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03/02/2007

Aquecimento global é "inequívoco", diz painel científico

The New York Times
Elisabeth Rosenthal, em Paris e Andrew C. Revkin, em Nova York*
Em uma avaliação sombria e poderosa sobre o futuro do planeta, uma importante rede internacional de cientistas climáticos concluiu pela primeira vez que o aquecimento global é "inequívoco" e que a atividade humana é a principal responsável, "muito provavelmente" causando grande parte do aumento das temperaturas desde 1950.

Eles disseram que o mundo sofre a ameaça de séculos de aumento das temperaturas, elevação dos mares e mudanças nos padrões climáticos - resultados inevitáveis do acúmulo de gases responsáveis pelo efeito estufa na atmosfera.

Mas seu relatório, divulgado aqui na sexta-feira pelo Painel Intergovernamental para Mudança Climática, disse que o aquecimento e suas conseqüências prejudiciais poderiam ser substancialmente reduzidos por uma ação imediata.

Apesar do relatório fornecer pouca evidência nova de um apocalipse climático imediato, e apesar de ter evitado a recomendação de cursos de ação, representantes das agências da ONU que criaram o painel em 1988 disseram que ele falou da necessidade urgente de limitar riscos.

"Em nossa vida diária, nós todos respondemos de forma urgente a riscos que apresentam uma probabilidade bem menor do que a mudança climática de afetar o futuro de nossas crianças", disse Achim Steiner, diretor executivo do Programa Ambiental das Nações Unidas, que administra o painel juntamente com a Organização Meteorológica Mundial.

"O dia 2 de fevereiro será lembrado como a data em que a incerteza foi removida sobre se os seres humanos tinham algo a ver com a mudança climática neste planeta", ele prosseguiu. "A evidência está na mesa."

O relatório é o quarto levantamento do painel desde 1990 das causas e conseqüências da mudança climática, mas é o primeiro no qual o grupo afirma com quase certeza -mais de 90% de confiança- que o dióxido de carbono e outros gases responsáveis pelo efeito estufa, emitidos pelas atividades humanas, são as principais causas do aquecimento no último meio século.

Em seu último relatório, em 2001, o painel, que consiste de centenas de cientistas e revisores, disse que o grau de confiança para suas projeções era "provável", ou entre 66% a 90%. Tal grau agora subiu para "muito provável", mais de 90%. Ambos os relatórios estão disponíveis online em www.ipcc.ch.

O governo Bush, que até recentemente evitou aceitar diretamente que os seres humanos estavam aquecendo o planeta de forma potencialmente prejudicial, aceitou os resultados, que foram aprovados por representantes dos Estados Unidos e de 112 outros países na noite de quinta-feira.

Funcionários do governo afirmaram na sexta-feira que os Estados Unidos tiveram um papel importante no estudo e combate à mudança climática, em parte com um investimento médio anual de quase US$ 5 bilhões nos últimos seis anos em pesquisa e incentivos fiscais para novas tecnologias.

Ao mesmo tempo, Samuel Bodman, o secretário de Energia, rejeitou a idéia de limitações unilaterais às emissões. "Nossa contribuição é pequena no geral, quando se olha para o restante do mundo, de forma que é preciso que haja uma solução global", ele disse.

Os Estados Unidos, com cerca de 5% da população do mundo, contribui com cerca de um quarto da emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa, mais do que qualquer outro país.

O novo relatório diz que o clima global provavelmente esquentará entre 2 a 5º C se as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera atingirem o dobro dos níveis de 1750, antes da Revolução Industrial.

Muitos especialistas em energia e meio ambiente consideram que tal duplicação ou mais é algo que certamente em algum ponto após 2050 a menos que haja uma mudança imediata e sustentada do padrão do século 20 de queima descontrolada de carvão e petróleo, as principais fontes de dióxido de carbono, e uma expansão agressiva de fontes não poluentes de energia.

E o relatório diz que já uma chance acima de 1 em 10 de aquecimento muito maior, um risco que muitos especialistas dizem ser alto demais para ser ignorado.

Mesmo um aquecimento que chegue à metade da faixa de projeção do grupo provavelmente causaria um estresse significativo nos ecossistemas, segundo muitos especialistas em clima e biólogos. E alteraria antigos padrões climáticos que determinam a oferta de água e a produção agrícola.

Além disso, o aquecimento está provocando um aumento do nível global dos mares, disse o relatório. Ele prevê um aumento de 17 a 59 cm até 2100 e conclui que os mares continuarão subindo por pelo menos os próximos 1.000 anos. Em comparação, o nível dos mares subiu cerca de 15 a 23 cm no século 20.

As conclusões ocorreram após uma revisão de três anos de centenas de estudos de antigas mudanças climáticas; observações de recuo do gelo, aquecimento e elevação dos mares e outras mudanças por todo o planeta; e uma suíte altamente expandida de simulações por supercomputadores, usadas para testar como o planeta responderia a um volume crescente de gases que retém o calor na atmosfera.

A seção divulgada na sexta-feira foi um resumo de 20 páginas para autores de políticas, que foi aprovada no início da manhã pelas equipes de representantes de mais de 100 países após três dias e noites de disputa em torno dos termos pelos principais autores, todos cientistas.

Ele descreve ramificações extensas tanto para os seres humanos quanto para a natureza. "É muito provável que calores extremos, ondas de calor e precipitações pesadas continuem a se tornar mais freqüentes", disse o resumo.

De forma geral, disseram os cientistas, mais precipitação cairá em latitudes maiores, que também verão períodos de cultivo prolongados. As regiões subtropicais semi-áridas, já atormentadas cronicamente pela seca, poderão sofrer uma redução de mais 20% nas chuvas segundo a previsão intermediária do painel para aumento dos gases do efeito estufa.

O resumo acrescentou uma nova conseqüência química do aumento da concentração de dióxido de carbono na lista dos efeitos, principalmente climáticos e biológicos, previstos em seus relatórios anteriores: uma queda no pH da água do mar, à medida que os oceanos absorvem bilhões de toneladas de dióxido de carbono, que forma ácido carbônico quando parcialmente dissolvido. O oceano permaneceria alcalino, mas biólogos marinhos disseram que tal mudança na direção da acidez poderá ameaçar algumas espécies de corais e plâncton.

O relatório basicamente conclui um esforço de meio século para determinar se os seres humanos, por meio do acumulo de dióxido de carbono e outros gases emitidos principalmente pela queima de combustíveis e florestas, poderiam influenciar o sistema climático do planeta de forma potencialmente crítica.

O grupo opera sob a égide da ONU e foi criado em 1988 - um ano de calor recorde, queima de florestas e as primeiras grandes manchetes sobre aquecimento global - para fornecer revisões regulares de ciência climática para os governos para determinar as políticas.

Autoridades governamentais estão envolvidas na elaboração do resumo de cada relatório, mas os cientistas autores, que não são remunerados, têm a palavra final sobre as milhares de páginas em quatro relatórios técnicos por trás dele, que serão concluídos e publicados mais adiante neste ano.

Persistem grandes perguntas sobre a velocidade e extensão de algumas mudanças iminentes, tanto por causa da incerteza sobre a população futura e tendências de poluição quanto sobre a inter-relação complexa dos gases responsáveis pelo efeito estufa, nuvens, poluição por partículas, os oceanos e superfície viva do planeta, que emite e absorve dióxido de carbono e outros gases.

Mas um grande número de cientistas, incluindo os autores do relatório e especialistas independentes, disse que a mais recente análise foi a visão mais grave realizada em um século de transição - após milhares de anos de condições climáticas relativamente estáveis - para uma nova norma de mudança contínua.

Caso os gases do efeito estufa continuem se acumulando na atmosfera mesmo em um ritmo moderado, as temperaturas médias ao final do século poderão se igualar às vistas pela última vez há 125 mil anos, o período quente anterior entre as eras glaciais, disse o relatório.

Naquela época, disse o painel, o nível dos mares era 3,5 a 6 cm maior do que o atual. Grande parte da água adicional atualmente está presa nas camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida, que estão se desfazendo em alguns lugares.

O painel disse que não há um entendimento científico sólido de quão rapidamente derreterão vastos depósitos de gelo nas regiões polares, de forma que suas estimativas sobre os níveis dos mares se baseiam principalmente em quanto os oceanos mais quentes se expandirão, e não na contribuição do derretimento do gelo atualmente em terra.

Outros cientistas informaram recentemente evidências de que as geleiras e camadas de gelo no Ártico e na Antártida poderão fluir mais rapidamente para o mar do que o estimado no passado, e propuseram que os riscos para as áreas costeiras pode ser muito mais iminente. Mas o painel de mudança climática está proibido por sua carta a entrar em especulação, de forma que não pôde incluir tais possíveis instabilidades em seu levantamento.

Michel Jarraud, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial da ONU, disse que a falta de clareza não deve oferecer conforto para ninguém. "A velocidade com que as camadas de gelo derretidas estão elevando o nível dos mares é incerta, mas o relatório deixa claro que o nível dos mares inevitavelmente subirá nos próximos séculos", ele disse. "É uma questão de quando e quanto, não se."

O aquecimento e outras mudanças climáticas serão altamente variáveis ao redor do mundo, com o Ártico em particular enfrentando temperaturas muito maiores, disse a dra. Susan Solomon, a co-líder da equipe que redigiu o sumário e a seção de ciência básica do relatório do painel. Ela é uma cientista atmosférica da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica.

As vulnerabilidades dependerão muito de onde você estiver, disse Solomon em uma entrevista por telefone. "Se você vive em partes dos trópicos que estão ficando mais secas e você é um produtor rural, há algumas questões sérias associadas a mudanças mesmo que pequenas nas precipitações - as mudanças que já estamos vendo são significativas", ela disse. "Se você é um inuit e já está vendo um recuo do gelo, isto afeta seu estilo de vida e cultura."

*Felicity Barringer em Washington, contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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