UOL Notícias Internacional
 

06/03/2007

Desafiando Chávez, Bush viaja para o Sul

The New York Times
Larry Rohter*

em São Paulo
O presidente Bush chegará aqui na quinta-feira (8/3), trazendo um plano de parceria em energia para criação de empregos e redução da pobreza e desigualdade, uma mudança acentuada nas prioridades de Washington na América Latina, visando responder ao desafio representado pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Andrew Councill/The New York Times 
George Bush disse que os laços entre EUA e AL ajudaram a promover a paz nas Américas

Desde 1990, quando o pai de Bush estava na Casa Branca, a política americana para a região tem se concentrado em acordos de livre comércio e medidas econômicas relacionadas, com uma ênfase secundária no combate às drogas.

Mas a crescente inclinação para a esquerda e uma tendência antiamericana na política regional, liderada por Chávez - que planeja uma contraturnê para coincidir com a viagem de Bush - levou a uma agenda modificada e a um esforço renovado para rebater as acusações dos latino-americanos de que o presidente tem ignorado seus interesses em prol da campanha contra o terrorismo. A viagem será a mais longa de Bush à região.

"Quando algo não está funcionando após 15 anos, há um sinal de que há obstáculos intransponíveis e é hora de mudar de direção", disse Rubens Ricúpero, um diplomata brasileiro e ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, em uma entrevista aqui. "Esta é uma iniciativa muito inteligente por parte dos Estados Unidos, porque não há sentido em atar todo o relacionamento a algo que apenas produziu frustração e estagnação."

Na segunda-feira (5/3), em um discurso em Washington para a Câmara de Comércio Hispano-Americana, Bush disse que os laços entre os Estados Unidos e a América Latina ajudaram a promover a paz e a prosperidade nas Américas. Mas ele também pareceu reconhecer a necessidade de uma maior aproximação com os vizinhos do sul. "O fato é que dezenas de milhões de nossos irmãos e irmãs no sul viram pouca melhoria em suas vidas diárias", disse Bush, "e isso levou alguns a questionarem o valor da democracia."

A primeira parada de Bush será aqui na capital industrial do Brasil. Ele e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, deverão assinar um memorando de entendimento para um programa anunciado recentemente, que pede que os dois países promovam a produção e uso do etanol, um combustível renovável que os brasileiros produzem a partir da cana-de-açúcar. Lula, um ex-líder sindical que comanda o esquerdista Partido dos Trabalhadores, deverá visitar Bush em Camp David no final do mês.

Mas a convergência de interesses estratégicos dos dois países mais populosos das Américas claramente vai além da energia. O Brasil se vê como o líder natural da América do Sul, e não a Venezuela. O país também mostrou recentemente sinais de alarme com as compras substanciais de armas por Chávez e irritação com seu envolvimento na vizinha Bolívia, inclusive fornecendo assistência militar e apoio à nacionalização dos ativos de energia brasileiros ali.

"Eu não acho que o Brasil aceitará a idéia de ser qualquer tipo de delegado americano na região, ou de moderar ou conter Chávez", disse Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil de 1995 a 2000. "Mas os Estados Unidos querem apoiar Lula como um contrapeso, para mostrar que é possível ter um governo esquerdista com forte atenção às questões sociais, distribuição de renda e redução da pobreza, sem ser radical."

Bush transmitirá grande parte da mesma mensagem em sua segunda parada, o Uruguai, que assinou um acordo de comércio e investimento com os Estados Unidos em janeiro. Lá, ele e o presidente Tabaré Vázquez, um médico que lidera uma coalizão esquerdista chamada Frente Ampla, planejam se reunir no sítio presidencial para comemorar a saída do Uruguai, com ajuda americana, da crise fiscal de 2002 e discutir como expandir os laços comerciais.

O governo de Vázquez inclui ex-guerrilheiros tupamaros; o grupo guerrilheiro seqüestrou e matou, em 1970, um funcionário americano em Montevidéu. Mas Vázquez, como Lula, migrou para o centro e praticamente abandonou o tipo de retórica inflamada que é a especialidade de Chávez. "É preciso ser pragmático", disse o presidente uruguaio em uma entrevista no ano passado. "Os uruguaios querem empregos que forneçam dignidade, um salário adequado e segurança. Para isso, é preciso crescimento econômico, que só é obtido por meio de produção e investimento."

O itinerário de Bush também inclui paradas na Colômbia e Guatemala, dois países onde surgiram recentemente escândalos políticos que enfraqueceram seus governos pró-americanos. Ele encerrará a viagem no México, na próxima semana, onde a agenda certamente incluirá imigração, uma fonte constante de tensão nas relações entre os dois vizinhos.

Como candidato em 2000, Bush prometeu que "caso me torne presidente, eu olharei para o sul, não como uma reflexão tardia, mas como um compromisso fundamental". Mas após os ataques terroristas de 11 de Setembro, os Estados Unidos rapidamente relegaram a América Latina ao papel secundário que ocupou durante grande parte da Guerra Fria, criando aberturas que Chávez, a China e até mesmo o Irã, mais recentemente, buscaram explorar.

Atualmente, "há uma sensação de que as coisas não vão bem para os Estados Unidos na região", disse Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano, um grupo de pesquisa política e defesa com sede em Washington. "Provavelmente nunca houve tanto antiamericanismo e tão pouca confiança na liderança americana desde a Guerra Fria", agravados pela ascensão de "um adversário tão veemente e razoavelmente eficaz" na forma de Chávez.

Grande parte das autoridades de governo e analistas acadêmicos na América Latina considera certo que os Estados Unidos foram sacudidos a entrar em ação pelos avanços feitos por Chávez. Mas as autoridades americanas contestam tal noção.

"Nós estamos cientes das falhas do governo venezuelano e do tipo de papel de pouca ajuda que exerce em certos países na região", disse o vice-secretário de Estado, John D. Negroponte, em uma entrevista. "Eu acho que a intenção do presidente é acentuar o positivo, falar sobre o positivo - coisas que queremos que aconteçam nas relações com os países que ele está visitando em vez de chamar atenção indesejada para esta questão, que é a Venezuela."

E quando perguntado em uma coletiva de imprensa se a viagem de Bush era "uma turnê anti-Chávez", o conselheiro de segurança nacional, Stephen J. Hadley, disse: "Realmente não é".

Mas Chávez está agindo como se a viagem, que ele zomba como condenada ao fracasso, visasse apenas combater sua influência e respondendo com suas próprias manobras. Enquanto Bush estiver em Montevidéu na sexta-feira, Chávez planeja liderar manifestações anti-Bush do outro lado do Rio da Prata, em Buenos Aires, Argentina, onde tem cultivado um relacionamento cada vez mais amistoso com o presidente peronista daquele país, Nestor Kirchner.

Lá, como em outros pontos das Américas, Chávez tem usado a riqueza do petróleo venezuelano para conquistar amigos e influência. Ele comprou mais de US$ 1,5 bilhão em títulos argentinos, salvou uma exportadora de laticínios em dificuldades financeiras com um investimento incondicional e propôs um novo banco de desenvolvimento regional para fazer empréstimos com juros baixos.

Em comparação, a assistência americana para a região deixa a desejar. Hadley disse que os Estados Unidos quase dobraram a ajuda à região para US$ 1,6 bilhão anuais desde que Bush assumiu a presidência, apesar de ter reconhecido que o número deverá cair no próximo ano fiscal. Mas uma pesquisa recente do Escritório de Washington para a América Latina revelou que grande parte do dinheiro foi destinado à Colômbia para ajuda militar e para o combate às drogas, que o Congresso tem cortado constantemente os pedidos de ajuda e que nem todos os fundos autorizados foram desembolsados.

Na segunda-feira, no que funcionários do governo disseram posteriormente que foi um gesto para mostrar seu compromisso, Bush anunciou novas iniciativas relativamente pequenas que ele pedirá ao Congresso para financiar. Elas incluem US$ 75 milhões para um novo programa de educação promovendo o estudo nos Estados Unidos; US$ 385 milhões para programas promovendo a aquisição de casa própria para famílias de baixa renda; e o desenvolvimento de uma instalação no Panamá para treinamento no atendimento de saúde, para servir toda a América Central.

"Em curto prazo, Chávez tem mais a oferecer porque nossa ajuda é café pequeno", disse Riordan Roett, diretor do programa latino-americano da Universidade Johns Hopkins, em Washington. "Nós estamos falando de centenas de milhares de dólares, enquanto ele está distribuindo um bilhão aqui e um bilhão acolá. É um jogo diferente que jamais enfrentamos na região."

O descarte por Bush de uma atenção voltada quase que exclusivamente para o livre comércio, com seus pedidos de austeridade e sacrifício como condição para acesso ao mercado americano, também reflete realidades políticas domésticas. Sua autoridade para promoção do comércio expirará em julho e há dúvidas quanto à disposição do Congresso de aprovar acordos de livre comércio que foram assinados com a Colômbia, Peru e Panamá.

"Não seria realista esperar muito" da visita de Bush, disse Lampreia, o ex-chanceler brasileiro. "Mas há uma nova abordagem para a América Latina, em grande parte derivada do fato de Chávez estar lá, e uma nova abordagem é que positiva, o que é algo bom."

*Thom Shanker e Jim Rutenberg, em Washington, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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