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25/02/2007

Lembrando Warhol: uma lata de sopa de tomate e um punhado de moedas

The New York Times
Sean D. Hamill e Ian Urbina

Em Bethel Park, Pensilvânia
Acontece há 20 anos, todos os meses: uma lata de sopa de tomate Campbell e um punhado de moedas aparecem sobre a lápide de granito preto. Claire Gibson, que cuida do túmulo de Andy Warhol desde sua morte, que completa 20 anos nesta quinta-feira, diz que nunca descobriu quem deixa os objetos no cemitério católico-bizantino junto à Rodovia 88, perto de Pittsburgh. "Tenho minhas teorias, mas não sei", ela diz.

Serigrafias, esponjas de limpeza Brillo e caixas de lápis de cor são homenagens ocasionais. Mas a lata e as moedas são tão constantes quanto o sol, afirma Gibson.

Um homem colorido enterrado nesse lugar insosso, "Andy", como as pessoas daqui chamam o filho nativo, em oposição ao "Warhol" preferido pelos nova-iorquinos, fundou um gênero de arte que celebrou o passageiro e o superficial. Mas a lealdade da admiração local não poderia ser mais duradoura.

Outras pessoas, geralmente de fora da cidade, também deixam latas. "Mas posso lhe dizer qual é desse visitante", diz Gibson, segurando o saponáceo de lavanda que usa para esfregar as marcas de ferrugem deixadas pelas latas depois da chuva.

A lata e os trocados começaram a aparecer uma semana depois que Warhol foi enterrado. Gibson especula que a pessoa por trás disso provavelmente mora perto do cemitério e talvez tenha origem eslovaca, como Warhol. "Acho simplesmente fiel demais para não ser."

John Warhola, o irmão de Andy, de 81 anos (Andy tirou o "a" final do sobrenome quando foi para Nova York), diz que notou a lata logo após a morte do irmão, mas nunca descobriu quem deixava os objetos, ou o significado das moedas.

O diretor do Museu Andy Warhol em Pittsburgh, Thomas Sokolowski, diz que também fica confuso com esse visitante misterioso, mas lembra que várias pessoas no enterro atiraram moedas sobre o caixão quando foi baixado. "Podem ser moedas para pagar a passagem para o outro lado", imagina Sokolowski.

Na encosta da colina no cemitério São João Batista, onde as únicas pegadas na neve fresca levam até o túmulo onde Warhol foi enterrado ao lado de seus pais, Gibson diz que cuida do túmulo porque foi seu marido quem cavou a sepultura.

"Sinto-me feliz", ela diz, interrompendo-se porque começa a chorar. "Eu não o conheci quando vivia, mas sinto que me aproximei dele após sua morte."

John Warhola se diz surpreso com a continuidade da influência do irmão.

"Ainda não entendo qual é o interesse", diz. "Por que as pessoas continuam a visitá-lo? Por que tanto amor por ele? Pensei que isso fosse parar depois de algum tempo."

Alguns amigos de Warhol em Nova York lamentaram que ele fosse levado da cidade que o tornou famoso, mas a decisão sobre o local do enterro coube ao irmão. Warhol deixou um testamento, mas não especificou onde ou como deveria ser enterrado.

Warhola pensou que, apesar de alguns acreditarem que Warhol desprezava sua cidade natal, ele gostaria de ser enterrado aqui, particularmente junto ao túmulo da mãe. "Achei que seria apropriado", diz.

Ele lembra a frase famosa de Warhol: "Nunca entendi por que quando você morre não desaparece simplesmente; tudo continuaria como antes, só que você não estaria mais lá. Sempre pensei que gostaria que minha lápide fosse lisa, sem nome nem epitáfio. Bem, na verdade eu gostaria que dissesse 'figment' [ficção, invenção]".

Sokolowski diz que o uso da palavra "figment" por Warhol é típica de sua personalidade. "O que atraiu as pessoas para ele e continua atraindo é que ele foi uma autocriação", afirma Skolowski, que conheceu o artista. "É isso que é tão duradouro."

Foi porque o marido de Gibson, Charles E. Gibson, 76, cavou a sepultura de Warhol - 60 centímetros mais funda que o normal, para evitar possíveis saqueadores -, que Warhola pediu que a mantivesse. Ela recebe uma pequena quantia anual da Fundação Andy Warhol em Nova York. Gibson diz que nunca aumentou o honorário e prefere que o valor não seja citado.

O filho do casal, Charles W. Gibson, 45, vai ao cemitério ainda mais que sua mãe, para trabalhos de manutenção ou cavar sepulturas, pelo menos três vezes por mês. Em 27 anos de trabalho no cemitério - Gibson recentemente assumiu o cargo do pai -, ele diz que nunca esteve lá sem que houvesse um fã de Warhol junto ao túmulo ou olhando para o mesmo.

"Em geral são jovens, de 18 a 30 anos, provavelmente estudantes de artes; muitos tipos roqueiros-punks", ele diz. Mas afirma que, ao contrário de sua mãe, não é fã da obra de Warhol. "Nunca a vi, na verdade. Nunca fui ao Museu Andy Warhol. Bem, sou um coveiro... Enterro 300 pessoas por ano."

Apanhando uma ficha de cassino e um exemplar velho da revista "Us" deixados junto à lápide, Claire Gibson, que já foi florista, disse que originalmente colocava na sepultura buquês de gerânios e cravos-de-defunto, "demonstrações mais vistosas", como ela diz, mais fiéis à personalidade de Warhol.

Mas as pessoas os roubavam, por isso agora no inverno ela usa coroas de ramos de pinheiro com simples laços marrons. As tulipas eram sua flor favorita, mas os veados as comiam. Agora ela prefere colocar narcisos no verão, para dar cor, e planta uma íris roxa. "Ela sobressai", diz, e ajuda a orientar as pessoas, que de outro modo poderiam não notar a lápide. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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