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27/02/2007
Uma canção triste e atualizada, mas nem tanto na terra onde nasceu

Elaine Sciolino
em Lisboa


José de Oliveira berra, às vezes desafinando, as canções melancólicas conhecidas como o fado. Mas o talento questionável não impede o metalúrgico aposentado de 70 anos de se apresentar na Baiúca, pequena taberna e restaurante, cativando - ou talvez mantendo prisioneiros - mais de vinte comensais na platéia após a meia-noite.

Michael Barrientos/The New York Times 
José de Oliveira chega a emocionar os clientes da taberna Baiúca quando entoa um fado

Quando ele canta uma bem conhecida canção que fala de amor, nostalgia e perda, os comensais baixam seus garfos e facas, acompanhando com atenção. Quando um casal ousa sussurrar durante a canção, uma mulher pede que se calem, advertindo com a clássica tirada: "Silêncio! Estão a cantar o Fado."

Este é o ritual do fado, executado noite após a noite em variados graus de autenticidade, qualidade, apelo kitsch e turístico nas tabernas de Lisboa.

Rejeitado por alguns como algo retrovisor e moroso, o fado, palavra que significa destino, tem sido reinventado para se transformar no mais bem sucedido produto de exportação cultural de Portugal. Mas aqui, nas travessas cheias de curvas em Alfama, um dos bairros proletários onde o fado nasceu, as canções são aquelas clássicas, com a mensagem pura e sem adornos.

Oliveira, vestido com traje sombrio e calça social, a gravata atada com firmeza, é um favorito da região. "José não tem uma voz boa, mas ama o fado, respira o fado," diz Henrique Gascon, proprietário da Baiúca. "Às vezes as pessoas choram quando ele canta."

Não há propriamente palco, microfone, refletor, nem mesmo velas. É o tipo do lugar que tem dependurado na porta um cartaz de "Proibido Fumar", e aí dispõe cinzeiros sobre as mesas. Quando a voz de Oliveira pifa de vez, quem assume é João de Jesus, 33 anos, proprietário de uma empresa de extintores de incêndio.

Inspirado, acredita-se, em canções mouras e de escravos africanos, o fado foi transformado pelos marinheiros portugueses no começo do século 19 em um veículo para expressar a dor da solidão e o perigo da vida em alto mar.

Durante a ditadura de 40 anos que dominou Portugal até 1974, o fado esteve associado aos valores rígidos do governo e foi usado para a promoção do nacionalismo.

Quando era primeiro-ministro nos anos oitenta, Mário Soares uma vez levou os jornalistas americanos que viajavam com o presidente Ronald Reagan a uma famosa casa de fado. Mas como esteve no exílio durante a ditadura, Soares, dizem, odiava o gênero.

Até hoje alguns portugueses consideram-no fatalista, sempre a lembrar que Portugal continua sendo a economia de pior desempenho entre os 13 países que adotam o euro. A "saudade", um conceito essencial ao fado que mistura a nostalgia e o anseio associado ao caráter português, é vista também por alguns como obstáculo principal ao progresso.

O primeiro-ministro José Sócrates, que foi eleito de maneira categórica numa atitude de empenho para modernizar Portugal, tem sentimentos conflitantes a respeito do fado. "O Fado tem a ver com nostalgia, com uma tristeza que é muito intimista", disse Sócrates numa entrevista. "Eu não sou propriamente um grande apreciador do gênero." Mas como o fado é um produto legitimamente português, Sócrates também não o abandona. " O Fado", disse, "deve ser tocado no lugar certo, e os cantores devem ser muito especiais, para lhe proporcionar a devida beleza e majestade".

Certamente, há muito canto de fado ruim em Portugal, assim como há muita dança e canto flamenco ruim na Espanha. E às vezes parece que o fado é mais popular entre estrangeiros.

Quando o presidente Bill Clinton visitou Portugal em 2000 ele confessou estar apaixonado pelo fado. "Eu vou promover pelo mundo inteiro a música do fado!", exclamou.

A lendária rainha do fado, Amália Rodrigues, definiu o gênero. Ela vestia o tradicional vestido negro com xale, acompanhada por uma guitarra portuguesa de 12 cordas em forma de pêra. Quando morreu, em 1999, Portugal declarou três dias de luto.

Há mais de uma década, uma geração mais nova de cantores começou a despontar revolucionando o gênero. Mariza, uma diva do fado nascida em Moçambique, que aos 30 anos cantou em dueto com Sting na abertura dos Jogos Olímpicos de 2004 em Atenas, acrescentou em seus desempenhos cellos, pianos, trumpetes, uma atitude mais positiva e roupas mais fashion.

Outra cantora do fado, Kátia Guerreiro, usou a voz para fazer campanha como líder jovem para Aníbal Cavaco Silva durante a bem sucedida campanha dele para a Presidência, em 2006, e também para defender a liberalização das leis do aborto, num referendo em fevereiro.

Já Mísia conta com um violino e interpretações poéticas na inspiração em seu trabalho. "Quando eu decidi me dedicar ao fado meus amigos ficaram horrorizados", ela disse antes de uma apresentação em Paris, onde vive. "Havia o estigma da ditadura, que usou o fado como propaganda para Portugal, divulgando a imagem de um lugar feliz em sua pobreza."

Mísia faz apresentações com simplicidade e desdenha das produções glamurizadas de outros cantores de fado. "Você precisa ter uma voz com textura, com cicatrizes, próxima da vida real", destaca. "Não é o cantar da Virgem Maria. É de Maria Madalena."

Um museu em Lisboa chamado de Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa oferece aos não-iniciados uma história do fado, com antigas fotografias, partituras e trechos de filmes e de programas de televisão.

Nos anos trinta, o governo criou casas de fado para profissionalizar e controlar o movimento. As letras do Fado tinham que ser aprovadas por um censor. O museu, situado num edifício de estilo modernista, apresenta originais com letras datilografadas e assinalados com "x" em tinta vermelha e selos com a marca de "proibida", indicando a desaprovação das autoridades.

Nas ruas hoje em dia, todos da geração mais velha parecem conhecer uma ou duas canções. Não é preciso muito esforço para persuadir um motorista de táxi de Lisboa a cantar - como ocorreria com um gondoleiro veneziano.

Mas não espere isso do primeiro-ministro Sócrates. "Eu prometi a mim mesmo quando entrei para a política que nunca cantaria nem dançaria", diz. "Eu respeito o fado demais, não chegaria ao ponto de imitá-lo."

Tradução: Marcelo Godoy

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