UOL Notícias Internacional
 

16/02/2007

Esperança de superação com início do julgamento dos atentados na Espanha

The New York Times
Doreen Carvajal

em Madri, Espanha
Um julgamento de 29 suspeitos teve início nesta quinta-feira (15) na Espanha, com a esperança de que um fórum público possa oferecer uma catarse para uma nação marcada pelos atentados a bomba contra trens na hora do rush, que mataram 191 pessoas em março de 2004 e partiram o establishment político da Espanha.

Quando o primeiro suspeito, Rabei Osman Sayed Ahmed, tomou assento perante o tribunal, sua negação de envolvimento foi transmitida ao vivo pela Internet. Suas recusas em responder aos promotores também foram transmitidas ao vivo pela televisão espanhola.

Ahmed se sentou antes dos juízes, na presença pela primeira vez de alguns parentes das vítimas no tribunal. Outros estavam em outro prédio próximo, onde assistiram aos procedimentos em telas gigantes de plasma. Uma equipe de psicólogos e médicos circulava entre eles para oferecer assistência.

Pilar Manjon, cujo filho morreu na explosão e que é líder da Associação das Vítimas do 11 de Março, entrou no tribunal com suas pernas tremendo, mas convencida de que era um triunfo confrontar os suspeitos. "Eu quero que se recordem do meu rosto, para que não me esqueçam, porque vou ser o pior pesadelo deles", disse Manjon.

Ahmed se sentou casualmente em sua cadeira próxima dos juízes, mas alguns dos outros suspeitos foram colocados em um cubículo à prova de balas, enquanto 11 outros se sentaram em um pátio aberto. Todos se declararam inocentes, mas enfrentarão muitos anos de prisão caso sejam considerados culpados. A pena máxima na Espanha é de 40 anos.

As autoridades gastaram mais de US$ 2 milhões em nova tecnologia para que os espanhóis possam acompanhar o julgamento de fora da apertada sala do tribunal. Os atentados foram um dos eventos mais traumáticos no país desde a guerra civil dos anos 30.

Com toda a atenção dedicada a este julgamento, os jornais espanhóis o chamaram de "o julgamento do século". Ele ocorre em um prédio de tijolos que se assemelha a um bunker e que na quinta-feira estava cercado de policiais e helicópteros sobrevoando no alto.

A Espanha ainda está se recuperando das conseqüências políticas dos atentados, que coincidiram com os últimos dias de uma campanha eleitoral que acabou com a derrota do governo conservador e o triunfo dos socialistas.

Ainda há divisões amargas entre os dois partidos, particularmente entre os conservadores que perderam o poder, que inicialmente atribuíram os atentados ao grupo separatista basco ETA e ainda acreditam que há uma ligação.

E ainda persiste o medo de futuras ameaças, com alertas do juiz que investigou os ataques de 11 de Março de que a Espanha continua ameaçada. As autoridades também elevaram o nível de seu alerta de terrorismo na terça-feira de baixo para médio, como precaução antes do julgamento.

Mais de 100 peritos e 600 testemunhas provavelmente serão chamadas para depor no caso, com a probabilidade do julgamento durar cinco meses e com a expectativa do veredicto ser proferido em outubro. Também há quase 90 mil páginas de evidências por escrito, grande parte delas arquivadas digitalmente e às quais a população pode ter acesso.

Ahmed é suspeito de fazer parte de um grupo central de três conspiradores que mantinha ligação com os outros. Dez bombas foram escondidas em bolsas esportivas, explodindo em quatro trens lotados na hora do rush, com telefones celulares usados como detonadores.

Na quinta-feira, quando os promotores tentaram lhe fazer perguntas sobre seu passado, ele simplesmente as ignorou, tocando seus fones de ouvido e seu painel de tradução. Ele continuou olhando para frente, sem piscar, enquanto exigiam saber sobre eventos em sua vida tão básicos quanto a forma como se sustentava enquanto vivia nas ruas.

"Com todo o respeito", ele disse em árabe, que foi traduzido. "Eu não sei de nada sobre estas acusações e, com todo respeito, senhor presidente e tribunal, eu não vou responder nenhuma pergunta inclusive as do meu próprio advogado de defesa. Por quê? Pelas seguintes razões."

Mas ele foi cortado pelo juiz presidente, Javier Gómez Bermúdez, que buscou acelerar o depoimento, também cortando o advogado de defesa quando o juiz considerou que as perguntas dele eram repetitivas e, a certa altura, chamando o intérprete de árabe de voz baixa até sua sala para discutir seu estilo.

Ao ser perguntado por seu próprio advogado de defesa, Ahmed cedeu e declarou sua inocência, apesar das autoridades terem interceptado chamadas telefônicas dele assumindo a responsabilidade pela trama.

"Eu nunca tive qualquer relação com os eventos que ocorreram em Madri", ele disse. "Obviamente, eu condeno total e incondicionalmente estes ataques. Esta é uma convicção clara e absoluta que tenho." Ele também condenou "todos estes ataques que aconteceram em Londres e Nova York".

Nascido no Egito em 1971, Ahmed descreveu a si mesmo como um motorista comum que serviu por menos de dois anos nas forças armadas egípcias. Respondendo ao seu advogado, ele disse não ter qualquer treinamento em explosivos e que se considera um muçulmano, "mas eu pratico minha religião de forma normal, não de um modo extremista".

O próximo suspeito que deverá aparecer no tribunal é Youssef Belhadj, que é acusado de ser o homem que apareceu em um vídeo chamando os atentados de um ato de vingança pelo apoio da Espanha aos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. George El Khouri Andolfato

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