UOL Notícias Internacional
 

22/02/2007

Premier italiano renuncia após perder votação de política externa

The New York Times
Ian Fisher*

em Roma
O frágil governo da Itália se desfez repentinamente nesta quarta-feira (21), sob o peso de suas próprias divisões internas assim como do amplo ceticismo em relação ao papel europeu na luta mundial contra o terrorismo.

O primeiro-ministro Romano Prodi, no cargo há apenas nove meses, apresentou sua renúncia na noite de quarta-feira, após a derrota de sua coalizão de governo em uma votação chave no Senado sobre política externa.

Dois membros de extrema esquerda de sua própria coalizão se abstiveram em meio a tensões sobre se a Itália deve continuar enviando soldados ao Afeganistão e o apoio de Prodi a uma ampliação de uma base militar americana em Vicenza, no norte da Itália.

Com apenas uma minúscula minoria, as abstenções mataram a medida, que visava obter o apoio do Senado para a política externa da Itália, e, inesperadamente, condenaram o governo.

"Eu não posso de forma alguma dar meu voto a este governo com esta política externa", disse Fernando Rossi, um senador do Partido Comunista Italiano e um dos dissidentes.

A votação ocorreu no mesmo dia em que o Reino Unido anunciou uma redução substancial no número de seus soldados no sul do Iraque, e uma semana após um comitê do Parlamento Europeu ter emitido um forte relatório criticando os vôos secretos americanos na Europa que levavam suspeitos de terrorismo.

Mas o colapso do governo também refletiu suas próprias fraquezas inerentes, possivelmente sinalizando que a instabilidade política crônica da Itália pode estar saindo da remissão. Em um país que teve cerca de 60 governantes desde a Segunda Guerra Mundial, Prodi presidiu desconfortavelmente uma coalizão de nove partidos díspares, que variavam de católicos moderados a comunistas.

"É muito ruim", disse Roberto D'Alimonte, um professor da Universidade de Florença e um especialista em lei eleitoral. "Nós ainda precisamos chegar a um sistema político funcional. Nós não temos um sistema político funcional."

Há muitas possibilidades sobre o que poderá ocorrer a seguir - e uma delas, mesmo que não imediatamente provável, é a volta ao poder de Silvio Berlusconi, que foi derrotado por Prodi nas eleições do ano passado.

Enquanto ministros se reuniam na noite de segunda-feira para discutir como proceder, os simpatizantes de Berlusconi se reuniram do lado de fora da sede do governo, acenando bandeiras e exigindo a renúncia do governo.

"O país está exposto, por uma maioria que não o é e por um governo incompetente que rejeitou o diálogo parlamentar - uma grave humilhação internacional", disse Berlusconi aos repórteres.

Para uma volta de Berlusconi seriam necessárias novas eleições, o que no momento parece estar vários passos no futuro.

Após aceitar a renúncia de Prodi, o presidente Giorgio Napolitano começará a consultar os partidos políticos na quinta-feira e pedirá para que um deles tente formar um governo.

Muitos analistas políticos acreditam que Prodi receberá uma chance de mudar seu Gabinete de uma forma que agrade os partidos que já compõem o governo. Então pediria por um voto de confiança no Parlamento.

Mas muitos analistas notaram que tal governo permaneceria fraco, com profundas divisões não resolvidas em torno do Afeganistão e da base americana. "Algo quebrou", disse Franco Pavoncello, presidente da Universidade John Cabot daqui e um cientista político. "Esta votação e a reação do governo danificaram a capacidade de Prodi de durar."

Em teoria, o mandato do primeiro-ministro dura cinco anos, mas Berlusconi foi o único primeiro-ministro que durou tanto.

Apesar da fragilidade do governo o torná-lo predisposto a cair a qualquer momento, seu colapso na quarta-feira foi uma surpresa. Por meses o governo enfrentava disputas internas - e suportando ataques de Berlusconi e outros líderes da oposição - sobre questões que variavam do orçamento a uma lei proposta que dá direitos a casais não casados.

Mas a política externa permanece um ponto fraco em particular. Basicamente, Prodi e seus ministros buscaram trilhar um caminho difícil, expressando grande parte do ceticismo na Europa com o presidente Bush e a guerra no Iraque, mas mantendo ao mesmo tempo os laços tradicionalmente fortes da Itália com os Estados Unidos.

Entretanto, os membros de extrema esquerda do governo resistiram fortemente à presença de quase 2 mil soldados italianos no Afeganistão. E no último fim de semana, dezenas de milhares de pessoas compareceram a um protesto contra a ampliação de uma base americana da Otan em Vicenza, apoiada relutantemente pelo governo de Prodi.

As divisões se aprofundaram e na terça-feira, na Espanha, o ministro das Relações Exteriores da Itália, Massimo D'Alema, ele mesmo um ex-primeiro-ministro, pediu ao Senado que endossasse a política externa italiana. Caso contrário, ele disse, o governo deveria "ir para casa", ou renunciar.

Em um discurso longo e passional antes da votação na quarta-feira, D'Alema defendeu a posição de seu governo no Afeganistão e a base em Vicenza, em termos que ele esperava que conquistariam o apoio da esquerda.

"Nós não apoiamos as políticas neoconservadoras do governo americano e não enviamos soldados ao Iraque", ele disse aos seus colegas. "Há uma diferença profunda entre as operações militares no Afeganistão, aprovadas pela ONU, e aquelas no Iraque."

Ele acrescentou que o apoio para a ampliação da base era essencial para as boas relações com os Estados Unidos. "Uma mudança de curso seria um ato hostil contra os Estados Unidos", ele disse.

No final, o governo precisava de 160 votos, mas recebeu apenas 158, com as duas abstenções. Os senadores da oposição vibraram com o resultado, gritando imediatamente: "Renúncia! Renúncia!"

Muitos analistas disseram acreditar que D'Alema, um dos membros mais poderosos e experientes do governo, renunciaria. E enquanto os líderes italianos buscam por uma solução mais ampla nos próximos dias, há várias alternativas para uma mera reforma do atual Gabinete.

A mais drástica, e talvez menos provável, é a convocação imediata de eleições por Napolitano. Mas ele disse que não o fará até que a atual lei eleitoral, implementada por Berlusconi no ano passado, seja mudada. Muitos analistas culpam a lei por virtualmente garantir uma maioria pequena no Senado independente de quem vença, desestabilizando assim o sistema político.

Outra opção é a nomeação de um governo temporário composto basicamente de tecnocratas centristas. A meta seria conduzir a Itália a novas eleições, provavelmente promovendo primeiro uma mudança na lei eleitoral.

Uma possibilidade envolve o ingresso do mais centrista União dos Democratas-Cristãos, um partido há muito aliado, mesmo que desconfortavelmente, de Berlusconi. Enquanto o governo cambaleava na quarta-feira, um líder do partido, Marco Follini, pareceu levantar a possibilidade. "Chegou o momento de promovermos uma centro-esquerda diferente", ele disse aos repórteres.

Mas D'Alimonte notou que o partido não tem cadeiras suficientes para permitir que Prodi se livre dos rebeldes de extrema esquerda de seu próprio partido. A simples adição do partido de Follini permanece uma possibilidade, apesar de D'Alimonte ter notado que pode ser uma receita para disputas ainda mais profundas, já que ele tem muito pouco em comum com os comunistas que derrubaram o governo.

*Peter Kiefer contribuiu com reportagem George El Khouri Andolfato

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