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02/03/2007

Presidente iraniano planeja viagem à Arábia Saudita

The New York Times
Hassan M. Fattah e Nazila Fathi*

Em Dubai, Emirados Árabes Unidos
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, visitará a Arábia Saudita no fim desta semana para um encontro de cúpula com o rei Abdullah sobre a crescente crise sectária e política no Oriente Médio, disseram funcionários iranianos na quinta-feira.

A visita, a primeira oficial de Ahmadinejad à Arábia Saudita, foi uma iniciativa do Irã, disse uma ex-autoridade saudita com conhecimento das discussões. Ela marca a culminação de meses de esforços diplomáticos das duas potências regionais, assim como de outros países árabes, para resolver o impasse político no Líbano, esfriar a violência sectária no Iraque e possivelmente evitar até mesmo um possível confronto com os Estados Unidos.

Para alguns, a viagem é vista como uma medida defensiva por parte de um Irã cada vez mais isolado, enquanto para outros ela marca o início de outra ofensiva de relações públicas para o presidente belicoso.

"Quando a visão dos dois países se aproximar, eles poderão exercer um papel influente na situação caótica do mundo islâmico e do Oriente Médio", disse Mohammad Hosseini, o embaixador do Irã na Arábia Saudita, para a agência oficial de notícias iraniana, Irna. "A inquietação está aumentando no Oriente Médio e se a situação continuar, ela se tornará uma ameaça para todos os países da região."

Uma autoridade saudita confirmou a visita de Ahmadinejad, que incluirá um encontro com Abdullah, mas a agência oficial de notícias saudita, SPA, não mencionou a viagem, dando peso à teoria de que a visita foi uma iniciativa iraniana.

Rumores de um provável encontro entre os dois líderes circulavam na Arábia Saudita na última semana, disseram vários analistas, mas a data exata parece ter sido acertada na quinta-feira, poucos dias antes da ONU começar a deliberar sanções mais severas ao Irã por seus contínuos esforços de enriquecer urânio em violação às resoluções da ONU.

O anúncio também ocorre apenas dois dias depois dos Estados Unidos terem concordado a princípio em realizar um encontro de alto nível com os vizinhos do Iraque, incluindo o Irã e a Síria, para ajudar a estabilizar o Iraque, preparando o palco para o contato de mais alto nível entre autoridades americanas e iranianas em mais de dois anos.

A decisão americana de participar de tal encontro regional em Bagdá, Iraque, em 10 de março, não está ligada às negociações entre sauditas e iranianos, disseram funcionários americanos. Eles disseram não estar incomodados com os planos do encontro de cúpula apesar de sua forte desconfiança de Ahmadinejad.

Abdullah e Ahmadinejad deverão discutir formas de acabar com o impasse político no Líbano entre o governo de Fouad Siniora, apoiado pelos Estados Unidos, e o Hizbollah, que conta com apoio do Irã. Ambos os países também estão preocupados com a possibilidade das crescentes tensões sectárias no Iraque, Líbano e em outras partes da região poderem alimentar ainda mais instabilidade.

"A última visita de uma autoridade iraniana a Riad foi a do chefe de segurança nacional, Ali Larijani, no mês passado, mas os iranianos acabaram se sentindo bastante insatisfeitos", disse Adel al Toraifi, um analista saudita em Riad com laços estreitos com o governo.

Especialistas disseram que as conversações emperraram quando os iranianos recuaram diante de um acordo que aumentaria a representação do Hizbollah no governo, mas que também lançaria um tribunal internacional para julgar os suspeitos ligados ao assassinato do ex-primeiro-ministro libanês, Rafik Hariri, em 2005, uma prioridade saudita.

O Hizbollah tomou as ruas de Beirute, Líbano, em dezembro, exigindo uma maior participação no governo e ameaçando continuar seu protesto até a renúncia de Siniora ou a concessão de mais cadeiras no Gabinete aos seus aliados.

"Os iranianos querem chegar a um entendimento com os sauditas", disse Khaled Dakhil, professor de sociologia política da Universidade Rei Saud, em Riad. "Os iranianos querem a ajuda dos sauditas na frente nuclear e querem melhorar as relações entre a Síria e a Arábia Saudita."

Outros prováveis itens da agenda são encontrar uma conclusão pacífica para o impasse com a comunidade internacional. O Irã busca enfatizar a seus vizinhos no Golfo Pérsico que se os Estados Unidos os atacarem, eles também serão afetados, disseram analistas.

Os seis países do Golfo Pérsico que compõem o Conselho de Cooperação do Golfo insistiram com o Irã que cumprirão as resoluções do Conselho de Segurança da ONU e estão preparados para se defender.

"Eles querem transmitir duas mensagens -'É ruim para a região; se formos atacados vocês serão afetados'", disse Abdelaziz Sager, presidente do Centro de Pesquisa do Golfo, pró-saudita, em Dubai, sobre os iranianos. "A outra mensagem é: 'Se vocês tiverem uma forma fácil de resolver esta crise, nos digam qual é.' Eles sabem que a melhor coisa que pode acontecer a esta altura é serem atacados pelos americanos."

Com o Irã posicionado a obter ganhos com duas possíveis guerras civis no Oriente Médio - uma no Iraque e outra potencial no Líbano - a Arábia Saudita abandonou nos últimos meses sua diplomacia de talão de cheques nos bastidores para assumir um papel central, mais agressivo, na moderação dos conflitos da região.

O reino aumentou seu envolvimento público no Iraque e seu apoio ao governo liderado pelos sunitas no Líbano, e no mês passado foi anfitrião de um encontro do Hamas e do Fatah em Meca, Arábia Saudita, para a solução das diferenças entre as facções palestinas adversárias e a formação de um governo de unidade nacional.

As conversações no encontro de cúpula no fim de semana podem ser um sinal de que a nova diplomacia da Arábia Saudita pode estar começando a surtir efeito.

"É uma questão de puro interesse e os iranianos entendem isto muito bem e têm seus próprios interesses a proteger", disse Osama Safa, chefe do Centro Libanês para Políticas, um centro de pesquisa. "Os sauditas têm várias cartas na mão a esta altura e serão usadas quando Ahmadinejad vier à Arábia Saudita."

Em Teerã, muitos se mostravam céticos sobre a importância política da viagem de Ahmadinejad. As autoridades sauditas tinham boas relações com antigos presidentes iranianos, como Mohammad Khatami e Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, mas Ahmadinejad se tornou uma ameaça política após sua feroz retórica contra Israel e seu apoio aos palestinos começarem a repercutir nas ruas árabes.

"Riad sabe que se quiser ter discussões sérias com o Irã, ele terá que fazê-lo diretamente com Khamenei, ou por intermédio de Larijani ou Velayati", disse Abbass Abdi, um analista político em Teerã, Irã, falando sobre o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, e Ali Akbar Velayati, um ex-ministro das Relações Exteriores e um político mais moderado que é próximo de Khamenei. "Esta viagem é mais uma exibição para Ahmadinejad dizer que o Irã não é um país isolado."

*Reportagem de Hassan M. Fattah em Dubai, Emirados Árabes Unidos, e Nazila Fathi, em Teerã, Irã. Nada Bakri, em Beirute, Líbano; Rasheed Abou Alsamh, em Jidda, Arábia Saudita; e Helene Cooper, em Washington, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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