UOL Notícias Internacional
 

28/02/2007

Parece que o relógio de fertilidade bate também para os homens

The New York Times
Roni Rabin
No que concerne a fertilidade e a perspectiva de ter filhos normais, sempre se assumiu que os homens não têm relógio biológico - que, diferentemente das mulheres, eles podem ter o que quiserem, em qualquer idade.

Mas um corpo crescente de evidências está gerando dúvidas sobre essa premissa, sugerindo que, quando os homens envelhecem, eles enfrentam riscos cada vez maiores de ter filhos com anormalidades. Vários estudos recentes estão começando a persuadir muitos médicos de que os homens não devem ser descansados demais quando pensam em adiar o casamento e os filhos.

Até agora, os problemas que se sabiam mais freqüentes com a idade paterna avançada eram tão raros que recebiam pouca atenção do público. Os novos estudos geraram alarme porque revelaram índices mais altos de distúrbios mais comuns - inclusive autismo e esquizofrenia - nos filhos nascidos de homens de 45 a 50 anos. Uma série de estudos também sugere que a fertilidade masculina pode cair com a idade.

"Obviamente há uma diferença entre homens e mulheres; mulheres simplesmente não podem ter filhos depois de certa idade", disse Harry Fisch, diretor do Centro Reprodutivo Masculino da Universidade de Columbia e do Hospital Presbiteriano de Nova York e autor de "The Male Biological Clock" (o relógio biológico masculino). "Mas nem todos os homens têm garantia de que tudo ficará bem", disse Fisch. "A fertilidade vai cair para alguns homens; outros vão continuar férteis, mas não ao mesmo grau, e há um risco aumentado de anormalidades genéticas."

É um assunto delicado. "A idade maternal avançada" é formalmente definida: as mulheres que têm 35 anos ou mais recebem um carimbo de 'I.M.A.' (idade maternal avançada) em seus arquivos médicos para chamar a atenção para os riscos mais elevados que enfrentam. Mas o conceito de "idade paternal avançada" é menos claro. Muitos especialistas estão céticos sobre as últimas revelações e não parecem ter pressa em estabelecer diretrizes ou parâmetros de segurança para possíveis pais, satisfazendo-se em emitir advertências vagas, do tipo "melhor cedo do que tarde".

"O problema é que os dados são muito esparsos, por enquanto. Não acho que haja um consenso sobre qual deve ser a advertência aos pacientes", disse Larry Lipschultz, especialista no campo de infertilidade masculina e ex-presidente da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva.

E muitos homens mantêm sua fertilidade, disse Rebecca Z. Sokol, presidente da Sociedade de Reprodução Masculina e Urologia. "Em homens com mais de 50 ou 40 anos, sim, há um declínio no número de espermatozóides sendo produzidos e pode haver um declínio na quantidade de testosterona", disse Sokol. Mas em geral, acrescentou, "o esperma consegue cumprir o serviço".

Alguns, entretanto, ficam felizes com a atenção dedicada à questão de fertilidade masculina, dizendo que já acontece tarde e acrescentando que pode igualar o campo entre homens e mulheres em seu jogo nupcial.

"A mensagem aos homens é: 'acordem e sintam o cheiro do café", disse Pamela Madsen, diretora executiva da Associação de Fertilidade Americana, um grupo de educação e advocacia. "Não são apenas as mulheres, mas vocês também".

"É preciso dois para haver um bebê", disse ela, "e os homens que um dia querem se tornar pais precisam acordar, ler o que existe por aí e assumir sua responsabilidade. Não vejo porque tanta surpresa", acrescentou Madsen. "Todo mundo envelhece. Por que os espermatozóides seriam as únicas células a não envelhecerem quando os homens envelhecem?"

Análises de amostras de esperma de homens saudáveis revelaram mudanças com a idade, inclusive maior fragmentação de DNA, e alguns estudos fora dos EUA observaram maiores índices de alguns cânceres em crianças de pais mais velhos.

Geneticistas têm consciência, há décadas, de que o risco de certos defeitos raros de nascimento aumenta com a idade do pai. Um dos distúrbios mais estudados é de uma forma de nanismo chamada acondroplasia, mas a lista inclui também neurofibromatose, a síndrome de Marfan dos tecidos conjuntivos, anormalidades do crânio e faciais como a síndrome de Apert e muitas outras doenças.

"Há muito tempo que advertimos que, com o aumento da idade paterna, há maior freqüência de novas mutações", disse Joe Leigh Simpson, presidente eleito do Colégio de Genética Médica dos EUA.

Alguns estudos sugerem que o risco de mutações de um único gene pode ser quatro ou cinco vezes mais alto em pais com 45 anos ou mais, comparado com pais de 20 anos, disse Simpson. No total, ter um pai mais velho aumenta o risco de defeito de nascimento em 1%, estima-se, contra um background de risco de 3% de defeito de nascença, disse ele.

Até netos podem ter maior risco de algumas condições que não são expressadas na filha de um pai mais velho, como a distrofia muscular de Duchenne, alguns tipos de hemofilia e síndrome de X frágil, de acordo com o Colégio Americano de Genética Médica.

Um recente estudo sobre autismo atraiu atenção por causa de suas revelações impressionantes. Pesquisadores analisaram um grande banco de dados militar israelense e determinaram se havia correlação entre a idade do pai e a incidência de autismo e distúrbios relacionados. Concluiu que filhos de homens que se tornaram pais com 40 anos ou mais tinham 5,75 mais vezes chance de ter um distúrbio tipo autismo do que os pais mais jovens do que 30.

"Até agora, a opinião dominante era: 'culpe a mãe'", disse Avi Reichenberg, principal autor do estudo, publicado em setembro no periódico The Archives of General Psychiatry. "Mas encontramos uma relação de dose e resposta: quanto mais velho o pai, maior o risco. Acreditamos que há um mecanismo biológico ligado aos pais mais velhos."

O estudo teve controles relacionados à idade da mãe, ao ano de nascimento da criança e a fatores socioeconômicos, mas os pesquisadores não tinham informações sobre traços autistas dos pais.

Um estudo sobre esquizofrenia revelou que o risco de doença é o dobro entre crianças de pais com mais de 45 anos quando comparadas com filhos de pais com menos de 25 e quase três vezes maior em crianças nascidas de pais com mais de 50 anos. Esse estudo também foi feito em Israel, que mantém o tipo de banco de dados grande e centralizado necessário para tal pesquisa. Neste caso, os pesquisadores usaram os dados de 87.907 nascimentos em Jerusalém, entre 1964 e 1976, e associaram-nos com o registro psiquiátrico israelense.

Os pesquisadores controlaram a idade da mãe, mas não tinham informações sobre a história psiquiátrica da família. De acordo com os cálculos do estudo, o risco de esquizofrenia era de um em 141 filhos de pais com menos de 25 anos, um em 99 para pais de 30 a 35 anos e um em 47 para pais com mais de 50 e mais velhos. O estudo não revelou associação entre pais mais velhos e outras condições psiquiátricas.

"Quando nosso artigo saiu, todo mundo disse: 'Eles devem ter se enganado", disse um autor do estudo, Dolores Malaspina, diretora do departamento de psiquiatria do Centro Médico da Universidade de Nova York. (Malaspina também estava envolvida no estudo de autismo).

Mas estudos em outras partes tiveram conclusões similares: um aumento em três vezes na esquizofrenia entre os filhos de pais mais velhos. "O fato é tão similar em torno do mundo que parece se dever ao envelhecimento biológico", disse ela. "Quando envelhecemos, fazemos as coisas menos bem, e há problemas, e isso inclui a produção de esperma."

Diferentemente das mulheres, que nascem com um estoque de óvulos para a vida toda, os homens estão constantemente produzindo espermatozóides. Mas o espermatogônio - a célula-tronco imatura na testes que repõe o esperma - está constantemente se dividindo e replicando, e cada rodada de divisão cria outra possibilidade de erro.

Enquanto as mulheres têm apenas cerca de 24 divisões nas células que produzem seus óvulos, as células que criam o espermatozóide sofrem cerca de 30 rodadas de mitose antes da puberdade e aproximadamente 23 replicações por ano, da puberdade em diante. Quando o homem chega aos 50, as células que criam seu esperma passaram por mais de 800 rodadas de divisão e replicação.

"É como uma fábrica de lâmpadas", disse Reichenberg, autor do estudo de autismo. "Você pode fabricar um bilhão de lâmpadas, mas algumas serão defeituosas. Quando você está fabricando algo com tanta freqüência, em quantidades tão grandes, as chances de erro são muito altas."

Críticos dizem que os estudos encontram uma associação, mas não provam uma relação causal entre o material genético de um pai mais velho e autismo ou esquizofrenia e notam que outros fatores relacionados a ter um pai mais velho podem estar em jogo, inclusive diferentes estilos de paternidade. Outra possibilidade é que a própria doença mental do pai ou tendências autistas seriam responsáveis pelo casamento mais tardio e pelo efeito no filho.

Há outros estudos, entretanto, sugerindo implicações para pais mais velhos. Uma pesquisa de Malaspina e Reichenberg, também usando dados do exército israelense, revelou uma correlação entre um pai mais velho e índices menores em testes de QI não verbais.

Fisch, autor de "The Male Biological Clock", analisou um banco de dados do Estado de Nova York e concluiu que pais mais velhos acrescentavam ao risco de ter um bebê com síndrome de Down se a mãe tivesse mais de 35 anos. (A idade do pai parecia não ter efeito se a mãe fosse mais jovem; mulheres mais jovens podem ter compensado pelos problemas do homem mais velho). O artigo concluiu que a idade paterna era um fator que contribuía em 50% dos casos de síndrome de Down em bebês nascidos com mães com mais de 40 anos.

Enquanto isso, os cientistas relataram que as contagens de espermatozóides declinam com a idade e que o espermatozóide começa a perder a mobilidade e habilidade de nadar em linha reta. Os pesquisadores também informaram um aumento constante na fragmentação do DNA do espermatozóide com a idade do homem, com um aumento de 2% a cada ano na mutação genética associada à acondroplasia, síndrome do nanismo. Eles não encontraram correlação entre a idade avançada e as mudanças cromossomiais que causam a síndrome de Down, mas sugeriram que uma pequena porção de pais mais velhos pode ter risco maior de transmitir defeitos genéticos múltiplos e cromossomiais.

As mudanças são graduais, e não precipitadas, disse Brenda Eskenazi, diretora do Centro de Pesquisa em Saúde Infantil da Universidade da Califórnia em Berkeley. Alguns pesquisadores sugeriram que, diferentemente dos relógios biológicos femininos, que param por completo e a fertilidade acaba na menopausa, os relógios masculinos podem ir atrasando aos poucos.

Então o que deve fazer o homem?

"Acho que o que estamos dizendo é que os homens também devem se preocupar com a idade", disse Eskenazi. "Realmente não sabemos quais são os efeitos integrais da idade do homem em sua capacidade de produzir filhos viáveis e saudáveis."

Fisch diz que hábitos saudáveis, exercícios regulares e uma dieta equilibrada podem ajudar a preservar a fertilidade. Ele adverte contra o tabaco e anabolizantes e banhos em banheiras muito quentes, que podem danificar o esperma.

Se pressionado, disse ele, "eu diria às pessoas: 'se vão ter filhos, antes cedo do que tarde'". "Não importa o que aconteça", acrescentou, "o relógio biológico vai continuar rodando". Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h40

    0,41
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -1,00
    65.010,57
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host