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18/02/2007

Os israelenses partiram, mas a reconstrução está apenas começando em Gaza

The New York Times
Greg Myre

Em Rafah, Faixa de Gaza
Em um local onde a maioria das pessoas tem uma história de dificuldades, Ibrahim Abu Shatat poderia escrever um livro sozinho.

Duas de suas casas foram destruídas por tropas israelenses, ele está desempregado há seis anos e sua família de nove pessoas vive no depósito sob o estádio de futebol de Rafah há três anos.

Mas Shatat talvez seja um dos poucos habitantes de Gaza que vêem um raio de esperança. Em parte devido à sua persistência, teve início a construção de 300 casas nas dunas de areia próximas do antigo assentamento judeu de Rafiah Yam. Juntamente com uma escola vizinha, estes são os primeiros projetos de construção em um assentamento ou próximo deles desde que os soldados e colonos israelenses se retiraram da Faixa de Gaza em meados de 2005. E uma destas casas será dele, possivelmente até o final do ano, disse Shatat.

A retirada israelense aumentou as esperanças palestinas de novas casas, escolas e negócios, assim como um alívio para a alta densidade populacional na Faixa de Gaza, um território costeiro empobrecido onde vivem cerca de 1,5 milhão de palestinos.

"Quando os israelenses partiram, nós exigimos que o governo palestino nos desse um pedaço de terra", disse Shatat, 47 anos. Mas turbulências internas palestinas, o conflito com Israel e a falta de dinheiro mantiveram os assentamentos abandonados quase exatamente como estavam no dia em que os israelenses partiram. Israel, em um acordo com os palestinos, derrubou cerca de 1.600 casas de colonos e, até o momento, os escombros estão sendo removidos em apenas três dos 21 assentamentos.

Mas há progresso no trecho desolado que era uma terra de ninguém nos arredores de Rafiah Yam, no sudoeste de Gaza, perto da fronteira com o Egito.

Shatat levou sua esposa, Maha, até o local de construção pela primeira vez na sexta-feira, para que visse as fundações de blocos de concreto para cerca de 20 casas. Os planos são para residências modestas, isoladas, de dois ou três andares, com uma família vivendo em cada andar. "Eu estou muito empolgada", disse Maha Shatat. "Agora finalmente acredito que está acontecendo."

Desde o início do levante palestino em 2000, pelo menos 1.500 famílias em Rafah perderam seus lares, segundo os palestinos. Tratores militares israelenses realizaram repetidas incursões para destruir casas que Israel dizia que eram usadas por contrabandistas de armas e de onde homens armados disparavam contra forças israelenses ao longo da fronteira com o Egito.

A partida dos israelenses aumentou a perspectiva de que os palestinos ávidos por terras tomassem os antigos assentamentos. Mas apesar da impaciência de muitos palestinos por novas moradias, guardas de segurança mantiveram afastados os posseiros na maioria dos casos, mas não todos.

Os assentamentos também possuem estufas que oferecem a perspectiva de trabalho agrícola para milhares. Mas as estufas permanecem ociosas.

Os palestinos investiram milhões de dólares para reparar as estufas logo após a partida dos israelenses e obtiveram uma safra excelente no inverno de 2005 e 2006. Mas foram impedidos de exportar sua produção para a Europa, o principal mercado, porque Israel manteve a principal travessia de bens de Gaza fechada por semanas na época, citando motivos de segurança.

Carentes de dinheiro e temendo um destino semelhante neste ano, os palestinos não plantaram uma safra de inverno nas estufas. Mas a travessia de bens se manteve aberta nas últimas semanas, quando a produção estaria pronta para exportação.

O Ministério da Agricultura palestino disse que em breve começará a alugar as estufas para produtores privados e os encorajará a produzirem para o mercado local, já que não há garantia de que frutas, legumes, verduras e flores poderão ser exportados de uma forma oportuna.

Ahmed Yousef, um conselheiro do primeiro-ministro palestino, Ismail Haniya, disse que o governo tem alugado antigas terras de assentamento para universidades, hospitais, centros de recreação e moradias. O desenvolvimento dos projetos tem sido lento por vários motivos. O governo palestino nunca foi conhecido por sua eficiência e vários meses após os israelenses deixarem Gaza, o Hamas, o movimento radical islâmico, chegou ao poder, o que levou os países ocidentais a cortarem a assistência financeira direta.

"Nós tivemos que encontrar países que financiassem estes projetos", disse Yousef.

A Arábia Saudita está fornecendo US$ 11,5 milhões para os 300 lares no sul de Gaza, e o programa de desenvolvimento da ONU está supervisionando o projeto.

Shatat foi soldador em Israel por 14 anos e construiu uma grande casa de três andares em Rafah, a pouco menos de 50 metros da fronteira de Gaza com o Egito. Mas o levante palestino que teve início em 2000 desferiu um duplo golpe na sua fortuna pessoal.

Ele foi um dos milhares de palestinos que perderam seus empregos quando Israel restringiu o número de trabalhadores palestinos autorizados a entrar. Então, há cinco anos, com os militantes palestinos em Rafah enfrentando as tropas israelenses, a casa de Shatat se tornou inabitável quando as forças israelenses demoliram a casa de seu vizinho. Os Shatats alugaram uma casa próxima, que foi destruída em janeiro de 2004, quando Israel derrubou mais duas casas. O único abrigo que Shatat conseguiu encontrar para sua esposa e oito filhos, atualmente com idades entre 3 e 20 anos, foi o depósito debaixo do estádio de Rafah.

Assim que se mudou para lá com sua família, Shatat deu início a um lobby junto à Autoridade Palestina para construção de casas substitutas para aquelas destruídas no combate, mas recebeu pouca ajuda, ele disse. Ele formou um comitê para os desabrigados em Rafah e se transformou em um incômodo nas repartições do governo na Cidade de Gaza, particularmente na Autoridade de Terras. "Eu lhes disse que se não nos dessem terras, nós passaríamos a viver em suas repartições", ele disse.

Há cerca de um ano, o governo palestino destinou terras para 300 casas, apesar de que isto fornecerá abrigo para menos da metade daqueles que perderam casas na luta ao longo da fronteira, segundo Shatat.

Vários quilômetros costa do Mediterrâneo acima, o ex-assentamento de Tel Katifa oferece outro exemplo típico do estado dos antigos assentamentos. Em seu canto noroeste, membros armados do Fatah montam guarda, mantendo posições desde logo após a partida israelense. Ao longo do lado sul, forças do Hamas mantêm um posto avançado estabelecido há um mês, em uma disputa para substituir os homens do Fatah.

No canto sudoeste, guardas desarmados do Ministério da Agricultura esperam que sua presença, marcada por uma bandeira palestina rasgada hasteada no alto, desencorajará as facções a trocarem tiros. Até o momento, o Fatah e o Hamas só trocaram disparos esporádicos durante a disputa entre facções em Gaza.

Enquanto isso, uma família afiliada ao Fatah está vivendo no antigo jardim de infância de Tel Katifa, o único prédio que permaneceu em pé quando os israelenses partiram. Fawzi Abu Abed disse que sua família se mudou para lá após receber permissão de uma família palestina que alega que era dona das terras antes da chegada dos israelenses. Abed disse que sua casa foi destruída pelos israelenses em 2002 e que os subsídios do governo para aluguel de imóvel acabaram no ano passado. "O governo está falido, de forma que tínhamos que encontrar uma solução", disse Abed. George El Khouri Andolfato

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