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27/02/2007

Demanda por cursos públicos de inglês supera capacidade

The New York Times
Fernanda Santos

em Mount Vernon, Nova York
Duas semanas após se mudar de seu país natal, o Brasil, para cá, Maria de Oliveira se inscreveu em um curso gratuito de inglês em um conjunto comercial neste subúrbio operário, imaginando que com um diploma e três anos como assistente administrativa ela poderia encontrar um emprego nos Estados Unidos desde que falasse a língua.

Nicole Bengiveno/The New York Times 
A brasileira Maria de Oliveira conseguiu entrar no curso financiado pelo governo americano

A mulher responsável pelas aulas no Centro de Preparação de Carreira e da Força de Trabalho de Mount Vernon acrescentou o nome de Maria em sua pasta rosa, no fim de uma lista de espera de 90 pessoas que ocupava sete páginas. Isto foi em outubro. Maria de Oliveira, 26 anos, finalmente conseguiu uma vaga no curso de cinco aulas matinais por semana em 16 de janeiro. "Eu fico imaginando quanto já saberia se não tivesse tido que esperar tanto", disse ela em português.

À medida que imigrantes se fixam cada vez mais longe de centros urbanos - 225 mil se estabeleceram nos subúrbios de Nova York desde 2000, em comparação a 44 mil na cidade - muitos estão esperando meses ou mesmo anos para entrar em cursos de inglês financiados pelo governo, que freqüentemente apresentam lotação excessiva e falta de livros.

A Associação Nacional das Autoridades Latinas Eleitas ou Nomeadas realizou uma pesquisa no ano passado que apontou que, nos 12 Estados que participaram, 60% dos cursos gratuitos de inglês tinham listas de espera, variando de poucos meses no Colorado e Nevada a até dois anos no Novo México e Massachusetts, onde a lista em todo Estado conta com cerca de 16 mil nomes.

O Departamento de Educação dos Estados Unidos contou 1,2 milhão de adultos matriculados em cursos públicos de inglês em 2005 - cerca de um entre 10 dos 10,3 milhões de habitantes nascidos no exterior com 16 anos ou mais que falam inglês "menos do que muito bem" ou nada, segundo números do censo daquele ano. Os recursos federais para tais cursos são igualados em proporções diferentes por recursos estaduais de um Estado para outro, deixando uma colcha de retalhos desigual de programas que defensores dizem não atender à necessidade.

"Nós temos muitas pessoas que precisam destes serviços e que não são atendidas", disse Claudia Merkel-Keller, do Departamento do Trabalho e Desenvolvimento da Força de Trabalho de Nova Jersey, notando que seu Estado possui listas de espera em todos os condados - "do nível iniciante até o proficiente".

Luis Sanchez, 47 anos, um peruano motorista de caminhão de uma distribuidora de cerveja em New Brunswick, Nova Jersey, está no país há 10 anos e na lista de espera de cursos de inglês em Perth Amboy há cinco meses. "Você vive dia a dia, aguardando pelo telefonema avisando que pode freqüentar o curso", disse Sanchez em espanhol, explicando que sabe um pouco de inglês, mas que deseja melhorar sua capacidade de escrever para que possa se candidatar a empregos melhores. "Eu continuo esperando."

É improvável que Sanchez será chamado tão cedo: o Centro Educacional Adulto de Perth Amboy descobriu recentemente que estava operando no vermelho e cancelou nove de seus 11 cursos noturnos de inglês, incluindo todos os níveis iniciantes e intermediários. Em Orange County, Nova York, onde a população imigrante dobrou nos últimos 16 anos, o programa de educação adulto do Conselho de Serviços Cooperativos de Educação deixou de fazer anúncios por temer que seus já cheios cursos para iniciantes ficassem sobrecarregados.

Em Framingham, Massachusetts, a 32 quilômetros a oeste de Boston, centenas de pessoas costumavam passar a noite na fila para se inscreverem no curso Inglês como Segunda Língua, de forma que o programa agora seleciona os estudantes sorteando nomes escritos à mão em uma grande caixa de plástico. "Com a loteria, todos têm a mesma chance", disse Christine Taylor Tibor, diretora do programa adulto de inglês de Framingham. "Infelizmente, é preciso entrar na loteria várias vezes antes de conseguir uma vaga no curso."

Os números do censo mostram que nos Estados Unidos existiam 32,6 milhões de habitantes nascidos no exterior com 18 anos ou mais em 2005, cerca de 18% a mais do que os 27,5 milhões contados em 2000 (e quase o dobro dos 17,1 milhões em 1990). Os gastos federais em educação para adultos, cerca de US$ 580 milhões no ano passado, aumentaram 23% desde 2000 e mais do que triplicaram desde 1990; cerca de 45% do dinheiro é destinado a cursos de inglês.

Mas o financiamento varia enormemente de um Estado para outro, que são obrigados a destinar pelo menos um quarto do que foi fornecido pelo governo federal: Kansas, Nebraska, Oklahoma, Dakota do Sul e Texas destinaram o mínimo em 2003, segundo o Departamento de Educação, enquanto a Califórnia e Connecticut gastaram cerca de sete vezes o valor.

Em Nova York, o Departamento de Educação estadual acrescentou US$ 76 milhões aos US$ 43 milhões do governo federal no ano fiscal de 2005. Naquele ano, segundo um recente relatório do Centro para um Futuro Urbano, um grupo de pesquisa sem fins lucrativos com sede em Manhattan, havia cerca de 86.500 pessoas matriculadas nos cursos de inglês para adultos financiados pelo governo, que atendiam a cerca de 5% dos 1,6 milhão de adultos do Estado com conhecimento limitado de inglês.

No ano passado, os eleitores do Arizona aprovaram uma iniciativa proibindo imigrantes ilegais de se beneficiarem de quaisquer programas financiados pelo Estado, incluindo os cursos de inglês; administradores dos cursos de inglês de vários outros Estados disseram que não pedem documentos quando registram os estudantes, de forma que não sabem quantos deles podem estar ilegalmente no país.

Defensores de mais cursos de inglês dizem que a divisão do financiamento entre os governos estaduais e federal resulta em um sistema de ensino para adultos cuja qualidade e alcance variam enormemente de um local para outro - e fraco em quase toda parte. O senador Lamar Alexander do Tennessee, onde a população imigrante triplicou desde 1990, principalmente devido ao afluxo de mexicanos, patrocinou um projeto de lei no ano passado que daria aos imigrantes legais "vouchers" de US$ 500 para pagarem cursos de inglês, já que muitos dos cursos gratuitos estavam lotados.

"Grande parte da política de educação é prerrogativa dos governos estaduais e locais, mas eu argumentaria que a prerrogativa de ajudar pessoas a aprenderem nossa língua comum é uma responsabilidade federal", disse Alexander, um republicano que foi secretário da Educação no governo do primeiro presidente Bush. "Se facilitarmos para as pessoas aprenderem inglês, elas o aprenderão. Eu acho que isto deveria ser uma prioridade do nosso governo, mas acho que não é." George El Khouri Andolfato

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