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03/03/2007

Argentina contempla custódia compartilhada de seu cargo máximo

The New York Times
Larry Rohter

em Buenos Aires, Argentina
Nos círculos políticos daqui, ultimamente uma única pergunta está sendo feita de forma incessante: ele ou ela? Será que o presidente Nestor Kirchner concorrerá a um segundo mandato ou será que ele, como parece cada vez mais provável, se retirará e permitirá que sua esposa, a senadora Cristina Fernandez de Kirchner, se torne a candidata peronista?

Seria altamente incomum para um chefe de Estado em uma situação tão favorável quanto a de Kirchner deixar voluntariamente o cargo. A economia argentina está crescendo 8% ou mais a cada ano desde que ele assumiu o poder em 2003 e, conseqüentemente, dois terços dos argentinos aprovam sua atuação.

Mas o casal Kirchner parece estar apostando muito mais alto do que apenas na eleição de 28 de outubro e nos próximos quatro anos, argumentam analistas políticos. Em vez disso, o objetivo deles supostamente seria se revezarem no cargo por pelo menos os próximos doze anos.

Os limites de mandato na Argentina são de certa forma semelhantes aos dos Estados Unidos, com uma importante diferença. Os presidentes argentinos daqui são restritos a dois mandatos consecutivos de quatro anos, mas podem retornar após quatro anos fora do cargo e concorrer novamente - apesar de ninguém ainda ter conseguido tal feito.

"Se ele for eleito para um segundo mandato agora, a disciplina do partido se romperia e Kirchner perderia rapidamente o poder", disse Joaquín Morales Solá, o principal colunista político do jornal conservador "La Nación". "Esta é a forma que encontraram para evitar o enfraquecimento dele no segundo mandato: criar a possibilidade de oito anos de Cristina e então a volta dele".

O movimento peronista tem uma tradição, é claro, de casais no poder que remonta 60 anos, ao general Juan Domingo Perón e sua esposa, Eva, a ex-atriz que se tornou ídolo das massas pobres "descamisadas" da Argentina. Mas analistas políticos sugerem que uma analogia mais apropriada para o casal Kirchner seria a de Bill e Hillary Clinton.

Cristina Kirchner, 54 anos, uma advogada que já serviu em ambas as casas do Congresso, é uma das conselheiras de maior confiança do marido e talvez a única capaz de criticá-lo sem sofrer conseqüências em sua carreira. Um visitante estrangeiro se recorda de estar com o presidente em uma reunião quando Cristina Kirchner telefonou para repreendê-lo por algo que disse em público naquele dia; a resposta de Nestor Kirchner foi escutar silenciosamente e concordar respeitosamente.

Em um comício em estádio em 24 de fevereiro, nos subúrbios de Buenos Aires, ao qual Cristina Kirchner não compareceu, os peronistas certamente agiam como se ela já fosse a candidata deles. Cerca de 20 mil pessoas carregavam bandeiras com slogans como "Com Cristina à vitória" e "Cristina presidente, Kirchner líder".

"Nós teremos Cristina Kirchner como nossa porta-bandeira, sendo empossada como presidente em 10 de dezembro", disse Carlos Kunkel, um membro do Congresso e um dos oradores. "Esta é a vontade de nós todos."

As recentes viagens de Cristina Kirchner ao exterior também sugerem que ela está sendo preparada para suceder seu marido. Ela viajou com ele para um encontro do bloco comercial Mercosul no Brasil, em janeiro, foi sozinha a Paris no mês passado, onde se encontrou com o primeiro-ministro e com os dois principais candidatos presidenciais de lá, e dizem estar planejando uma viagem aos Estados Unidos em abril.

Mas também há sinais de que alguns segmentos tradicionais do movimento peronista, apesar de dispostos a aceitar mais quatro anos de Nestor Kirchner, que tem 57 anos, não estão contentes com a perspectiva de Cristina Kirchner como substituta.

O ex-presidente Eduardo Duhalde, que escolheu Nestor Kirchner como seu sucessor, mas se tornou um de seus principais críticos, não respondeu aos pedidos de entrevista, mas declarou suas objeções à imprensa argentina.

"Em geral, eu nunca apoiaria alguém sem experiência", ele disse ao "Clarín", um jornal da capital. "Eu acredito, como costumam os americanos, que para se tornar presidente é preciso ter experiência administrativa. E Cristina não tem a experiência administrativa para ser presidente."

As pesquisas apontam consistentemente que Cristina Kirchner venceria com cerca de 10 pontos percentuais a menos do que seu marido em uma eleição presidencial. A maior popularidade dele poderá ser importante e forçá-lo a buscar um segundo mandato. Mas no momento, a oposição aqui está tão fragmentada e desorganizada que apenas um candidato, Roberto Lavagna, um ex-ministro da economia, aparece como uma possível ameaça.

"No momento, ambos são vencedores, apesar de ele ser mais difícil de ser derrotado", disse Felipe Noguera, um analista e consultor político daqui. "Ele é um presidente muito bem-sucedido, mas se olhar ao redor na América Latina, segundos mandatos tendem a não se saírem tão bem."

Além disso, fingir indiferença aos atrativos do poder aumenta a popularidade de Nestor Kirchner. "A vida e história de uma pessoa não depende de uma eleição", ele disse recentemente em um discurso.

Apesar da popularidade de Nestor Kirchner, há riscos em sua estratégia. O mais óbvio, disseram analistas políticos e economistas daqui, é o crescimento da pressão inflacionária que ele segura por meio do controle de preços e tarifas de exportação, que poderá explodir no início do próximo mandato, independente de qual Kirchner se torne presidente.

"Isto acabará mal, todos sabem, mas quando?" perguntou Rosendo Fraga, diretor do Centro para uma Nova Maioria, uma firma de pesquisa política e militar daqui. "Enquanto isso, a economia está acumulando superávits que permitem ao presidente formar seu poder político" por meio do sistema peronista tradicional de favores políticos.

No início de fevereiro, o governo foi acusado de manipular o índice oficial de inflação, após a substituição do funcionário encarregado do cálculo do índice. O número oficial foi de 1,1%, mas economistas e analistas do mercado de ações, mais de 200 dos quais assinaram uma declaração dizendo que as mudanças de pessoal e metodologia "geram desconfiança", argumentam que o índice real poder ter sido mais que o dobro disto.

Ninguém exceto os próprios Kirchners - e talvez nem mesmo eles - parece saber por quanto tempo o jogo de espera pela candidatura presidencial continuará. Pela lei, a decisão final não é exigida até dois meses antes da eleição, o que dá a Nestor Kirchner bastante tempo para aumentar o suspense.

"Não há necessidade para que ele se defina agora, nem política nem legalmente", disse Fraga. "Fazê-lo significaria perder a liberdade de ação e manobra que ele aprecia." George El Khouri Andolfato

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