UOL Notícias Internacional
 

06/02/2007

Em Miami, arte sem ansiedade

The New York Times
Alex Williams

em Miami
Do quintal da propriedade de Gloria Estefan na privada Star Island, grande parte das imagens que transformam a cidade de Miami no estado de espírito de Miami se encontram à plena vista: a silhueta art déco de Miami Beach, as torres reluzentes, a ponte MacArthur, como teia de aranha, que cruza quase 1 km das águas de Biscayne Bay.

Em uma recente sexta-feira, outra visão local familiar se estabeleceu diante do sofá de vime no terraço de Gloria Estefan: Romero Britto, um artista pop nascido no Brasil cujas obras parecem tão onipresentes no sul da Flórida como hotéis em tons pastel e (drinques) mojitos de US$ 15. "Todo mundo conhece Romero", disse Estefan, uma amiga dele.

Alex Quesada/The New York Times 
A pintura pop do brasileiro Romero Britto conquistou Miami, mas ainda divide opiniões

Durante a transmissão internacional do show pré-jogo do Super Bowl (a final do futebol americano) no domingo (4/2), 140 milhões de pessoas se familiarizaram com sua arte quando os artistas do Cirque du Soleil realizarem rotinas acrobáticas dentro de um cenário móvel de obras de arte tridimensionais como palmeiras - basicamente, uma tela viva de Britto do tamanho de um campo de futebol.

Apesar de o cubismo cartunesco ser desdenhado por alguns críticos como um produto comercial, Britto, 43 anos, exibe uma inocência otimista, quase infantil. O aparelho metálico brilha em seus dentes, e ele se veste em cores caleidoscópicas. Isto ajudou a torná-lo uma espécie de mascote dos cidadãos de Miami, um reflexo da cidade como ela gosta de ver a si mesma: ensolarada, receptiva e irrepreensivelmente otimista.

Personificando uma espécie de história de sucesso do imigrante que repercute profundamente entre muitos moradores de Miami, Britto elevou sua arte e personalidades de alta voltagem da venda de obras pintadas em jornal (ele não tinha dinheiro para comprar telas) na rua a um império de pop art de quase US$ 12 milhões por ano. Ele é amigo de socialites e astros de TV, vende para colecionadores proeminentes e percorre os bulevares em uma Ferrari conversível amarela saída diretamente de "Miami Vice".

"No final do dia, as pessoas não querem pendurar na sua sala uma obra de arte horrível", disse Britto, explicando seu sucesso. "Eu faço imagens que inspiram as pessoas, não que as assustem ou deprimam."

Não é por acaso que, no sul da Flórida, sua arte que faz se sentir bem é quase tão difícil de evitar quanto a umidade. Seus gatinhos, corações, flores e rostos sorridentes minimalistas, pendentes - desenhados em cores tão saturadas que parecem brilhantes mesmo com óculos escuros - se destacam em esculturas gigantes em estações de trem, prédios corporativos, condomínios residenciais e em pinturas em casas como a de Gloria Estefan e David Caruso. Elas estão presentes até mesmo nos murais que cercam os transportes no aeroporto de Fort Lauderdale.

No ano passado, quando o governador Jeb Bush, cuja esposa, Columba, é amiga de Britto, desejou presentear o primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, com um símbolo do espírito animado da Flórida, ele lhe deu uma pintura original de Britto.

Britto também tem Andre Agassi, Elton John, Arnold Schwarzenegger, Whitney Houston, Michael Jordan, Pat Riley e Bill Clinton entre as pessoas que possuem suas obras. "Muitas pessoas que vivem aqui são das ilhas -d e Cuba, Haiti", disse Gloria Estefan. "As pessoas são muito vibrantes e a cor é algo importante aqui. Você é inspirado diariamente pelo sol, pelo céu, pela paisagem, pela exuberância. Suas pinturas e obras refletem isto."

Elas também parecem refletir algo mais profundo: uma tendência dos moradores locais de ver esta cidade de contrastes profundos (raciais, econômicos) como uma terra da oportunidade onde latino-americanos do Sul e pessoas vindas dos locais frios do Norte são bem-vindos a participar de uma versão embalada em salsa do sonho americano.

Em sua arte, Britto evita cuidadosamente muitos temas básicos da arte contemporânea: desordem, tensão, sensualidade (supostamente as coisas que tornam a própria Miami fascinante para forasteiros). Em seu lugar, a obra virtualmente explode em calor, otimismo e amor - Matisse canalizando Picasso via Hello Kitty.

"Eu amo o trabalho de Romero há muitos anos", disse o senador Edward M.
Kennedy por um e-mail. Alina Shriver, a esposa de Anthony Shriver, o sobrinho de Kennedy, dirige as operações de licenciamento da galeria do artista, Britto Central, em Miami Beach. "Como pintor amador, eu admiro seu uso dramático das cores e suas imagens ousadas. Ele é um artista talentoso e um amigo especial da família Kennedy", disse o senador.

Britto também conquistou o respeito de alguns colecionadores proeminentes de arte incluindo Norman Braman, um revendedor de automóveis e ex-proprietário dos Philadelphia Eagles, e sua esposa, Irma. "Ele é como Calder foi, ou como Miró foi, com o calor das cores", disse Irma Braman.

Mas alguns críticos dão menos apoio. "Eu considero a obra de Romero Britto uma versão comercial, ostentosa e requentada da pop art", disse Elisa Turner, uma crítica que escreve para o "The Miami Herald" e para o "ArtNews", por um e-mail.

Paula Harper, uma professora associada de arte da Universidade de Miami e colaboradora da revista "Art in America", disse que Britto incorpora elementos da pop art e do cubismo em seu trabalho, mas não é um artista da estatura de Keith Haring. Ela "parece arte; contém referências de arte", ela disse, mas "ele é na verdade um brilhante designer comercial, em minha opinião".

Britto lista 12 museus que compraram seus trabalhos, incluindo os da Universidade Internacional da Flórida e da Tufts. Mas talvez o impacto de um artista pop seja medido em metros quadrados. E ao redor de Dade County, a obra de Britto está em toda parte.

Certa tarde no mês passado, ele passou com seu Bentley Arnage preto (um dos quatro carros que possui) pelo hotel Royal Palm na Collins Avenue, em Miami Beach, onde se encontra o Britto, um restaurante de luxo de propriedade de um amigo e repleto de seus trabalhos.

Na ponte, o carro passou por uma grande escultura de Britto de crianças dançando em frente ao Miami Children's Museum, e então, poucos quilômetros depois, por uma escultura gigante de uma mulher correndo em um condomínio residencial, pairando sobre a Interestadual 95. Os usuários do sistema metroviário de Miami, perto da estação Dadeland North, passam por seu "Bem-Vindo" de quase 14 metros.

"Nós precisamos de mais imagens e notícias que sejam boas, que nos façam acordar de manhã e fazer algo bom para nós mesmos e outras pessoas", ele explicou.

Muitos fãs concordam. Seu estúdio no centro atua como uma fábrica de arte com assistentes trabalhando em turnos, uma dúzia de cada vez, para preencher as múltiplas camadas de cor de seus desenhos em preto e branco.

O preço de pinturas originais de Britto varia de US$ 18 mil a mais de US$ 280 mil. Mouse pads, gravatas, casquetes e obras de arte de Britto estão disponíveis na galeria e online, reproduções e pequenas esculturas são vendidas em estandes em 80 navios de cruzeiro, e ele licenciou suas imagens para a Movado, Swatch, Nicole Miller, Pepsi e Disney.

A escala do empreendimento levou a uma renda que parece desconcertante para algumas pessoas do mundo da arte em Miami. Ao ser informada que ele ganha US$ 12 milhões por ano, Bernice Steinbaum, que dirige uma galeria em Miami há 31 anos, respondeu: "Eu acho que vou me suicidar".

Britto disse não prestar atenção naqueles que têm ciúme de seu sucesso ou criticam seu trabalho. "Eu realmente não me importo com o que um pequeno grupo de pessoas tem a dizer, eu apenas continuo pintando", disse. "Eu não me comparo a estes gênios, mas os pioneiros da aviação, pessoas que estavam tentando fazer algo voar, as pessoas diziam que eram loucos."

As paredes amarelas de sua casa de seis quartos ao estilo mediterrâneo francês no bairro de Pinecrest de South Miami - onde ele vive com sua esposa, Cheryl, e filho, Brendan, 18 anos - estão cheias de obras de seus heróis da arte, Picasso, Warhol e Rauschenberg. "Eu me sinto confortável com coisas boas", disse com uma risada de menino.

Criado no Recife, Brasil, um dos nove filhos de uma mãe solteira, Britto mal conheceu seu pai, um policial, que deixou a família quando ele ainda era pequeno. Após não se dar bem em um curso de Direito no Brasil, ele se mudou para Miami em 1987 para fazer uma carreira em arte, apesar de não ter um treinamento formal.

O reconhecimento nacional ocorreu inesperadamente em 1989, quando Michel Roux, o importador da vodca Absolut, o contratou para criar uma ilustração para uma campanha nacional impressa. Britto, que está profundamente envolvido com caridades locais, conheceu famílias poderosas como os Kennedys, que se tornaram seus primeiros defensores.

Mas apesar dos contatos sociais terem provado ser estrategicamente úteis, os amigos insistem que Britto não carrega nenhuma mancha de oportunismo. "O atrativo do artista é o atrativo do homem", disse Breman, a colecionadora, que lembra dele ensinando seus netos a pintar em seu estúdio.

Sanford e Dolores Ziff, filantropos locais cujos nomes adornam a nova casa de ópera e balé no centro (Sanford Ziff, um optometrista, fundou a Sunglass Hut), são amigos íntimos que às vezes se vêem disputando a atenção do implacavelmente social Britto.

"Eu estava em um jantar na noite passada", disse Dolores Ziff, falando de sua cobertura em Miami Beach repleta de obras de Matisse, Lichtenstein e Britto. "Uma mulher me disse, 'eu sou a maior amiga de Romero Britto'. Eu disse: 'Não, eu sou a maior amiga de Romero Britto'."

Outro amigo, o ator David Caruso, insiste que Britto deve ser considerado primeiro um artista sério, depois uma personalidade. "Há um ônus imposto sobre muitos artistas para irem a locais mais badalados, falsos, mais sombrios em suas obras para fazerem uma declaração, quando na verdade Romero está explorando o outro lado de tal expressão - a felicidade da vida", disse Caruso, que é dono de 12 pinturas de Britto e fez deste padrinho de seu filho de 16 meses, Marquez.

Britto, em um café na Lincoln Road, resumiu sua carreira mais sucintamente. "Ajuda muito", ele disse, "se você gosta das pessoas e as pessoas gostam de você". George El Khouri Andolfato

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