UOL Notícias Internacional
 

06/02/2007

Em mudança de posição, sauditas buscam se opor ao Irã na região

The New York Times
Michael Slackman, em Jidda

e Hassan M. Fattah, em Riad*
Com a perspectiva de três guerras civis pairando no Oriente Médio - e o Irã posicionado a ganhar com todas elas - a Arábia Saudita abandonou sua diplomacia de telão de cheque nos bastidores e assumiu um papel agressivo, central, na moldagem dos conflitos da região.

Nesta terça-feira (6/2), o reino receberá em Meca os líderes do Hamas e do Fatah, as duas facções palestinas em disputa, no que ambos os lados dizem que poderá levar a um governo de unidade nacional e reduzir o derramamento de sangue. No ano passado, autoridades sauditas se encontraram secretamente com líderes israelenses sobre como estabelecer um Estado palestino.

Nos últimos meses, a Arábia Saudita também aumentou seu envolvimento público no Iraque e seu apoio ao governo liderado pelos sunitas no Líbano. O processo está ganhando a forma de uma contra-ofensiva aos esforços do Irã para se estabelecer como uma superpotência regional, segundo diplomatas, analistas e autoridades daqui e de toda a região. Alguns até mesmo dizem que o recente compromisso saudita de influenciar o preço do petróleo visa minar a economia do Irã, apesar das autoridades daqui negarem isso.

"Nós percebemos que temos que acordar", disse um alto diplomata saudita que falou sob a condição de anonimato por não estar autorizado a falar com a imprensa. "Alguém tocou o sino, 'Tenha cuidado, algo está se movendo'."

A mudança ocorre com o encorajamento do governo Bush. Sua meta é ver uma aliança dos Estados árabes sunitas apoiada pelos americanos incluindo a Arábia Saudita, Jordânia, Líbano e Egito, juntamente com uma Palestina liderada pelo Fatah e Israel, em oposição ao Irã, Síria e os grupos radicais que apóiam.

Mas as metas de Riad nem sempre se alinham com as da Casa Branca, e poderiam complicar os interesses americanos.

O esforço saudita está sendo realizado com a colaboração de seus aliados tradicionais no Golfo Pérsico e o Egito e a Jordânia, mas também representa outra mudança significativa por que passa a região. As mudanças estão ligadas à queda de Saddam Hussein e à transferência de poder dos muçulmanos sunitas para os xiitas no Iraque, disseram analistas. Elas também refletem os muitos anos de declínio gradual da influência do Cairo e o colapso da agenda pan-árabe, disseram analistas e diplomatas.

"Os sauditas sentiram que o papel iraniano na região se tornou influente, especialmente no Iraque, Palestina e Líbano", disse Muhammad al Sakr, chefe do comitê de relações exteriores do Parlamento do Kuwait. "Os sauditas geralmente preferem agir nos bastidores", ele disse. "Ultimamente eles estão notadamente ativos."

A Arábia Saudita já tomou iniciativas públicas no passado, incluindo uma em 2002, quando em um encontro da Liga Árabe ela propôs um acordo de paz regional com Israel em troca do recuo israelense para suas fronteiras de 1967. Mas ela prefere trabalhar discretamente e até recentemente não assumia uma posição pública.

"Esta não é uma liderança por escolha, é uma liderança por necessidade", disse Gamal Abdel Gawad, um especialista do Centro Ahram para Estudos Políticos e Estratégicos, no Cairo. "Há um vácuo de liderança na região e se eles não o ocuparem, o Irã irá."

Os Estados Unidos, que estão pressionando os sauditas a assumirem este papel, estão alarmados com a crescente influência iraniana no Iraque e no Líbano, e com o governo palestino do Hamas.

Mas os dois países, apesar de compartilharem metas comuns, têm posições diferentes sobre as partes envolvidas em cada conflito. Por exemplo, enquanto o governo Bush vê o conflito no Iraque como um entre aliados e terroristas, os sauditas tendem a vê-lo como sunitas contra xiitas - e são pró-sunitas, enquanto os americanos apóiam o governo liderado pelos xiitas. E enquanto a Arábia Saudita deseja afastar o Hamas da influência do Irã e atraí-lo de volta ao meio árabe, os Estados Unidos consideram o Hamas uma organização terrorista.

Todavia, tanto Washington quanto Riad acreditam que uma forma importante de bloquear o Irã e acalmar os focos de tensão na região é resolver o conflito entre israelenses e palestinos - ou pelo menos passar a impressão de que estão tentando.

Na superfície, o esforço da Arábia Saudita para se estabelecer como um contraponto para Teerã é uma disputa entre as principais seitas do Islã: xiitas, liderados pelo Irã, e sunitas, liderados por Riad. O Irã, que é persa e não árabe, é o único Estado liderado por religiosos xiitas. A Arábia Saudita é o berço do Islã, e seu rei extrai legitimidade como Servidor das Duas Mesquitas Sagradas, em Meca e Medina.

O reino é acusado de fomentar as tensões sectárias como forma de minar o apoio popular ao Irã e seus delegados, como o Hizbollah - um acusação que as autoridades daqui negam mas para a qual há alguma evidência.

Em uma entrevista em 27 de janeiro que apareceu no jornal saudita "Al Seyassa", foi perguntado ao rei Abdullah sobre os rumores de que os xiitas estavam tentando converter os sunitas. As autoridades iranianas negaram tais relatos como uma campanha de desinformação visando incitar tensões sectárias.

"Nós estamos acompanhando este assunto e estamos cientes do proselitismo xiita e a que ponto chegou", o rei foi citado como tendo dito. "Esta maioria não abandonará suas crenças. No final do dia, é a decisão da maioria dos muçulmanos que conta. Outros credos não parecem capazes de se infiltrar na maioria sunita ou minar sua autoridade histórica."

Tons sectários à parte, a batalha também gira em torno de poder político, interesses nacionais e a preservação do status quo. Riad e seus aliados vêem uma ameaça ao seu próprio poder e segurança na ascensão do Irã e do xiismo. Eles expressam temor diante da insistência do Irã em prosseguir com seu programa nuclear e ansiedade diante da ascensão da popularidade do Hizbollah, a milícia xiita no Líbano.

*Mona el Naggar, no Cairo, Egito, e Helena Cooper, em Washington, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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