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30/01/2007

Jovem demais para isso: enfrentando câncer com menos de 40

The New York Times
Amanda Schaffer
Em julho de 2005, Jeff Carenza e sua namorada estavam desfrutando de um fim de semana em Miami quando uma intoxicação alimentar os levou ao hospital. Exames de sangue mostraram que Carenza, na época com 29 anos, tinha anemia por deficiência de ferro. "Provavelmente não é nada", o médico lhe disse. "Mas é melhor checar isto quando chegar em casa."

Este tipo de anemia pode ser causada por sangramento no trato intestinal. Quando voltou para Saint Louis, onde Carenza era residente de radiologia no Barnes Jewish Hospital, seu médico o encaminhou a um gastroenterologista.

Uma possibilidade era de que tivesse um tumor no cólon. Mas o gastroenterologista demonstrou pouca preocupação. "Provavelmente será um desperdício do meu tempo", disse antes de realizar a colonoscopia.

Meia hora depois, Carenza recebeu a má notícia. "Há um grande tumor em seu cólon transverso", disse o gastroenterologista. "É tão grande que nem consegui visualizá-lo inteiro. Ele provavelmente está aí há algum tempo."

Carenza lembrou: "Senti um aperto no estômago e no coração". O diagnóstico, ele acrescentou, "foi contra o que somos treinados a pensar na escola de medicina", que o "câncer só ocorre em pessoas mais velhas".

O câncer é de fato menos comum em adolescentes e jovens adultos do que em pessoas mais velhas. Mas de certa forma é mais alarmante. As taxas de incidência de alguns cânceres, incluindo colo-retal, de tireóide e testicular, estão aumentando entre pessoas com idades de 20 a 39 anos, segundo a Sociedade Americana do Câncer.

Um relatório divulgado em agosto pelo Instituto Nacional do Câncer e pela Fundação Lance Armstrong revelou que apesar da taxa de sobrevivência ao câncer continuar melhorando entre adultos de meia-idade e mais velhos, as taxas de sobrevivência para pessoas com idades entre 15 e 39 anos não aumentaram substancialmente em mais de duas décadas.

O câncer é o quarto maior causador de morte nesta faixa etária, atrás de acidentes, suicídios e homicídios. Em 2006, houve aproximadamente 55.200 novos casos de câncer em americanos com idades entre 15 e 39 anos, e 9.300 óbitos por câncer nesta mesma faixa etária, segundo a Sociedade Americana do Câncer.

"O câncer em adolescentes e jovens adultos apresenta questões distintas", disse uma autora do relatório, Karen Albritton, diretora de oncologia para adolescentes e jovens adultos do Dana-Farber Cancer Institute em Boston. "As lacunas em nosso conhecimento são enormes."

Alguns especialistas dizem que mais informação é necessária antes de dedicar recursos extras aos adolescentes e jovens adultos. Bruce A. Chabner, diretor clínico do Massachusetts General Hospital Cancer Center, notou que as taxas gerais de sobrevivência entre jovens adultos ainda são melhores do que entre os mais velhos, refletindo as diferenças nos tipos de tumor e a melhor tolerância ao tratamento entre os pacientes mais jovens.

Em 2003, o último ano para o qual há estatísticas disponíveis, a taxa de sobrevida de cinco anos foi de 78,5% para pessoas entre 20 e 39 anos, e 68% para pessoas entre 40 e 69 anos, segundo a Sociedade Americana do Câncer.

Mas Albritton e outros dizem que é necessário pesquisar para descobrir por que alguns jovens adultos estão predispostos ao câncer, por que a incidência de alguns cânceres está crescendo nesta faixa etária e como os jovens podem responder de forma diferente a regimes de tratamento -muitos dos quais testados principalmente em adultos mais velhos ou em crianças.

Os tumores dos jovens podem ter características genéticas e biológicas
distintas, disseram os pesquisadores. E os sobreviventes enfrentam questões psicossociais distintas - já que pensam sobre futura fertilidade, conclusão dos estudos ou início de uma carreira.

Carenza disse que olhando para trás, ele devia ter prestado mais atenção aos sinais de alerta. Como corredor ávido, ele estava acostumado a correr entre 8 e 10 km vários dias por semana, mas por meses não conseguia fazê-lo. Ele também ficou notadamente mais pálido.

Mesmo assim, lembrou ele, mesmo sua mãe não se preocupou com o assunto, dizendo: "Ora, ele é um radiologista. Ele trabalha em uma sala escura o dia todo".

David Dietz, o cirurgião coloproctologista do Barnes Jewish Hospital que tratou de Carenza, disse que o câncer em pacientes mais jovens costuma ser diagnosticado em estágios mais avançados porque nem eles e nem seus médicos esperam que eles os tenham. E também não são submetidos a exames rotineiros, como ocorre entre pessoas mais velhas.

Carenza não apresenta histórico de câncer em sua família e testes após o tumor ter sido encontrado foram negativos para todas as síndromes hereditárias de câncer colo-retal conhecidas. (Ele concluiu a quimioterapia em março passado e está em remissão, apesar de visitar um oncologista a cada três meses.)

Ainda assim, é mais provável que fatores genéticos tenham um papel quando pessoas jovens exibem a doença, disse Dietz, acrescentando: "Isto é algo que gostaríamos de saber mais a respeito".

Asha Mevlana, de Los Angeles, tinha histórico de câncer em sua família. Ele descobriu um caroço em seu seio aos 22 anos, mas seu câncer só foi diagnosticado mais de dois anos depois.

Mevlana, que atualmente tem 31 anos, foi submetida cedo a um mamograma, mas os resultados foram inconclusivos, com às vezes acontece em mulheres mais jovens cujo tecido do seio é mais denso.

"Minha médica disse: 'Não se preocupe com isto; você é muito jovem para ter câncer de mama'", ela disse. "Era o que eu, é claro, queria ouvir, então deixei para lá."

Mas à medida que o caroço começou a crescer e doer, a mãe de Mevlana insistiu para que procurasse outro médico e realizasse uma biópsia, que confirmou que ela tinha câncer de mama. "Isto muda sua perspectiva sobre tudo", ela disse. "Você pensa: 'Uau, eu posso estar morta no próximo ano. E há tantas coisas que não fiz."

Mevlana esperava iniciar uma carreira como violinista. E ao considerar opções de tratamento, uma prioridade era evitar drogas que causassem neuropatia, uma insensibilidade e formigamento nas mãos ou pés que é um efeito colateral de algumas drogas de quimioterapia.

As opções eram "totalmente confusas", ela disse. Vários médicos sugeriram regimes diferentes, mas lhe disseram que a maioria deles nunca tinha sido bem estudada em mulheres mais jovens.

Albritton, do Dana-Farber, disse que adolescentes e jovens adultos freqüentemente respondem de forma diferente aos tratamentos e que há uma "disparidade de atenção" a eles na comunidade médica. É preciso que haja "mais testes clínicos e mais provedores treinados especificamente para jovens adultos", ela disse.

Os pesquisadores também dizem que trabalho adicional é necessário para o entendimento do motivo para a incidência de certos cânceres estar crescendo entre os jovens adultos.

Archie Bleyer, um especialista em câncer em adolescentes e jovens adultos da CureSearch National Childhood Cancer Foundation, disse que há uma "peculiaridade" no câncer nesta faixa etária que vai além de questões científicas e clínicas. Não apenas os pacientes jovens enfrentam uma série distinta de cânceres e terapias, mas também enfrentam desafios pessoais que são diferentes dos enfrentados por adultos mais velhos ou crianças.

Os jovens estão entre aqueles que exibem uma maior probabilidade de não contarem com plano de saúde ou um com cobertura insuficiente, ele disse - um motivo para a tendência de suas doenças serem diagnosticadas mais tardiamente. Eles também apresentam maior tendência de se sentirem estigmatizados, já que menos de seus pares experimentaram um câncer.

E também enfrentam imensos desafios de desenvolvimento - entrar na sociedade, ingressar na força de trabalho, contemplar casamento e iniciar uma família - o que pode ser desgastante mesmo sem o fardo da doença. "Uma das maiores dificuldades para se fazer algo medicamente é superar os desafios psicossociais", disse Bleyer.

Um número crescente de grupos de defesa e ajuda foi fundado por jovens adultos - muitos deles por sobreviventes de câncer. O Colon Club, por exemplo, visa aumentar a conscientização sobre o câncer de cólon entre os jovens por meio de projetos como a criação de um calendário anual de sobreviventes. A Young Survival Coalition se concentra na defesa de direitos e na conscientização do câncer de mama entre jovens adultos. E o SAMFund fornece apoio financeiro para jovens sobreviventes conseguirem fazer a transição para a vida pós-tratamento.

Mais de 50 organizações dedicadas a assuntos ligados ao câncer entre jovens adultos estão catalogadas em um novo site na Internet, imtooyoungforthis.org, iniciado pela Steps for Living, uma organização sem fins lucrativos de apoio, direitos e comunicação para jovens adultos com câncer. George El Khouri Andolfato

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