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09/02/2007

Acordo é assinado por palestinos para encerrar conflito

The New York Times
Hassan M. Fattah*

Em Meca, Arábia Saudita
As principais facções rivais palestinas concordaram na noite de quinta-feira (8/2) em formar um governo de unidade nacional, visando colocar fim à onda de violência entre elas e a um boicote internacional.

AFP 
Acordo representa a primeira vez que Hamas e Fatah concordaram em dividir a autoridade

O acordo, assinado aqui na cidade mais sagrada do Islã sob os auspícios dos sauditas, parece colocar fim, pelo menos por ora, a semanas de confrontos que devastaram a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Ainda assim, ele parece não atender as exigências da comunidade internacional para retomada das relações e apoio à Autoridade Palestina.

Assinado por Khaled Meshal, do grupo militante Hamas, e por Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina e líder do Fatah, o principal rival do Hamas, o acordo representa a primeira vez que os dois partidos concordaram em dividir a autoridade. Ele estabelece princípios para um governo de coalizão, como a distribuição de pastas ministeriais, mas deixa muitos detalhes para depois.

Israel e as potências internacionais disseram que suspenderiam seu boicote ao governo palestino, imposto após a vitória eleitoral do Hamas há um ano, apenas se aceitasse três condições: reconhecer Israel, renunciar a violência contra Israel e cumprir os acordos anteriores entre Israel e os palestinos.

O acordo de Meca trata apenas da última destas condições e o faz de forma imprecisa, prometendo "respeito" aos acordos anteriores entre os palestinos e Israel.

Em Washington, um porta-voz do Departamento de Estado, Tom Casey, disse: "A comunidade internacional deixou claro que para obtenção de um relacionamento mais amplo com o governo da Autoridade Palestina, tais princípios terão que ser atendidos". Ele acrescentou que autoridades ainda estão estudando o acordo.

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, se encontrará com Abbas e com o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, na próxima segunda-feira em Jerusalém, para acertar uma iniciativa de paz mais ampla.

Em Meca, Abbas leu uma declaração durante a cerimônia de assinatura, onde renomeou Ismail Haniya como primeiro-ministro e pediu ao novo governo para acatar a "lei internacional" e os acordos assinados pela Organização para a Libertação da Palestina. Sua intenção parecia ser a de aplacar as preocupações da comunidade internacional.

A ministra das Relações Exteriores britânica, Margaret Beckett, chamou o acordo de "interessante", mas disse que exigirá mais estudos. Nas ruas de Gaza, os palestinos comemoraram o anúncio do acordo, com membros do Hamas e do Fatah disparando para o ar.

As autoridades do Hamas em Meca se irritaram com a insistência na aceitação de Israel, insistindo que quaisquer concessões que oferecessem não seriam suficientes. "Eu me pergunto por que a questão do reconhecimento de Israel é a chave para tudo?" disse Ghazi Hamad, porta-voz do governo do Hamas. "Nós estamos interessados em colocar um fim ao sítio, mas não a qualquer custo."

Ele acrescentou: "Nós tentamos um equilíbrio entre nossas restrições nacionais palestinas e nossa abertura para a comunidade internacional. Israel não está pronta para lidar com qualquer lado a menos que os palestinos aceitem as suas condições".

Miri Eisin, uma porta-voz de Olmert, disse: "Israel espera que o governo palestino respeite todos os três princípios da comunidade internacional", mas ela se recusou a dizer se o novo governo palestino atende alguma ou todas as condições. As autoridades israelenses disseram que isto exigirá maior avaliação.

Em grande parte, o acordo de Meca promete colocar fim a uma luta que já provocou a morte de mais de 90 palestinos, com cada lado prometendo reduzir as tensões e virar uma nova página em sua história. Os dois lados assinaram várias tréguas, mas cada uma foi rompida.

"Estes dias sombrios acabarão", anunciou Meshal na assinatura do acordo. "Nossa unidade árabe, islâmica, nos uniu, brilhando de novo." Ele acrescentou que o fato da assinatura ter ocorrido na cidade sagrada lhe dá maior significado.

Segundo os termos do acordo, Haniya, o atual primeiro-ministro, formará um novo governo com o Hamas controlando a maioria das cadeiras, o Fatah controlará outras várias e as demais serão ocupadas por palestinos "independentes". O novo governo será supostamente formado em cinco semanas.

A composição exata não ficou imediatamente clara na noite de quinta-feira. O papel crítico de ministro do Interior deverá ir para uma autoridade independente, disse um porta-voz do Hamas, enquanto Abbas manterá o controle de algumas agências de segurança, incluindo a Guarda Presidencial.

A divisão de autoridade tem sido um fator importante na recente luta interna palestina, colocando freqüentemente membros da força de segurança do Fatah contra membros da força de segurança do Hamas em batalhas armadas nas ruas de Gaza.

O Hamas rejeita a simples existência de Israel e pede por sua destruição. O Fatah, que começou com a mesma filosofia no final dos anos 50, defende uma solução de dois Estados, com Israel retornando para suas fronteiras de antes da guerra de 1967 e com um Estado palestino construído em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Mas há conversa por parte de algumas autoridades do Hamas sobre a possibilidade de aceitarem implicitamente a solução de dois Estados, sem reconhecer especificamente Israel. Não se sabe se isto bastaria para colocar um fim ao boicote internacional.

O acordo de quinta-feira concluiu um encontro de cúpula de emergência de dois dias, repleto de importância religiosa e enriquecido com o prestígio do rei Abdullah da Arábia Saudita. Os palestinos se sentaram em uma sala bem acima da Grande Mesquita de Meca, enquanto as autoridades sauditas permaneceram do lado de fora, fornecendo assistência quando requisitada. Muitos fiéis estavam cientes das deliberações em andamento e podiam olhar para cima e ver os palestinos se movimentando.

Talvez a maior vencedora do acordo seja a Arábia Saudita, que buscou se apoiar em seus sucessos anteriores em 1989, quando, em um encontro de cúpula semelhante na cidade montanhesa de Taif, conseguiu intermediar o fim de 15 anos de guerra civil libanesa. Em cenas transmitidas pela TV saudita, o rei Abdullah estava sentado tendo de um lado Abbas e do outro Meshal, que assinaram o documento, e então leu um breve discurso. "Eles provaram que são dignos de confiança e provaram que podem colocar fim à luta", disse o rei.

*Helene Cooper, em Washington, e Greg Myre, em Jerusalém, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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