UOL Notícias Internacional
 

27/02/2007

Partido do governo do Paraguai enfrenta ameaça de um bispo populista

The New York Times
Larry Rohter

em Assunção, Paraguai
Nenhum partido político atualmente no poder em qualquer parte do mundo está no governo há mais tempo do que o Partido Colorado daqui, nem mesmo a dinastia comunista da família Kim na Coréia do Norte. Mas um bispo católico carismático, recentemente suspenso pelo Vaticano, está ameaçando tal hegemonia e desponta como líder nas pesquisas para a eleição presidencial do próximo ano.

Conhecido como "o bispo dos pobres", o monsenhor Fernando Lugo Méndez foi fortemente influenciado pela Teologia da Libertação, que surgiu na América Latina nos anos 60 e argumenta que a Igreja Católica Romana tem uma obrigação especial de defender os pobres e oprimidos. Mas ele está relutante em se posicionar no espectro político, dizendo que está interessado em soluções, não em rótulos.

"Como estou acostumado a dizer, fome e desemprego, assim como a falta de acesso à saúde e educação, não têm ideologia", ele disse em uma entrevista aqui. "Meu discurso, minha pessoa e meu testemunho estão acima de partidos políticos, cujos próprios membros estão desejosos por mudanças e querem o fim de um sistema que defende interesses partidários estreitos em vez dos interesses do país."

O Partido Colorado é o partido do governo aqui desde 1947. O general Alfredo Stroessner liderou uma ditadura notória pela corrupção e brutalidade de 1954 a 1989, mas, graças ao rígido controle dos favores políticos e da burocracia, o partido conseguiu manter o controle do governo mesmo sob o atual sistema de eleições livres.

Lugo, 55 anos, é um orador cativante tanto em espanhol quanto em guarani, a língua indígena falada pelos camponeses e pobres urbanos que correspondem à maioria da população deste país de 6,5 milhões de habitantes. Em discursos, ele ataca a corrupção e a injustiça dizendo: "Há diferenças demais entre o pequeno grupo de 500 famílias que vive em um padrão de vida de primeiro mundo e a grande maioria que vive em uma pobreza que beira a miséria".

Pesquisas recentes daqui concordam que Lugo se tornou a figura política mais respeitada e popular no país e que está à frente de todos os outros demais candidatos potenciais em tais pesquisas. Mas tanto a Igreja quanto o Estado estão tentando bloquear seu trajeto ao palácio presidencial, o que levou alguns de seus simpatizantes a ameaçaram tomar as ruas caso ele seja desqualificado.

Dom Lugo - ele e seus seguidores usam o título, que é usado pelos bispos na América Latina, apesar de sua renúncia ao clero - ignorou a decisão e declarou sua candidatura neste mês. Autoridades da Igreja responderam com alertas de sanções mais severas, com um bispo paraguaio alertando que ele está "se expondo à punição da excomunhão" a menos que desista.

Com seu status clerical em questão, parece provável que apenas a Suprema Corte ou a Justiça Eleitoral daqui poderão determinar sua elegibilidade para o cargo.

Seus advogados argumentam que o edital do Vaticano não tem valor judicial no Paraguai. Mas tanto o Tribunal Superior quanto a Justiça Eleitoral são considerados aqui submissos ao Partido Colorado e, portanto, inclinados a mantê-lo fora das cédulas.

Os adversários de Lugo buscaram minar seu apoio entre a classe média, que tem respondido fortemente à sua posição anticorrupção, o retratando como um "bispo vermelho" e "padre radical" que inclinará o Paraguai fortemente para a esquerda. Eles sugerem que caso seja eleito, ele imediatamente se alinhará com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e com o presidente da vizinha Bolívia, Evo Morales.

Em entrevistas publicadas, Lugo descreveu o que Chávez chama de "socialismo do século 21" de "interessante e diferente" e "muito estimulante". Mas quando perguntado sobre o que especificamente gosta ali, ele se esforçou para se distanciar do modelo venezuelano e disse que seu relacionamento com a embaixada americana daqui é "muito cordial e aberto" e permanecerá assim caso se torne presidente.

"Para mim, o valor da experiência venezuelana é a dimensão social, a melhor distribuição de riqueza em benefício da maioria pobre", ele disse. Mas tal abordagem, ele disse, também está "vinculada a uma forte dose de estadismo, totalmente a serviço de uma única pessoa" e "uma falta de pluralismo", que "é perigoso para uma verdadeira democracia".

Ele deixou claro seu desconforto com a idéia de ser uma espécie de "salvador" ou "messias" para o Paraguai, como tanto seus seguidores quanto críticos às vezes sugerem. Seu estilo político, dizem aqueles que o observaram, acentua a cooperação em vez do confronto e a liderança colaborativa em vez de um culto da personalidade.

"Como padre, ele tem um bom comando da dinâmica de grupo e também é um organizador soberbo", disse Marcial Riquelme, um sociólogo paraguaio. "Ele sabe como unir pessoas que não gostam umas das outras e então mediar todos estes vários setores para conciliar interesses. Esta é uma habilidade notável em um país onde estamos normalmente agarrando os pescoços uns dos outros." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,84
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,35
    68.594,30
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host