UOL Notícias Internacional
 

06/03/2007

Patagônia sob nova luz

The New York Times
Edward Wong
O fim do mundo é úmido, frio e coberto de lama. Não o tipo da lama em que as crianças gostam de brincar ou o tipo que indica uma renovação da terra após uma chuva torrencial. Esta aqui é a lama que lhe faz chafurdar, arrastando-se pela terra, ameaçando devorar seu corpo enquanto lhe força a rastejar, pé ante pé, para simplesmente tentar escapar dela. "Eu não vou conseguir", gritou minha amiga Tini em plena tempestade enquanto dava mais um passo na trilha - e afundou imediatamente na lama preta que lhe encobriu até a coxa. "Não posso continuar."

Kevin Moloney/The New York Times 
A hospedaria Pehoe fica em uma pequena ilha no Lago Pehoe, no Parque Torres del Paine

Nós estávamos somente na primeira hora do quarto dia de nossa caminhada pelo áspero circuito de Torres del Paine no sul do Chile, no coração da esquina do mundo antes tão mitificada chamada Patagônia.

Os limites da Patagônia são difíceis de definir, mas o nome geralmente se refere à região em forma de cone salpicada de geleiras que abrange o Chile e Argentina, que vai se afunilando até o Cabo Horn. Por três dias, nós viemos andando no sentido anti-horário em torno do maciço de Paine, circundando em torno das encostas das imponentes torres de granito ao centro do principal parque nacional do Chile, com mochilas de mais de 10 quilos em nossas costas.

Nós havíamos planejado levar nove dias caminhando por todo o circuito no último inverno - quando é verão no hemisfério sul - acrescentando jornadas de subida até o Valle Francês e o Valle Ascencio, dois vales com algumas das melhores vistas na rota. Com tudo isso o percurso foi para mais de 90 quilômetros.

Hoje, este quarto dia, se transformou no mais difícil até agora. Nada nos estágios iniciais da jornada havia nos preparado para a longa e árdua subida até a passagem de John Gardner, onde nós atravessaríamos da metade oriental do circuito - mais remota e mais traiçoeira - para os lados oeste e sul, onde havia acampamentos e alojamentos com bares, restaurantes e, se nós quiséssemos, catamarãs proporcionando um escape aquático da rota da caminhada.

A passagem, a 4.072 pés de altura, nem era assim tão elevada, e o mal estar relacionado à altitude não preocupava tanto, ao contrário do que ocorrera nos Andes ao norte. Apenas oito meses antes, Tini e eu havíamos penado até o cume da mais alta montanha da África, o monte Kilimanjaro, a 19.340 pés. Mas agora a chuva - sem parar, noite e dia - tinha transformado o terreno numa autêntica Mordor (de "O Senhor dos Anéis").

Então será que tudo isso aqui deve ser lido como um aviso àqueles que estão considerando a possibilidade de pegar um vôo para acampar com mochila numa barraca com fogão e saco de dormir cá por estas bandas do sul?

De modo nenhum. Eu tenho caminhado pelo mundo inteiro, das Altas Sierras aos Himalaias, e nenhum lugar que eu fui tem, em uma altitude tão baixa, a paisagem de montanha linda de cair o queixo como se encontra na Patagônia, seja no parque nacional de Torres del Paine no Chile, no parque nacional de Los Glaciares na Argentina ou numa das reservas selvagens da região.

Mais e mais pessoas estão descobrindo essa realidade. E a Patagônia já não é o destino tão distante que já foi, voltado somente para caminhantes e montanhistas mais aplicados. O turismo em Torres del Paine disparou nos últimos anos, com norte-americanos, europeus e prósperos latino-americanos lotando o parque na alta estação, que vai de dezembro a abril. Em 2005, mais de 107.000 pessoas visitaram o parque, um aumento de 51 por cento em relação ao ano 2000 e duas vezes e meia mais que em 1995, de acordo com as estatísticas do governo chileno.

Mas com a massa de turistas também chegaram as pressões ambientais. Em todas as minhas expedições, eu nunca vi tantas barracas como as que estavam erguidas num popular acampamento na costa norte do lago Pehoe, ao sul do maciço de Paine. Eu quase perdi a conta. Os viajantes se acotovelavam em busca de espaço numa choupana que servia de cozinha.

O serviço florestal chileno, Conaf, ainda não estabeleceu um limite no número de visitantes. Mas as autoridades do parque estão fazendo um estudo ambiental para avaliar o número ideal em áreas de uso elevado, disse Pablo Retamal, diretor de turismo na embaixada chilena em Washington. Esse estudo, junto com a pesquisa anual sobre impacto no meio ambiente, ajudará na decisão do governo quanto às "ações que serão tomadas para impedir e atenuar impactos ambientais", segundo Retamal. Ainda assim, para aqueles que pretendem ir ao parque, há um forte argumento a favor de se fazer a viagem agora. Em nenhuma parte do mundo as geleiras estão acessíveis como estão na Patagônia. Mas as geleiras lá, como em muitas partes do mundo, estão degelando de uma forma que muitos cientistas consideram alarmante, segundo eles por causa do aquecimento global.

Tini e eu circunavegamos o maciço de Paine do jeito mais difícil, carregando todos nossos equipamentos e provisões. Mas as pessoas com tendências menos masoquistas poderão ver todos os destaques do parque a partir do relativo conforto das pousadas, comendo refeições preparadas para elas ao fim de um longo dia de caminhada e tomando garrafas do encorpado vinho tinto chileno. Um amigo recentemente passou uma semana em Torres del Paine no hotel Salto Chico, administrado por uma empresa chamada Explora, e onde um cliente pode pagar mais de US$ 5.500 por uma semana de pacote com atividades guiadas como equitação, reconhecimento de pássaros e caminhadas pela natureza.

Mesmo com tudo isso a Patagônia, que abrange um território igual à soma das superfícies dos estados do Texas e da Califórnia, permanece sendo um local solitário, povoado por rancheiros cujas famílias vêm cuidando de gado há várias gerações. A terra é dedicada não às grandes realizações humanas, mas às realizadas pela natureza. Seus picos andinos estão entre os mais congelados em toda a cordilheira, fornecendo água para ecosssistemas espalhados pelas vastas e áridas planícies.

Foi sempre uma terra de lendas. Depois que o explorador Fernão de Magalhães passou por lá em sua circunavegação pelo globo, seu cronista Antonio Pigafetta descreveu uma raça de gigantes que habitou a região. O autor pode ter se referido a uma tribo indígena conhecida como Tehuelche. Em todo caso, o território logo foi chamado de Patagônia, que meu livro de viagens "Moon Handbook to Patagonia" informa que foi derivado possivelmente de um romance espanhol "no qual um gigante conhecido como Patagon habita uma ilha de caçadores vestidos com peles."

Saindo do aeroporto em Punta Arenas, nós embarcamos em um ônibus que nos levou em três horas de viagem até Puerto Natales, a cidade-portal de Torres del Paine. Rancheiros a cavalo galopavam por montes verdes pontilhados com flores campestres cor-de-rosa e roxas. A luz tinha uma claridade intensa, como se uma tempestade de inverno tivesse acabado de passar. Mas estávamos no auge do verão, significando que a escuridão só iria se impor bem depois das 10 da noite, dando aos caminhantes tempo o bastante em cada dia até voltar ao acampamento.

Puerto Natales me surpreendeu. Nos Estados Unidos, as cidades que ficam às portas dos parques nacionais são frequentemente abarrotadas de cafonas lojas de souvenirs, daquelas que têm prateleiras com roupinhas para búfalos. Já Puerto Natales é bem mais discreta, e mais pobre. Caminhonetes atravessam as poucas ruas da cidade, e muitas casas tem paredes cobertas de estanho. Mas a cidade, situada na costa ocidental, tem vistas deslumbrantes, com picos nevados se elevando das ilhas.

Uma grande parte da atmosfera romântica que envolve esta parte do mundo é atribuída à popularidade de "Em Patagônia", um clássico diário de viagens de 1977 do escritor britânico Bruce Chatwin. Ele passou por Puerto Natales enquanto pesquisava para o livro, e descreveu como, durante a primeira guerra mundial, os ingleses construíram matadouros ao longo de uma faixa de sete quilômetros que se estende pela baía, junto com uma estrada de ferro para o transporte de trabalhadores.

"Os Chilotes tiveram sua primeira experiência com o abate mecanizado na estação da matança", Chatwin escreveu. "Era algo como se fosse sua própria idéia do inferno: muito sangue e o piso vermelho e fervente; tantos animais agonizando até enrijecer; tantas carcaças brancas e vísceras derramadas, cérebros, corações, pulmões, fígados, linguas. Isso enlouqueceu aqueles homens."

Tini e eu gastamos um dia nos abastecendo para a jornada, e aí pegamos um ônibus de manhã para o parque. Enquanto nos aproximávamos, eu vi guanacos, ou lhamas selvagens, saltando entre os arbustos. Um vaqueiro levava um rebanho dos cavalos, com montanhas aparecendo à distância. A familiaridade destas cenas, reproduzidas frequentemente em postais e livros de mesa de centro, não diminuia seu impacto.

Saímos do ônibus, nos registramos na entrada do parque e enchemos nossas garrafas d'água. E lá fomos nós, na estrada que passava por Laguna Amarga entrando pelo parque.

Da entrada, nós poderíamos ter visto os três imponentes picos de granito que formam o maciço central de Paine, possivelmente a vista a mais espetacular e singular de todas na Patagônia. Mas o tempo ruim inviabilizou essa possibilidade. Nuvens cinzentas encobriram as metades superiores das montanhas. Eu quis saber sobre as possibilidades de chuva - nada arruina uma caminhada mais rapidamente do que uma chuva torrencial, não importa a resistência de seu equipamento à prova de intempéries.

Levamos algumas horas até nos habituarmos a caminhar com nossas mochilas. A trilha foi suave no primeiro dia, cheia de curvas após um estância onde os cavalos pastavam, antes de entrarmos em um vale atapetado com margaridas brancas. Nós entramos neste vale na última hora de nossa caminhada, quando já estávamos esgotados, e numa das paradas nós quase que literalmente caímos adormecidos numa "cama" de margaridas.

O acampamento tinha descarga, chuveiro com água quente e um salão de jantar onde cozinheiros preparavam comida quente. E este supostamente era um dos locais mais espartanos no circuito. Se isto fosse a tal vida difícil, então eu estaria mais do que pronto para agüentar uma semana assim, pensei enquanto me ajeitava no saco de dormir. Tini já estava em sono pesado.

A caminhada no dia seguinte nos levou acima do imenso lago Paine e ao longo de um vale onde podíamos ver os brancos picos andinos dividindo o Chile e a Argentina. Nós passamos por uma floresta deformada de árvores lenga, muitas escurecidas e torcidas por um fogo recente. Mas elas estavam se regenerando.

Isso é uma coisa que você aprende após passar um tempo nas montanhas - nunca há uma destruição verdadeira quando a natureza segue seu próprio rumo com seus dispositivos; tudo renasce de algum modo.

Nós terminamos o dia num acampamento perto de um outro lago, um que descortina panorama além das águas para um enorme bloco de neve e gelo chamado de Ventisquero Dickson. Era a ponta de uma das maiores geleiras do hemisfério sul, a Hielo del Sur. Se estiverem certos os muitos cientistas que afirmam que estas enormes geleiras estão degelando numa proporção anormal, o desaparecimento delas privará não somente os amantes da natureza de panoramas inspiradores, mas também ecossistemas completos ficarão privados da água limpa necessária para a sobrevivência.

Por enquanto, as geleiras ainda existem em abundância. Eu nunca havia visto algo assim fora da Patagônia. Nem no Tibete, nem no Nepal, nem mesmo no norte do Paquistão, aonde as geleiras se precipitam às margens de uma das estradas mais elevadas no mundo, a estrada de Karakoram.

No dia seguinte, nós andamos sobre uma pequena morena glacial - um monte de detritos acumulados pelo movimento da geleira - e olhamos para baixo, em direção ao lago azul-turquesa com os icebergs flutuando pela superfície. Os icebergs tinham se descolado da ponta de uma geleira que fluía em direção ao lago.

Aí o tempo começou a fechar. Quero dizer que fechou de verdade. Um vento feroz começou a soprar, e nós tivemos que cerrar parcialmente nossos olhos para evitar as partículas de poeira. O céu escureceu. Nós andamos rapidamente em direção ao acampamento e montamos nossa barraca assim que os primeiros pingos da chuva começaram a cair.

A chuva desabou pelo resto da tarde e não parou durante a noite. Foi possivelmente a maior tempestade que já experimentei em todas as minhas caminhadas.

O tempo na Patagônia é temperamental até mesmo na melhor das épocas, e todos que se preparam para a viagem até lá investem muita energia bolando o tipo de equipamento que irá mantê-los secos. Eu tinha acabado de comprar uma barraca nova que era muito mais leve do que a minha antiga; não havia sido testada, e eu estava preocupado em saber se a barraca ficaria à prova d'água.

Funcionou melhor do que eu esperava. Eu havia montado a barraca num pequeno declive, e quando acordamos estávamos flutuando numa pequena lagoa. Mas a água não havia entrado na barraca.

Infelizmente, a chuva não parou na manhã seguinte, o dia em que deveríamos cruzar a passagem de John Gardner. Nós tomamos o café da manhã tranquilamente, esperando que a chuva parasse, mas finalmente decidimos começar a caminhar às 11 da manhã.

A trilha que levava até o outro lado da passagem era tão íngreme e escorregadia que os funcionários do parque tinham colocado cordas ao longo do caminho de árvores para que os caminhantes tivessem onde se apoiar. Mesmo assim escorregamos para trás mais de uma vez.

A travessia da passagem nos levou à metade mais fácil do circuito. Os lados ao oeste e ao sul atraem os caminhantes de distâncias maiores, mas também estão cheios de caminhantes de curto percurso, hospedados em pousadas caras como a Explora. Algumas das paisagens de montanha mais espetaculares do parque ficam neste lado - como as imensas formações de rocha de Cuernos del Paine à beira do Lago Pehoe, o anfiteatro no Vale Francês e os três picos do Torres del Paine. Observando a paisagem perto do acampamento do Lago Grey, vimos blocos de gelo do tamanho de pequenos edifícios de apartamento se deslocando da geleira Grey, caindo nas águas turquesas do lago.

Nós decidimos pegar mais leve no resto da caminhada, acordando mais tarde e andando lentamente pelas trilhas cheias de gente. No dia 6, encontramos Mai e Jaime, sendo que tínhamos comparecido ao casamento deles em Santiago antes da nossa caminhada. Foi uma surpresa agradável.

Naquela noite fomos ao novo Refugio Lago Pehoe, à beira do lago, onde no restaurante jantamos frango e arroz com vinho tinto, descortinando os Cuernos.

O jantar era uma bem-vinda pausa na rotina de macarrões instantâneos que eu cozinhava todas as noites em meu fogão. Mais tarde, jogamos dominó e Jenga num salão no andar superior.

O ambiente estava acolhedor, assim como o vinho. Lá fora, caminhantes se arrastavam em direção às suas barracas, enquanto um vento feroz soprava do lago. Marcelo Godoy

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