyed, um conselheiro do primeiro-ministro Fouad Siniora.

Os esforços sauditas e iranianos deixaram Washington em uma posição incômoda, já que busca reduzir a influência regional do Irã. Mas como um Líbano estável também é uma prioridade dos Estados Unidos, as autoridades americanas têm assistido aos esforços sem interferir.

Há uma crença no Líbano de que se o esforço saudita-iraniano for bem-sucedido, o resultado será de curto prazo. Permanece o temor de que a Síria, que ainda tem influência junto ao Hizbollah e dentro dos serviços de segurança libaneses, trabalhará para pôr a pique qualquer acordo.

Mas o Irã parece estar trabalhando de boa fé. Membros do partido do governo no Líbano disseram que a dinâmica dentro do Irã, onde o presidente agitador Mahmoud Ahmadinejad parece estar perdendo força política, levou os iranianos a se apoiarem no Hizbollah.

Uma dúvida é se o Hizbollah fará o que o Irã deseja ou se ele se curvará aos sírios. O líder do Hizbollah, o xeque Hassan Nasrallah, disse em um discurso na semana passada que um acordo "entre os dois países ou dois governos não obrigará os libaneses, porque os libaneses devem buscar seus próprios interesses e não os interesses da Arábia Saudita e do Irã".

Faz quase três meses desde que o Hizbollah começou a liderar protestos de rua visando derrubar o governo daqui apoiado pelos americanos, com os líderes políticos libaneses fracassando até mesmo em concordar com uma base para as negociações.

Não ocorreram encontros diretos entre os principais líderes políticos por meses. Muitos disseram temer mais derramamento de sangue caso um acordo não seja acertado até 14 de fevereiro, o segundo aniversário do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri.

A coalizão de governo planeja marcar o aniversário com grandes comícios de rua no centro da cidade. Tais manifestantes estariam separados por poucos metros de centenas de manifestantes de oposição, que estão acampados há quase três meses em seu esforço para derrubar o governo.

Os aliados da Síria na oposição criticaram o governo por apoiar a criação de um tribunal internacional para analisar as evidências no assassinato de Hariri e outras mortes políticas. A Síria foi implicada no assassinato por uma investigação da ONU, e um dos aliados da Síria na oposição disse que se o governo recuar em seu apoio ao tribunal, a crise diminuirá.

Mas a luta também é em torno de quem será o próximo presidente, se o Hizbollah será autorizado a manter suas armas, sobre como devem ser modificadas as leis eleitorais do país, se as tropas da ONU permanecerão na fronteira sul com Israel e, principalmente, se o Líbano se inclinará para os Estados Unidos e Europa ou Irã e Síria.

Propostas apresentadas por cada lado como concessões foram rejeitadas pelo outro como insuficientes. "É verdade, aquele que governar decidirá a direção política do Líbano", disse Muhammad Fniesh, um alto membro do Hizbollah que disse ter participado de uma recente reunião com o rei Abdullah da Arábia Saudita.

O Irã e a Arábia Saudita estão envolvidos nos assuntos libaneses há décadas. A Arábia Saudita mantém laços estreitos com a família Hariri e investiu grandes somas de dinheiro na reconstrução de Beirute. Recentemente, à medida que partidos apoiados pelos iranianos assumiram no Iraque e o Irã tenta se estabelecer como uma superpotência regional, a Arábia Saudita começou, a pedido dos americanos, a agir.

Buscando preencher o vácuo deixado pelo Egito, cuja influência regional diminuiu, a Arábia Saudita tem tentado se posicionar como um contraponto árabe ao Irã.

Mas no Líbano, disseram líderes políticos e diplomatas, ambos vêem um interesse comum em acalmar as tensões sectárias, pelo menos por ora. A luta dividiu o país entre a oposição predominantemente muçulmana xiita e a aliança de governo predominantemente muçulmana sunita. A comunidade cristã do Líbano está dividida entre as duas.

A disposição de procurar por uma solução além de Beirute ocorre enquanto diplomatas ocidentais daqui dizem temer a transferência pelos líderes locais de sua responsabilidade para potências estrangeiras. Mesmo os líderes libaneses dizem que as negociações internas não estão indo a lugar nenhum. "Nada está se movendo", disse Ali Hamdan, um conselheiro de Nabih Berri, o presidente do Parlamento e líder do Amal, um partido xiita de oposição. "É como se estivéssemos retrocedendo."

A maioria concorda que se houve qualquer grande movimento para solução - ou desarme - da crise política do Líbano, isto teve mais a ver com a mudança da dinâmica política em outros lugares. "A Arábia Saudita e o Irã estão perto de um acordo", disse Toufic Sultan, um ex-líder do principal partido druso aliado do governo e que tem mantido laços estreitos com as autoridades sauditas.

Já cambaleantes devido ao caos e conflito sectário no Iraque, governos de toda a região estão preocupados que o Líbano, também, esteja à beira de se desfazer segundo as divisões sectárias. George El Khouri Andolfato

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