UOL Notícias Internacional
 

05/02/2007

Uma visão no deserto

The New York Times
Nicolai Ouroussoff


The New York Times
Há 50 anos esta faixa modesta da costa do Golfo Pérsico era uma localidade sonolenta composta de cabanas feitas de folhas de palmeiras e de acampamentos de beduínos. A maioria dos poucos milhares de habitantes sobrevivia praticando a pesca e a coleta de pérolas. O petróleo mudou toda a situação, e a partir da década de 1960 Abu Dhabi se transformou em uma capital moderna repleta de hotéis e de altos edifícios, concretizando o sonho econômico do ambicioso ex-líder dos Emirados Árabes Unidos, xeque Zayed bin Sultan al-Nahayan.

Atualmente a cidade está prestes a dar um outro salto audacioso: no decorrer da próxima década se transformar em um dos maiores centros culturais do Oriente Médio. A herdeira, de certa forma, de cidades cosmopolistas antigas como Beirute, Cairo e Bagdá.

Esta recente Xanadu, conforme foi exibida em uma cintilante exposição multimilionária no saguão do opulento Hotel Emirates Palace, contará com quatro museus, um centro de artes cênicas e musicais e 19 pavilhões de arte projetados por arquitetos célebres como Frank Gehry, Zaha Hadid e Jean Nouvel. O projeto poderá incluir luminares culturais do Ocidente, como o Guggenheim, o Louvre e a Universidade Yale.

Para as autoridades de Abu Dhabi encarregadas dos setores de turismo e de desenvolvimento, projetar um complexo que consistiria de um misto de marinas e de balneários parecia ser algo bastante simples. Mas quando entrou em cena o plano-mestre cultural, a agência decidiu chamar Thomas Krens, diretor da Fundação Solomon R. Guggenheim, conhecido pela sua campanha para abrir uma dúzia de filiais do Guggenheim em locais como Cingapura, São Petersburgo, na Rússia e Rio de Janeiro, no Brasil (poucas das quais foram de fato construídas).

Ele começou criando um grupo composto de talentos famosos da arquitetura.

Gehry foi convocado para reproduzir o seu sucesso em Bilbao, na Espanha. A Nouvel foi oferecido um museu "clássico" que poderia ser o local de exposições de obras do Louvre. A Hadid coube um centro de artes dramáticas e a Tadao Ando um museu marítimo (cada uma dessas construções deverá custar centenas de milhões de dólares).

Tendo em vista as dificuldades com as quais os muçulmanos têm se deparado ao viajar para os Estados Unidos e a Europa e fazer negócios nessas regiões depois do 11 de setembro de 2001, o projeto poderá também se constituir em uma tentativa de recriar a experiência do Ocidente em uma zona segura para os árabes, uma espécie de mini-Suíça do Oriente Médio.

Dentre os arquitetos convocados até o momento, Nouvel, em particular, passou a sua carreira explorando a interseção entre as complexidades das culturas locais e o modernismo ocidental. Para o seu Instituto do Mundo Árabe, em Paris, de 1987, ele desenhou uma fachada em forma de grade como se fosse um olho mecânico que abre e fecha como a lente de uma câmera, lenbrando um mashrabiya, ou janela de treliça, árabe. O seu anárquico Museu de Quai Branly, que foi inaugurado em Paris no verão passado, lembra a violenta colisão entre as formas modernas e as tribais.

Para Abu Dhabi, Nouvel concebeu o seu museu clássico como um labirinto aquático de prédios, praças, ruas e canais, que lembra uma pequena cidade flutuando no mar. Uma cúpula rasa em forma de laço com quase 200 metros de diâmetro paira sobre o complexo, protegendo-o do calor e proporcionando um padrão luminoso suave que se espalha pelos espaços a céu aberto.

A cúpula lembra as mesquitas tradicionais e talvez a enorme cúpula geodésica que Buckminster Fuller certa vez propôs que se construísse em Lower Manhattan, um invólucro delicado destinado a abrigar a rica mistura cultural abaixo. É como se Nouvel tivesse planejado uma Veneza contemporânea, uma expressão notável da mágica criativa que pode surgir quando Oriente e Ocidente colidem.

Embora a companhia de desenvolvimento do grande projeto tenha abordado várias instituições artísticas no sentido de discutir o empréstimo de obras de artes, e sobremaneira o Louvre, em Paris, a sua missão ainda é relativamente vaga. Para atender a necessidade de flexibilidade, o complexo foi concebido como uma série de galerias interconectadas cuja sequência pode ser facilmente reconfigurada segundo a escala e a natureza de uma exposição.
Nouvel também vislumbrou a arte se espalhando pelas ruas e praças, de esculturas a mosaicos.

O Guggenheim de Gehry, planejado para um local a ser escolhido no topo da ilha, também foi concebido como uma série de galerias casualmente dispostas em volta de quadras ao ar livre, um pouco no estilo de uma feira árabe. Mas as similaridades entre os dois museus terminam aí. Ao passarem pelo átrio de vidro, os visitantes entrarão em uma quadra encoberta por uma enorme torre cônica. Uma série de galerias convencionais ficará disposta sem nenhum padrão geométrico rígido pela quadra. Duas grandes galerias que lembram depósitos se abrem dali para fora, intercaladas por vários espaços de exposição cônicos que são inclinados nas laterais e rodeados por paisagens.

A mistura de galerias convencionais com outras de formato estranho remete ao projeto do Guggenheim de Bilbao. Mas assim como todos os melhores trabalhos de Gehry, o desenho obtém a inspiração do seu contexto imediato. As galerias de forma cônica, que segundo ele são derivadas das tradiconais torres de vento islâmicas, captarão o ar em movimento ascendente para os espaços interiores, refrescando-os no calor do verão. As suas formas curvas, que poderiam ter sido inspiradas em alabastros ou em uma construção de alta tecnologia, lembram vagamente as tendas tradicionais dos beduínos.

Nouvel e Ghery buscaram engenhosamente as tradições arquitetônicas locais sem se inclinarem para as interpretações superficiais de estilos históricos.

Os seus desenhos reconhecem intrinsecamente que o fluxo cultural entre Oriente e Ocidente nem sempre foi unilateral. Se eles transpiram nostalgia, isso se deve a uma crença no futuro.

O desenho de Hadid para o centro de artes dramáticas é derivado da natureza complexa do local, e não de uma exploração da memória cultural. O seu edifício marcará o principal eixo cultural do distrito, que vai do local do futuro museu nacional até à beira-mar, e proporcionará uma ampla vista dos edifícios existentes em Abu Dhabi.

Destacando-se agressivamente sobre a beira d'água, a forma cintilante da estrutura faz lembrar uma serpente gigantesca, com a cauda apontando para o museu nacional. Hadid descreve o complexo como sendo um sistema de ramos entrelaçados com quatro salas de concerto encerradas no seu bojo, como se fosse uma fruta suculenta.

A parte inferior do salão principal é alçada no ar, tendo uma via aquática debaixo de si. Na interseção desta via com o eixo principal, uma grande praça pública é coroada por um átrio imponente, que consiste em um potente contraste com os salões casulosos.

Dos quatro desenhos apresentados até o momento, o de Ando, de um museu marítimo, parece ser o mais fraco. Um bloco de pedra estilizado que se destaca em meio a um enorme espelho d'água, com a sua forma de arco e interiores cavernosos fazendo lembrar uma aparição dos anos setenta. E as propostas para os pavilhões de bienais, desenhados por um vasto grupo de talentos mais jovens no último mês, são uma mistura que varia do inspirado ao tosco.

Mas de forma geral é encorajador ver arquitetos ocidentais engajados na busca de um equilíbrio entre a força bruta da cultura global - o seu apagamento brutal das diferenças, a sua indiferença darwiniana pelos pobres - e a fragilidade das tradições locais.

Meio século atrás as formas modernas exportadas pelos arquitetos norte-americanos e europeus eram em sua maioria expressões uniformes do triunfo da modernidade ocidental. Atualmente, os profissionais mais sérios desejam reconhecer que as culturas estão sempre evoluindo, estando sujeitas a novas interpretações.

A questão é saber se o ímpeto criativo dos desenhos individuais pode ser mantido no cenário cultural genérico. Embora ainda esteja nos estágios iniciais, o plano-mestre é um desapontamento. Ele representa pouco mais que um modelo ultrapassado de fórmulas de planejamento do século 19 - um esquema axial de belas-artes com hotéis, marinas e monumentos culturais espalhados pelas bordas. O canal sinuoso, que foi obviamente acrescentado posteriormente, é uma tentativa débil de suavizar a rigidez geométrica do desenho inicial.

Mas para os planejadores culturais de Abu Dhabi o principal desafio consiste em examinar profundamente o papel global das artes. O mundo mudou radicalmente desde a inauguração do Guggenheim de Bilbao dez anos atrás. Os velhos modelos cosmopolitas - o modernismo avant-garde da Beirute de meados do século passado, o entrelaçamento de elementos muçulmanos, judaicos e cristãos em Bagdá ou em Basra, no Iraque - foram desfeitos. Outrora consideradas as grandes sinteses da experiência humana, essas cidades ou estão esfaceladas pelos conflitos internos ou, como as suas congêneres ocidentais, correm o risco de se transformar em parques temáticos assépticos.

Cada vez mais, os grandes projetos culturais de grandes dimensões são usados para promover essa transformação. No seu aspecto mais cínico, eles conjuram a função da arquitetura como ferramenta de propaganda ocidental durante a Guerra Fria, as feiras comerciais e as exposições repletas de símbolos da afluência suburbana.

Essa questão ressoa especialmente no Oriente Médio, onde a escolha básica é às vezes apresentada como se abraçasse uma variedade estéril de modernidade ou deslizasse de volta ao passado rumo à Idade Média.

Nesse contexto, os dois elementos mais promissores do plano de Abu Dhabi podem ser os menos desenvolvidos - o museu nacional e a escola de artes -, já que ambos têm o potencial para atraírem uma nova geração de árabes para uma conversação cultural complexa.

Quanto ao Guggenheim, o Louvre e outras instituições ocidentais envolvidas no projeto, elas precisam demonstrar que levam a sério um tipo mais profundo de compromisso cultural. Como início, elas poderiam instituir conselhos permanentes de curadores aqui para planejarem programações ambiciosas em vez de tomarem emprestado obras menores de mestres renascentistas ou Rauchembergs e Tauers de segunda linha. Idealmente, esses cargos nos museus serão um dia ocupados por profissionais árabes graduados e treinados.

Caso contrário, estaremos simplesmente empurrando vistosos bens culturais - e reforçando as divisões culturais que afirmamos estar destruindo. George El Khouri Andolfato

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