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24/02/2007

Nas profundezas de Yucatan

The New York Times
Stephen Regenold
Nas profundezas de uma caverna de calcário, perto da porta de entrada para o mundo subterrâneo maia, Filomeno Tomay pega uma lanterna e a aponta para o alto em direção à parede da estrutura. "É um cavalo", diz ele suavemente.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times 
Turistas se banham no Cenote Dzinup, uma imensa caverna no meio de Yucatan

Tomay, um robusto guia maia de 66 anos, se postou nas profundezas do Cenote Dzitnup, dirigindo um facho de luz amarelada para que os turistas fossem capazes de ver uma infinidade de formas em uma parede feita de aglomerados de pedra.

Os morcegos esvoaçavam e emitiam guinchos no teto da caverna. O ar era quente e denso, cheirando a enxofre. Através de um corredor abaixo vinham os sons de vozes murmuradas e de pessoas chapinhando na água.

O Cenote Dzitnup, uma imensa caverna abobadada no meio da Península de Yucatan, é uma estranha e esquisita armadilha para atrair turistas, repleta de água clara e profunda, cercada de raízes, cipós e estalactites gigantes que apontam para baixo, rumo a um abismo negro. Os ônibus param no local e deles desembarcam turistas que vêm das praias em Cancun. Turistas alemães despem-se para vestirem sungas antes de darem um mergulho. Lá em cima, meninas vendem lanches, e flanelinhas mirins suplicam para tomar conta dos carros no estacionamento.

Mas vale a pena dar uma parada no Cenote Dzitnup. Situado a sudoeste da cidade de Valladolid, no caminho para as ruínas maias de Chichen Itza, ele é um arquétipo da geologia única de karst (rocha calcária porosa) onipresente na Península de Yucatan, na qual buracos cheios d'água, denominados cenotes, funcionaram literalmente como cisternas para uma civilização.

Corte a floresta até as raízes, retire 10 mil anos de sedimentos e lodo, e o norte de Yucatan se transforma em um tijolo de pedra porosa composto de um bilhão de buracos, achatado como uma tortilha, e onde dificilmente se vê um lago. Os rios são praticamente inexistentes. A estranha geologia da área - um universo subterrâneo de cavernas, túneis de karst e cenotes, alguns deles com centenas de metros de profundidade - criou um cenário encontrado em poucos outros locais do planeta.

"Os cenotes são para o Yucatan o que os Alpes são para a Suíça", afirma Sam Meacham, diretor do Centro Investigador do Sistema Aqüífero de Quintana Roo, ou Cindaq, uma organização científica e educacional sem fins lucrativos com sede em Playa del Carmen. "Estruturas similares existem em outras partes do mundo. No entanto, não com a abundância e a beleza natural que temos aqui".

Meacham, um mergulhador e pesquisador de cavernas que veio de Austin, no Texas, explora as profundezas aquáticas de Yucatan desde 1995, mapeando longas cavernas subaquáticas e estudando os efeitos do desenvolvimento e da poluição sobre o vasto mundo subterrâneo líquido do local. Ele faz parte de um grande grupo de exploradores que procuram entender a história humana e natural da região por meio das lentes do seu submundo aquático.

Durante milhares de anos, atuando como fontes naturais de água inesgotáveis, os cenotes sustentaram a vida humana, e as cidades antigas da área - Coba, Zaci, Mayapan, Chichen Itza - foram construídas nos seus flancos. Uma avançada civilização mesoamericana, composta de templos, pirâmides, salões de dança e estradas pavimentadas, surgiu e prosperou não em um porto marítimo ou às margens de um rio, mas bem no interior, nesses oásis na selva.

Os cenotes, que podem ser cavernas internas como o Cenote Dzitnup ou buracos abertos de paredes escarpadas, se tornaram locais sagrados para os maias. Alimentos, objetos valiosos e corpos sacrificados eram jogados neles como oferendas aos deuses.

Escavações arqueológicas realizadas nos últimos cem anos possibilitaram que se vasculhassem grandes e significantes cenotes, revelando despojos humanos, ouro, jade e inumeráveis pistas de uma civilização há muito extinta.

Mas exploradores como Meachan podem hoje em dia mergulhar e descobrir crânios, vasos e artefatos nos cenotes intocados que pontilham esses sertões aos milhares, criando um registro das descobertas para que os arqueologistas trabalhem depois com elas.

Os turistas que visitam Yucatan bisbilhotam e nadam em dezenas de cenotes gerenciados, praticando mergulho com snorkel ou estudando as cavernas, sozinhos ou com guias, por toda a península. Os mapas da área destacam os cenotes como formações geográficas proeminentes.

Os parques próximos ao oceano perto de Playa del Carmen e de Tulum têm cenotes abertos para a natação, e os turistas e moradores da região saboreiam bebidas geladas à beira de piscinas profundas de água mineral.

No final de novembro, quando Yucatan experimentava uma onda incomum de frio, eu embarquei em um ônibus de segunda classe no centro de Cancun e dei início a uma viagem para o interior e o subterrâneo, tendo cerca de meia dúzia de cenotes no meu itinerário.

Valladolid, uma cidade colonial de 40 mil habitantes localizada sobre rios subterrâneos e cavernas, serviria como a minha base para as aventuras realizadas durante todo o dia nos cenotes próximos.

Deparei-me com 89 degraus escorregadios que levavam à borda de cor azul-marinho do Cenote Zaci, uma cratera úmida a cinco quarteirões do meu hotel em Valladolid. O buraco cercado de cipós - a minha primeira parada na rota dos cenotes - estava aberto ao sol e repleto de pássaros.

Antes de os espanhóis fundarem Valladolid, em meados do século 16, a cidade maia de Zaci floresceu às margens do cenote que tem o seu nome. Hoje em dia o Cenote Zaci é um parque e um ingresso de 15 pesos (cerca de US$ 1,35) possibilita a entrada em um corredor na formação de rocha calcária.

Caminhando por ele, fiz uma pausa para permitir que as minhas pupilas se ajustassem à luz reduzida. A trilha serpenteava por uma caverna até chegar a um anfiteatro de sol. Formigas caminhavam na parede. Vozes ecoavam do abismo abaixo. "Alô, eco", gritou uma pessoa invisível.

Mergulhar na piscina profunda, na qual se diz que vivem peixes cegos, era o meu objetivo número um em Zaci. Porém, uma placa recém-instalada - "Se Prohibe Nadar/No Swimming/Danger" - me dissuadiu de fazer qualquer outra coisa a não ser molhar um dedo do pé.

Em vez disso me sentei em um banco de pedra calcária, procurando imaginar a comunidade maia que viveu à beira do cenote. Assim como outras localidades na região, o profundo buraco de água - cheio de insetos, repleto de excrementos de pássaros e de guano, úmido, arenoso, pegajoso, escorregadio e vaporoso - foi a origem de uma comunidade que prosperou durante centenas de anos.

Até mesmo Chichen Itza - a famosa metrópole maia de pirâmides e templos, que eu visitei no dia seguinte - surgiu de uma selva cerrada à beira de três cenotes. Os cenotes foram a fundação da infraestrutura da cidade, fontes que abasteceram os seus milhares de cidadãos. O Cenote Sagrado, um buraco redondo aberto cheio de cipós e rochas estratificadas, está ligado ao centro da cidade de Chichen Itza por meio de uma antiga estrada pavimentada.

Os primeiros colonizadores europeus de Yucatan também dependiam dos cenotes, e um exemplo disso é encontrado em Valladolid. No Convento de San Bernardino de Siena, um monastério espanhol do século 16 construído sobre um cenote, os fundadores procuraram criar uma comunidade auto-sustentável dotada de hortas, um pomar e um reservatório de água abaixo. Em uma tarde eu fiz uma visita ao local para observar as profundezas aquáticas do monastério, agora coberta pela tampa de um poço.

A minha mais memorável visita a um cenote - o altamente visitado Cenote Dzitnup - foi feita após um trajeto de 15 minutos de táxi a partir da praça central de Valladolid. Dois cenotes ficam na área do parque, sendo a principal dotada de estreitas trilhas subterrâneas, escadarias íngremes, cavernas laterais e um santuário abobadado no qual os raios de sol formam uma coluna de luz que incide sobre uma profunda piscina de água clara e fria.

Eu mergulhei diretamente nela.

A cultura maia considerou durante muito tempo os cenotes como portais para o mundo subterrâneo, uma auto-estrada para ofertas, através da qual eram jogadas as virgens sacrificadas para que caíssem no colo de um deus. Saltando no Cenote Dzitnup - nadando em um lago subterrâneo, 30 metros abaixo do chão da floresta, mergulhando profundamente abaixo do nível d'água - comecei a entender o significado metafísico disso tudo.

"Ele não tem fundo", disse lá de cima um morador da região, referindo-se ao lago negro do Dzitnup. "Ou pelo menos eles nunca encontraram o fundo".

Nadando sob uma estalactite, com a sua extremidade rochosa ligeiramente submersa, imaginei monstros de cavernas e poços sem fundo. Os morcegos esvoaçavam no teto lá em cima.

A água abaixo passava de transparente a azul, depois a negro, até que a coluna de luz se desfizesse nas profundezas do Dzitnup. A luz dava rapidamente lugar à escuridão no portal para mundo subterrâneo dos maias. UOL

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