UOL Notícias Internacional
 

06/02/2007

Nas praias do Rio, uma combinação de classes sem mistura

The New York Times
Larry Rohter

No Rio de Janeiro
Os brasileiros gostam de dizer que a praia é o "espaço mais democrático" de seu país. Mas alguns corpos - e algumas praias - são mais iguais que outros.

Na imaginação brasileira, a praia é tradicionalmente considerada a grande niveladora, "o local onde o general, o professor, o político, o milionário e o estudante pobre" são todos iguais, disse Roberto da Matta, um antropólogo e colunista de jornal que é um importante comentarista social. "Seus corpos se tornam todos igualmente humildes", ele disse, pela proximidade quase nua de "um corpo aos outros, todos sem defesa ou disfarce".

Andre Vieira/The New York Times 
Mesmo as praias mais de elite do Rio de Janeiro são subdivididas informalmente em setores

Mas aqui na cidade cartão postal do Brasil, onde a temporada de férias de verão está em pleno andamento, a hierarquia, na qual tanto classe e cor de pele influem, é clara para todos. As praias diante do oceano nos bairros de elite do sul, assim como aqueles que as freqüentam, estão em posição superior àquelas do lado norte, diante da poluída Baía de Guanabara.

No Rio, 59 praias se espalham ao longo de 177 quilômetros de areia. Mesmo as praias mais de elite da cidade, Ipanema e Copacabana, e suas extensões menos conhecidas, Leblon e Leme, são subdivididas informalmente em setores, demarcados por uma dúzia de postos salva-vidas, cada um situado a cerca de 800 metros um do outro. Cada posto, numerado de 1 a 12, tem uma cultura própria, tem apelo a uma "tribo" diferente e pode ser inóspita para intrusos.

O Brasil tem quase 8 mil quilômetros de costa tropical e, "por lei", a praia é sempre propriedade pública e nunca privada", disse Patrícia Farias, autora de "Pegando uma Cor na Praia", um estudo das relações sociais nas praias do Rio. "O discurso é sempre de 'nós todos vivemos juntos democraticamente', mas a segunda parte não dita é "mas segundo minhas regras'."

No Rio, o Posto 9 está claramente no topo e é assim há mais de 30 anos. Ela é a preferida dos intelectuais de esquerda, que hasteiam ali a bandeira do Partido dos Trabalhadores do governo, assim como dos artistas e ex-hippies.

A área entre os Postos 11 e 12 no Leblon são reduto de mães de classe média alta e seus filhos pequenos. O fenômeno surgiu há cerca de 20 anos, quando um quiosque na calçada vendendo cocos e bebidas instalou um posto de troca de fraldas e um pequeno playground na esperança de melhorar seus negócios.

"Ipanema sempre está na vanguarda, mas o Leblon tem um ar mais família", disse João Fontes, da associação comunitária do Leblon, quando lhe foi pedido para que comparasse as duas praias, que são separadas apenas por um estreito canal. "Nós preferimos nos manter quietos e modestos a nos gabarmos."

Na outra ponta de Ipanema, o Posto 7 é local de encontro favorito dos surfistas do bairro. Mas também atrai forasteiros, muitos deles de pele escura, dos bairros de periferia a uma distância de até três horas de ônibus, especialmente nos fins de semana, quando famílias inteiras se instalam na areia.

A grande maioria destes passageiros da periferia opta por descer nas primeiras paradas de ônibus em Ipanema, perto do Posto 7. Os forasteiros são conhecidos pejorativamente como "farofeiros", porque preferem trazer comida de casa que inclui farofa. Eles também são motivo de chacota por se sentarem em esteiras de palha em vez das toalhas coloridas e aplicarem bronzeadores baratos em vez dos protetores solares mais caros.

"A maioria das pessoas tratam você bem, mas alguns são realmente preconceituosos, até mesmo racistas", disse Jefferson Luiz Santos Fonseca, 27 anos, que ocasionalmente vai a Ipanema nos fins de semana de verão com sua esposa e filhos.

Entre si, os brasileiros freqüentemente criticam sua sociedade como uma em que a desobediência seletiva de leis e regras é generalizada, de formas pequenas e grandes. Carros rotineiramente atravessam o farol vermelho e estacionam em calçadas, florestas protegidas são derrubadas para venda da madeira ou ocupadas por posseiros.

De muitas formas a praia não é diferente. Jogadores de frescobol à beira da água, donos de cachorros brincando com seus animais e surfistas que ameaçam atropelar os banhistas, todos violam rotineiramente as restrições às suas atividades, "e ninguém faz nada a respeito, nem a guarda municipal e certamente não o banhista indefeso", se queixou Joana Guimarães, mãe de duas crianças pequenas.

Mas isto não quer dizer que não há limites ao comportamento. Apesar da reputação do Brasil de tolerância sexual, tanto o topless quanto a nudez cada vez mais vistas nas praias européias são desaprovados aqui. Quando um grupo de mulheres jovens tentou fazer topless em Ipanema há poucos anos, as pessoas despejaram cerveja nelas, as insultaram e chamaram a polícia.

Mas o que realmente preocupa os banhistas aqui são os chamados "arrastões", que ocorre quando grandes grupos de jovens das favelas, nos morros que dão vista para a praias, atacam a praia e roubam os freqüentadores. Isto começou no início dos anos 90 e, apesar de ter diminuído nos últimos anos com a resposta da polícia, continua sendo uma fonte de desconforto com um componente claramente racial.

"Se você está sentado lá com sua esposa e filhos, seu relógio e dinheiro escondido em um local óbvio, e um grupo de adolescentes de pele escura e cabelo descolorido se aproxima, você começa a ficar nervoso", disse Antônio Bezerra Andrade, um morador de Ipanema.

Alguns hotéis de luxo à beira-mar equiparam nos últimos anos seus seguranças com binóculos, que vigiam dos andares superiores e se comunicam por walkie-talkie com seus colegas na praia. Eles também tentam afastar prostitutas, conhecidas em algumas partes do Brasil como "Cinderelas da areia".

Ainda assim, "o que me surpreende é que em uma sociedade que se representa como sendo altamente desorganizada, a praia é incrivelmente organizada", disse Da Matta. Mas ordem - e os confortos que a acompanham - não podem ser mantida sem a presença do que só pode ser descrita como uma classe serviçal.

De uma ponta a outra da praia, os banhistas são servidos por vendedores ambulantes que fazem uma longa viagem dos bairros operários para vender bebidas, sorvetes, óculos escuros, roupas e bronzeadores.

"Às vezes você encontra estes grupos de garotas realmente bonitas de classe alta rebaixando seus namorados ou conversando sobre suas vidas sexuais diante de você", disse um vendedor que não quis ser identificado por temer ofender clientes regulares. "É como se você nem estivesse lá, como se fosse invisível ou não fosse uma pessoa."

Muitas das tendências e movimentos culturais e sociais do Brasil nascem no Rio, com a praia servindo como seu palco. Quando, no início dos anos 70, por exemplo, a atriz Leila Diniz vestiu um parco biquíni para ir ao Posto 9, gloriosamente grávida e solteira, tradicionalistas ficaram horrorizados. Mas as feministas apontam o episódio como um momento importante em seus esforços para obtenção de direitos iguais.

Poucos anos depois, com a ditadura militar ainda no poder, Fernando Gabeira, atualmente um escritor e proeminente membro do Congresso representando o Partido Verde, voltou do exílio na Europa e sinalizou a separação de sua geração da esquerda stalinista vestindo tanga de crochê na praia.

Mais recentemente, os gays estabeleceram um espaço perto do Posto 9, que atualmente ostenta uma bandeira arco-íris que é o emblema do movimento.

"Por que, após anos em que os homossexuais se reuniam discretamente perto do Copacabana Palace Hotel, surge repentinamente uma praia gay na Rua Farme de Amoedo?" disse Farias, a autora. "É porque os grupos usam a praia para conquistar visibilidade, para dizer 'Ei, eu também estou aqui'. Para conseguir isto, eles precisam de um ponto na praia que possam dizer que é seu." George El Khouri Andolfato

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