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16/02/2007

A maior esperança de Anne Frank, em cartas desbotadas

The New York Times
Patricia Cohen
Em 30 de abril de 1941, poucos dias depois que um mensageiro da Gestapo ameaçou denunciar aos nazistas o pai de Anne Frank, Otto, ele escreveu para seu íntimo amigo de faculdade Nathan Straus Jr. suplicando sua ajuda para tirar sua família de Amsterdã, Holanda, e levá-la para a América.

Hiroko Masuike/The New York Times 
Documentos descobertos recentemente revelam detalhes da fuga dos Frank do nazismo

"Eu não pediria se as condições aqui não me obrigassem a fazer o possível a tempo de evitar o pior", ele escreveu em uma carta que faz parte de uma pilha de 77 páginas de documentos recém-descobertos e divulgados na última quarta-feira (14/2). "Talvez você lembre que temos duas filhas. É principalmente pelo bem das crianças que temos de zelar. Nosso próprio destino tem menos importância."

Frank precisava de um depósito de US$ 5 mil para obter um visto, e Straus - diretor do Departamento Federal de Habitação, amigo de Eleanor Roosevelt e filho de um co-proprietário da loja Macy's - tinha dinheiro e conexões. "Você é a única pessoa que conheço a quem posso pedir", ele escreveu. "Seria possível você fazer um depósito em meu favor?"

Essa carta inicia uma série de correspondências pessoais e documentos oficiais que revelam pela primeira vez os esforços cada vez mais desesperados da família Frank em 1941 para ir para os EUA ou Cuba antes que os nazistas os pegassem. Os documentos, de propriedade do Instituto YIVO de Pesquisa Judaica em Nova York, ficaram em um armazém em Nova Jersey durante quase 30 anos, até que um erro burocrático levou à sua descoberta inesperada. Diante da completa pesquisa histórica e dos esforços extraordinários para preservar o legado de Anne Frank, o surgimento desse arquivo negligenciado é surpreendente.

A história parece se desdobrar em câmera lenta enquanto a dolorosa correspondência atravessa continentes e estados, com sua informação muitas vezes ultrapassada quando afinal chegava. Cada página acrescenta uma camada de dor conforme se expõe o tortuoso processo para obter a entrada nos EUA - envolvendo patrocinadores, grandes quantias de dinheiro, atestados e provas de que sua entrada seria vantajosa para a América. No momento em que os Frank e seus defensores americanos superavam um obstáculo administrativo ou logístico, surgia outro.

Até o vice-secretário de Estado na época, Adolf A. Berle Jr., se desesperou com o impressionante labirinto de regulamentos. Como indicou Richard Breitman, um historiador na Universidade Americana, em outro trabalho, Berle escreveu numa carta em janeiro de 1941 que alguns consulados pediam um depósito fiduciário. "Outros pedem atestados. Um caso especialmente chocante afirmou que nada seria aceito se não fosse de um parente nos EUA sob a obrigação legal de apoiar o requerente", ele disse. "Parece-me que esse departamento deveria se organizar para permitir uma instrução geral que seja completa o suficiente e simples o suficiente para que o procedimento seja padronizado."

Afinal, conexões poderosas e dinheiro não bastaram para que os Frank, para não falar na maioria dos outros judeus europeus, superassem as restrições do Departamento de Estado. No verão de 1942 os Frank foram obrigados a esconder-se. Ficaram no anexo secreto durante dois anos antes de ser denunciados, provavelmente pelo mesmo mensageiro que tentou chantageá-los no início. Como escolares do mundo todo sabem, a história termina com a morte nos campos de concentração de Anne, 15 anos, sua irmã Margot e sua mãe, Edith, e a publicação do diário de Anne, hoje um marco literário e histórico que personaliza a tragédia incomensurável do Holocausto.

Breitman explicou que depois que a França caiu sob os alemães, em junho de 1940, cresceu nos EUA o medo de uma potencial quinta-coluna de espiões e sabotadores formada por refugiados europeus. Ele cita um memorando do Departamento de Estado de 2 de maio de 1941 que declarava: "Num momento como este, quando a segurança do país está ameaçada, parece plenamente justificável resolver quaisquer dúvidas possíveis em favor do país, e não em favor dos estrangeiros envolvidos".

Em junho de 1941 ninguém com parentes próximos ainda na Alemanha tinha permissão para entrar nos EUA devido à suspeita de que os nazistas pudessem usá-los para chantagear os refugiados a cooperar clandestinamente. Esse fato fechou a possibilidade de tirar as meninas Frank através de uma agência de resgate de crianças ou de fazer Otto Frank partir primeiro, na esperança de que o restante da família o seguisse rapidamente.

Em julho, a Alemanha fechou os consulados americanos em seus territórios, em retaliação a uma ação semelhante por parte dos EUA. Como mostra a correspondência, Otto Frank precisaria ter um visto de saída da Holanda e vistos de trânsito por uma série de países ocupados pelos nazistas até uma das quatro áreas neutras onde os EUA ainda mantinham consulados. No verão, uma fuga para os EUA parecia impossível. "Temo, porém, que a notícia não seja boa", Straus escreveu para Otto Frank em 1º de julho de 1941.

Para chegar a um país neutro, Frank tentou obter um visto cubano, processo arriscado, caro e muitas vezes corrupto. Em uma carta de 8 de setembro a Straus, ele escreveu: "Sei que será impossível nós todos partirmos, mesmo que a maior parte do dinheiro seja restituída, mas Edith me pede que vá sozinho ou com as crianças". Em 12 de outubro de 1941 ele escreveu: "É muito mais difícil do que se pode imaginar e está ficando mais complicado a cada dia". Por causa da incerteza, ele decidiu tentar primeiro um visto individual. Foi concedido e enviado a Otto Frank em 1º de dezembro. Mas ninguém sabe se chegou; dez dias depois a Alemanha e a Itália declaravam guerra aos EUA e Havana cancelou o visto.

O arquivo, que estava originalmente de posse do Serviço Nacional de Refugiados, foi transferido à YIVO em 1974 junto com dezenas de milhares de outros arquivos de agências de refugiados judeus.

Foi somente em 2005 que a YIVO recebeu autorização para organizar e indexar o material, que ocupava 350 armários guardados em um armazém. No verão daquele ano, Estelle Guzick, uma voluntária em tempo parcial, estava examinando os arquivos quando viu que numa das pastas faltava a data de nascimento da pessoa, disse Carl J. Rheins, diretor-executivo da YIVO. Ele disse que Guzick abriu a pasta e viu que os nomes das crianças eram Anne e Margot Frank, e disse: "Oh, meu Deus, esta é a pasta de Anne Frank".

A YIVO guardou os documentos em segredo até esta semana porque estava analisando as complexas questões jurídicas de confidencialidade e direitos autorais, disse Rheins. Agora os documentos estão à disposição de estudiosos da YIVO, na West 16th Street em Manhattan.

As últimas entradas no arquivo datam de junho de 1945 a meados de 1946. Elas incluem uma carta do cunhado de Otto Frank, Julius Hollander, que tentava localizar os Frank e arranjar para que eles emigrassem para os EUA. Também há uma notificação de quatro linhas de que "a senhora Edith Frank morreu; as filhas continuam desaparecidas".

Depois há uma carta de 2 de fevereiro de 1946 de Hollander, dizendo que "Otto Frank disse que quer ficar em Amsterdã" e não quer mais vir para os EUA. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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