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09/02/2007

Jogos do futebol italiano poderão voltar, mas sem torcedores

The New York Times
Ian Fisher e Peter Kiefer

em Roma
A Itália anunciou nesta quinta-feira (8/2) um novo acordo entre o amor do país pelo futebol e a violência nos estádios: as partidas do campeonato poderão ser retomadas neste fim de semana, uma semana após a morte de um policial em uma briga em um jogo na Sicília, mas a maioria só ocorrerá se os estádios estiverem sem espectadores. "Será muito estranho", disse Clarence Seedorf, o astro meio-campista do Milan, o time de propriedade do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

Reuters 
Depois que uma briga acabou com a morte de um policial, jogos agora só sem espectadores

O estádio em Milão, conhecido como San Siro, é considerado um dos palcos mundiais mais sagrados do futebol - mas poderá estar cheio de ecos, não dos habituais 45 mil torcedores, quando o Milan enfrentar o Livorno no domingo. San Siro é um dos 25 estádios na Itália que os dirigentes esportivos e as autoridades de segurança do país condenaram por não disporem de certas medidas de segurança voltadas para a redução da violência dos torcedores.

Apenas seis estádios - incluindo o Estádio Olímpico de Roma - foram considerados adequados para receber espectadores.

As partidas foram suspensas na última sexta-feira depois que torcedores rivais se enfrentaram e à polícia durante um jogo em Catania, Sicília. Em meio às bombas explodindo e valentões empunhando barras de aço, um policial de 38 anos, Filippo Raciti, foi morto.

Mas o drama ainda não acabou neste país onde o futebol não é apenas um esporte, mas também uma combinação poderosa de dinheiro, política e rivalidades profundas, às vezes violentas, entre cidades.

Agora os jogadores estão considerando uma greve, dizendo que é injusto permitir torcedores em alguns jogos e proibi-los em outros. Os dirigentes, com muito dinheiro em jogo, estão implorando para que pelo menos aqueles que já possuem ingressos sejam admitidos nos estádios que não atendem as exigências.

E os italianos estão perguntando em aflição o que aconteceu com o futebol aqui: a Itália pode ter conquistado a Copa do Mundo no ano passado, mas sua credibilidade já despencou não apenas por causa do escândalo de manipulação de resultados no ano passado, mas porque não foi feito muito para resolver o problema.

"Eu acho que depois disto tudo as pessoas começarão a perder seu interesse pelo futebol", disse Umberto Zapelloni, vice-diretor da "Gazzetta dello Sport", o diário esportivo mais vendido daqui. "Foi um ano incrível para o futebol italiano."

Zapelloni e outros comentaristas levam suas críticas para além do próprio futebol, também responsabilizando a cultura complicada da Itália de fazer vista grossa às regras.

Há dois anos, uma lei foi aprovada ordenando que os estádios adotassem novas medidas de segurança, de muitas formas usadas com sucesso no Reino Unido para conter os hooligans. Entre os 25 que não implementaram as medidas estava o estádio em Catânia, onde o policial foi morto.

Cerca de 38 pessoas, entre elas 15 menores, foram presos depois. Na quinta-feira, a polícia interrogou um torcedor de 17 anos suspeito pela morte do policial.

Não apenas a morte, mas o fato de que poderia ter sido impedida caso a lei tivesse sido cumprida, pareceu responsável pela linha dura adotada pelo governo do primeiro-ministro Romano Prodi ao lidar com os estádios que não atenderam as exigências.

Na noite de quarta-feira, seu Gabinete se reuniu e basicamente reapresentou a lei de dois anos atrás. Ela exige catracas nas entradas, circuito fechado de câmeras de segurança e que os torcedores tenham seus nomes impressos nos ingressos. Ela também proíbe venda em bloco de ingressos para equipes visitantes e impõe penas mais longas de prisão para os infratores.

Pelo futuro imediato, também estão suspensas partidas noturnas na divisão principal e nas divisões inferiores.

Apesar do protesto dos dirigentes das equipes, alguns dos homens mais ricos e poderosos na Itália, os membros do Gabinete defenderam fortemente as medidas. Antonio Di Pietro, o ministro da Infra-estrutura e homem que processou a Máfia, recorreu ao latim para defender a posição do governo. "Dura lex, sed lex", ele disse após a reunião ministerial na quarta-feira, que significa "A lei é dura, mas é a lei".

Ainda assim, o governo deixou algum espaço para concessões. As autoridades anunciaram que continuarão inspecionando os estádios, que em alguns casos já deram início às melhorias, nos próximos dias.

O que está em aberto, por ora, é se aqueles que já possuem ingressos para a temporada, considerados por alguns como de menor risco, poderiam ser admitidos em partidas nos estádios que não estão dentro da lei. "Nós acreditamos que é profundamente injusto fechar um estádio como San Siro, no qual nós já gastamos 20 milhões de euros", disse Adriano Galliani, presidente do Milan, aos repórteres antes de seguir para uma reunião de dirigentes de clubes perto de Roma, na quinta-feira. "Nós fizemos tudo o que a lei pediu e não temos nenhum motivo para sermos repreendidos", continuou.

Os seis estádios que atendem às exigências são os de Roma, Gênova, Siena, Cagliari, Torino e Palermo. Os que não atendem são: Milão, Ascoli Piceno, Bari, Bergamo, Bolonha, Brescia, Catânia, Cesena, Empoli, Florença, Lecce, Livorno, Mantova, Messina, Modena, Nápoles, Parma, Perugia, Pescara, Piacenza, Reggio Calabria, Salerno, Trieste, Udine e Verona.

Os dirigentes das equipes se queixaram de que o problema é maior do que apenas os estádios: o futebol na Itália, na verdade, é freqüentemente um espelho desconfortável da sociedade.

A Lazio, por exemplo, têm uma forte torcida de direita, com muitos torcedores abertamente fascistas. Algumas torcidas são consideradas compostas de eleitores confiáveis de políticos ou partidos locais. Na violência contra a polícia, alguns especialistas vêem uma extensão da desconfiança tradicional da Itália em relação às instituições do Estado, assim como agressão contra elas.

"O problema não será resolvido com uma lista de estádios que são adequados para receber torcedores e aqueles que não", disse Vincenzo Silvestrini, presidente da equipe do Perugia. "Porque antes de resolver o problema da segurança nos prédios é necessário resolver a segurança na Itália."

Seedorf, o jogador do Milan, disse em uma entrevista: "Os estádios de futebol precisam ser reformados, mas este problema da morte do policial não tem nada a ver com futebol". George El Khouri Andolfato

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