UOL Notícias Internacional
 

02/03/2007

Fábrica de papel se transforma em campo de batalha comercial entre Estados Unidos e China

The New York Times
Steven R. Weisman

em Luke, Estado de Maryland
Durante anos os moradores dessa localidade economicamente deprimida na região dos Apalaches assistiram ao fechamento seguido de manufaturas de tecidos, fábricas de vidro e de pneus. Agora a sua única grande fábrica restante - "o último soldado de pé", conforme diz o gerente de produção da fábrica de papel - está sendo ameaçada pela importação de papel barato fabricado na China.

Jeff Swensen/The New York Times 
A Luke Paper Mill está ameaçada pela crescente importação de papel fabricado na China

"Ainda somos o motor econômico de toda esta área", afirma Scott Graham, o gerente de produção, referindo-se ao vale do rio e às colinas cobertas de florestas em torno da fábrica. "Mas as nossas operações não podem competir com essas importações mais baratas que o custo de produção".

Essa é uma história familiar na luta do parque industrial norte-americano para fazer frente à globalização, mas esta história em particular pode ter um final diferente.

Os problemas referentes às fábricas de papel aqui e em outros locais do país se transformaram em um experimento para determinar como seria um possível novo confronto comercial entre Estados Unidos e China. Um confronto que muitos funcionários do setor e membros do Congresso esperam que gere novas tarifas sobre importações, não só no que diz respeito ao papel feito na China, mas também ao aço, mobiliário, têxteis e plásticos.

Nas próximas semanas o Departamento de Comércio deverá decidir se impõe tarifas sobre o papel brilhante conhecido como "coated paper" - o mesmo tipo feito aqui em Luke - que é importado da China. Vários especialistas em comércio no Congresso e na indústria acreditam que tal medida será implementada. De fato, a China recorreu antecipadamente à justiça para conter essa ação.

Caso sejam impostas, as tarifas se constituirão em um importante precedente, revertendo 20 anos de uma política comercial norte-americana consagrada segundo a qual os Estados Unidos se abstiveram de fazer acusações de que "economias que não respeitam o mercado", como a China, estariam concedendo subsídios ilegais. Neste caso levado ao tribunal, a China argumenta que a mudança de tal política sem uma legislação ou um processo regulatório integral seria ilegal.

A decisão do governo Bush de enfrentar a questão dos subsídios ocorre em um momento de crescentes pressões por parte do Congresso para a adoção de uma postura mais dura em relação ao comércio. De fato, o déficit comercial norte-americano com a China se expandiu no ano passado para o montante recorde de US$ 232,5 bilhões - o que representa cerca de um terço do déficit comercial total norte-americano. Os democratas avisam que se o Departamento de Comércio não agir, eles aprovarão uma legislação impondo as sanções.

Vários legisladores dizem que já é hora de deixar de tratar a China com luvas de criança, argumentando que Pequim não merece mais uma "carona" que possibilita que se beneficie de uma isenção geralmente indisponível para o Japão, a Europa e outras potências industriais avançadas.

"Estou feliz com o fato de o governo estar finalmente fazendo algo", disse o deputado Sander M. Levin, democrata por Michigan, diretor do subcomitê de comércio do Comitê de Formas e Meios da Câmara. "Ele está começando a reconhecer que houve uma eleição no ano passado".

Os problemas enfrentados pela fábrica de Luke são os mesmos que afligem outras velhas unidades industriais. Mas a NewPage Corporation, a companhia proprietária da fábrica e a maior produtora do papel de alta qualidade, argumenta que não ficou parada frente à competição estrangeira.

Graham, o gerente de produção, cujo avô ajudou a misturar o concreto para a construção das chaminés de 200 metros de altura da fábrica, observa que em sete anos a unidade investiu centenas de milhões de dólares em equipamento computadorizado, ao mesmo tempo em que reduziu o número de funcionários de 1.500 para 1.000, tendo ao mesmo tempo aumentado a sua produção em um terço.

Embora as companhias chinesas também utilizem equipamentos modernos, a NewPage sustenta que a vantagem real dos chineses resulta dos subsídios. Estes usam doações do governo para modernização, empréstimos de baixo custo, perdão de dívidas, isenções fiscais para companhias comprometidas com a exportação e subsídios para os fornecedores de madeira e polpa.

A fatia de mercado da China no setor de "coated paper" ainda é pequena, mas em vez de esperar até que os produtores chineses dominem o negócio - assim como fizeram nos setores de brinquedos e roupas íntimas - os defensores da fábrica de papel estão esperando conseguir bloquear aquilo que vêem como uma competição injusta antes que seja muito tarde.

O envolvimento da NewPage com a estratégia do Departamento de Comércio não foi acidental. No ano passado o departamento informou discretamente aos críticos das políticas comerciais da China que estaria disposto a rever a sua antiga política de não contestar os subsídios chineses como ilegais, caso fosse apresentado um caso indubitável.

Os advogados da NewPage alegam que os produtores chineses cobram US$ 800 por um rolo de papel de qualidade média, contra os US$ 1.000 cobrados por um produto similar por uma companhia norte-americana. O diferencial de preços por si só não se constitui em uma prova de irregularidade, mas ele tem permitido aos produtores chineses aumentar a sua participação no mercado norte-americano de menos de 1% em 2000 para 5,4% no ano passado, segundo a companhia.

De acordo com as complicadas regras de comércio, os países podem impor tarifas segundo duas circunstâncias: caso se constate que o produto importado é alvo de "dumping", ou venda abaixo dos custos de produção; ou se certos subsídios ilegais estiverem envolvidos na operação.

A primeira categoria de tarifas - no sentido de resguardar o país contra o "dumping" - é imposta, apresentada como ameaça, contestada, usada como retaliação e, finalmente, negociada, com freqüência. Os Estados Unidos e a China se acusam mutuamente com freqüência de praticarem "dumping", de aplicarem tarifas anti-dumping e de serem beneficiados no caso do "coated-paper".

No entanto, o que torna este caso significante é o fato de o departamento ter anunciado em novembro passado que também estava avaliando se aplicaria outras tarifas a fim de punir a China pela adoção de subsídios ilegais.

As tarifas anti-dumping geralmente são baixas. Mas se as tarifas anti-subsídios forem impostas, elas poderão dobrar o preço do papel chinês, eliminando o produto inteiramente do mercado, afirmam os advogados do governo chinês.

O Departamento de Comércio deverá anunciar a sua decisão até 2 de abril. O argumento em favor da alteração de política é que a China se tornou um ator grande e agressivo no cenário econômico mundial, e que uma política criada quando Pequim estava apenas começando a se afastar do comunismo - e os seus subsídios praticamente não criavam transtornos - está defasada.

Franklin L. Lavin, o subsecretário de comércio para negociações internacionais, disse que não pode fazer comentários sobre o mérito da questão, mas afirmou que a questão política não desempenhou papel algum na decisão de investigar o que está ocorrendo.

"Observem os acontecimentos em ordem cronológica", disse ele. "Esta não foi uma resposta às eleições parlamentares ou à política. Trata-se de uma resposta ao fato de a China de hoje ser muito diferente da China de 15 anos atrás".

Os advogados que cuidam do caso para o governo chinês e para várias companhias chinesas afirmam que os subsídios estão na verdade sendo contabilizados duas vezes, uma na investigação anti-dumping e a outra nas ações anti-subsídio.

"O temor é de que o caso seja explorado por uma indústria após a outra", diz William H. Barringer, um parceiro da Vinson & Elkins, que representa o governo chinês nessa questão. "O primeiro pessoal a bater na porta será o do setor siderúrgico. Caso essas medidas sejam aprovadas, a China terá muita dificuldade em se defender em todos esses casos".

Caso a China perca o caso no tribunal, ela contará com a opção de entrar com dois tipos de apelação: uma junto à Corte de Apelações dos Estados Unidos e a outra junto à Organização Mundial de Comércio, em Genebra. Os advogados da China dizem que Pequim optará pelas apelações, em vez de impor quaisquer medidas retaliatórias contra os produtos norte-americanos. UOL

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