UOL Notícias Internacional
 

06/03/2007

Discussão vital sobre vacina é obscurecida por preocupações com promiscuidade

The New York Times
Denise Grady
Quando uma doença é descrita como sexualmente transmitida, é tentador assumir que as pessoas que a pegam são promíscuas. O que isso significa é questão de opinião, mas é um rótulo que a maior parte dos pais não gostaria de ouvir aplicado às suas filhas.

Preocupações sobre a promiscuidade nublaram a discussão sobre a vacina de câncer de colo do útero, que foi aprovada no ano passado para meninas e jovens, e que alguns Estados querem que seja obrigatória para alunas escolares. O câncer de colo do útero é causado por um vírus sexualmente transmitido, e há quem diga que uma jovem decente não deveria precisar dessa vacina.

Por exemplo, o grupo cristão "Focus on the Family", em Colorado Springs, diz que em vez disso, a mulher deveria simplesmente evitar o vírus abstendo-se de fazer sexo antes do casamento. Até mesmo alguns que acham a abstinência pouco realista ainda imaginam que esse tipo de doença não acontece com uma menina que teve apenas um ou dois namorados.

É um erro que pode custar a saúde da jovem, sua fertilidade e até a sua vida.

As pessoas não têm que ser promíscuas para contrair o vírus de câncer de colo do útero, um tipo de papilomavírus humano, ou HPV. Esses tipos de vírus, os mais comuns nos EUA entre os sexualmente transmitidos, estão praticamente em toda parte. São antigos, encontraram um nicho ecológico aconchegante no corpo humano e estão ali para ficar.

Milhões de pessoas são portadoras e compartilham-nos com milhões de parceiros sexuais por ano. A relação sexual parece ser a melhor forma de transmiti-los, mas qualquer tipo de contato genital aumenta o risco. O uso de preservativos oferece apenas proteção parcial, porque a pele que não fica coberta pelo preservativo pode estar cheia de vírus. Grande parte do tempo, os vírus não causam problemas, e as pessoas nem sabem que estão infectadas.

"É verdadeiramente quase impossível evitar uma ou mais infecções de HPV, se você decidir ser sexualmente ativo em sua vida", disse Laura Koutsky, professora de epidemiologia e especialista em HPV da Universidade de Washington em Seattle. Parte de sua pesquisa foi paga pela Merck, fabricante da vacina.

O HPV é tão disseminado que Koutsky comparou-o aos vírus que causam o resfriado comum. "Se nos trancamos em casa e não nos associamos com as pessoas, não ficamos resfriados", disse Koutsky. "Se você nunca fizer sexo, não terá HPV. Não está claro se queremos viver assim."

A promiscuidade certamente aumenta o risco, mas Koutsky disse: "Jovens de 20 e poucos anos que tiveram apenas um parceiro têm altos índices de infecção. Só o que é preciso é de um parceiro."

A pessoa pode pegar qualquer infecção sexualmente transmissível com apenas um parceiro, mas as chances de encontrar o HPV são especialmente altas, porque tantas pessoas estão infectadas. "Não é questão de promiscuidade", disse Anna R. Giuliano, professora de medicina e epidemiologia do Centro de Câncer e Instituto de Pesquisa H. Lee Moffitt, em Tampa. "Quanto mais pudermos tirar isso da cabeça das pessoas, mais rápido poderemos estabelecer esforços de prevenção. Tenho medo que as pessoas vão dizer: 'Não, isso não é para mim, não é algo que eu tenha que me preocupar.'"

Giuliano conduziu a pesquisa da vacina para a Merck e deu palestras pagas pela empresa. A abstinência até o casamento pode impedir a infecção pelo HPV, mas só funcionará com certeza se os dois noivos forem virgens e permanecerem monógamos para sempre. "Você também não tem nenhuma garantia - detesto dizê-lo - de que não será estuprada", disse Koutsky. "Se está convencida que pode garantir por sua filha que todas essas atividades vão ou não acontecer, então há boas chances de não haver transmissão de HPV."

Um estudo dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças, publicado na semana passada pelo periódico Journal of the American Medical Association, revelou que o vírus é ainda mais comum nos EUA do que pensavam os pesquisadores. Em meninas e mulheres de 14 a 59 anos, o índice geral de infecção foi de 26,8%, o que se traduz em 24,9 milhões de mulheres infectadas. O mais alto índice foi na faixa etária de 20 a 24 anos - 44%. Antes, os centros de doença tinham estimado um total de 20 milhões de pessoas infectadas, entre homens e mulheres.

"A principal mensagem de prevenção é que as mulheres devem fazer exames Papanicolau de rotina e certas mulheres podem se vacinar", disse Eileen Dunne, primeira autora do estudo e epidemiologista dos centros.

Os pesquisadores estimam que mais de 6 milhões de novas infecções por HPV ocorram por ano, e que ao menos metade de todos os adultos sexualmente ativos foram infectados em algum ponto em suas vidas e que, até os 50 anos de idade, ao menos 80% das mulheres foram infectadas.

Cerca de 40 tipos de papilomavírus humanos prosperam na região genital. Alguns tipos podem causar verrugas genitais e outros, câncer de colo do útero, mas muitas pessoas não têm nenhum sintoma e nem sabem que estão infectadas. Os tipos de vírus que podem causar câncer de colo do útero nas mulheres geralmente não dão problemas nos homens, apesar de poderem provocar câncer de pênis ou ânus. Mas esses cânceres são muito menos comuns do que os de colo do útero. Os homens não têm a menor idéia de que são portadores de vírus de alto risco que impõem uma ameaça as suas parceiras.

A ampla maioria de pessoas infectadas com esses vírus não sofre efeitos nocivos. Na maior parte das pessoas saudáveis, o sistema imunológico combate o vírus. Somente uma pequena percentagem de mulheres que contraem os tipos de vírus que podem causar câncer de colo do útero de fato desenvolvem a doença. Exames regulares de Papanicolau podem detectar o câncer cedo o suficiente para curá-lo, mas algumas mulheres não fazem os exames e, nos EUA, cerca de 4.000 mulheres morrem por ano de câncer de colo do útero. Centenas de milhares precisam de procedimentos médicos dolorosos e intensos para remover crescimentos no colo do útero - pré-tumores ou cânceres em estágios iniciais - causados pelo HPV.

No mundo todo, 240.000 mulheres morrem por ano de câncer de colo do útero, e os pesquisadores dizem que muitas mulheres sem parceiros fora do casamento são infectadas por seus próprios maridos.

Como o vírus é muito comum e como é impossível prever qual mulher desenvolverá câncer, o Departamento de Alimentos e Drogas (FDA) e grupos médicos recomendaram a vacina da Merck, Gardasil, para quase todas as meninas e mulheres de 11 a 26 anos antes de se tornarem sexualmente ativas. A vacina protege contra dois tipos de HPV que causam 70% dos cânceres de colo do útero e dois outros tipos que causam 90% das verrugas genitais.

Outro novo estudo, coordenado por Giuliano nos EUA, México e Brasil, revelou que homens heterossexuais de 18 a 40 anos tinham um índice de infecção ainda mais alto do que as mulheres da mesma faixa etária - cerca de 50%. Ninguém sabe por que os homens parecem estar mais infectados, e não está claro quanto tempo dura a infecção, disse Giuliano. O trabalho está sendo publicado nos próximos meses na revista Cancer Epidemiology Biomarkers and Prevention. O estudo está sendo financiado pelo Instituto Nacional do Câncer.

Em estudos futuros, Giuliano espera descobrir como os vários tipos de vírus são transmitidos entre parceiros sexuais. Mas uma coisa está clara, disse ela: "Fazer sexo uma vez ou ter apenas um parceiro não significa que você não corre risco." Deborah Weinberg

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