UOL Notícias Internacional
 

07/03/2007

Libby é condenado em 4 de 5 acusações em caso de vazamento da CIA

The New York Times
Neil A. Lewis

em Washington
I. Lewis Libby Jr., o ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, foi condenado nesta terça-feira (6/3) por mentir ao grande júri e aos agentes do FBI que investigavam o vazamento da identidade de uma agente da CIA, em meados de 2003, em meio a uma forte disputa pública em torno da guerra no Iraque.

Doug Mills/The New York Times 
O júri recusou as alegações de Libby, que disse que teve lapsos de memória em depoimento

Libby, 56 anos, que já contou com grande autoridade nos altos escalões do governo, é o mais alto funcionário da Casa Branca a ser condenado por um crime desde o escândalo Irã-Contras dos anos 80.

O júri rejeitou as alegações de Libby de lapsos de memória ao condená-lo por quatro crimes: obstrução da Justiça, falso testemunho ao FBI e duplo perjúrio perante o grande júri. O júri de 11 membros absolveu Libby da acusação adicional de prestar declarações falsas ao FBI.

Enquanto o veredicto era lido em voz alta pela primeira jurada após quase 10 dias de deliberações, Libby fez careta brevemente, antes de retomar seu ar inexpressivo. Sua esposa, Harriet Grant, sentada a poucos metros de distância no setor de espectadores, começou a tremer visivelmente e chorou brevemente antes de recuperar a compostura.

Dana Perino, a vice-secretária de imprensa da Casa Branca, disse que o presidente Bush assistiu a notícia do veredicto pela televisão no Escritório Oval. Ela disse que Bush respeita o veredicto do júri, mas "ficou triste por Scooter (lambreta) Libby e sua família", usando o apelido de Libby.

Cheney teve uma reação semelhante. "Como disse antes, Scooter serviu nosso país incansavelmente e com grande distinção ao longo de muitos anos de serviço público", ele disse.

O veredicto significa o fim de uma investigação de quase quatro anos sobre o vazamento da identidade da agente Valerie Wilson da CIA. A investigação colocou em questionamento os motivos para a invasão do Iraque, expôs parte da influência invisível do gabinete de Cheney e mudou a paisagem das relações entre jornalistas e fontes oficiais, já que muitos dos repórteres políticos proeminentes de Washington foram forçados a depor em um julgamento criminal.

O principal advogado de defesa de Libby, Theodore V. Wells Jr., disse que impetrará um pedido para a realização de um novo julgamento. Se isto fracassar, Wells disse aos repórteres que apelará o veredicto no tribunal federal de apelações. Ele disse que Libby era "totalmente inocente e que não fez nada errado".

Libby, em pé ao seu lado, não fez nenhum comentário. Os promotores acusaram Libby de ter mentido quando jurou que não tinha discutido a identidade de Wilson em meados de 2003 com dois repórteres, Judith Miller, então do "The New York Times", e Matthew Cooper, na época da revista "Time".

A promotoria também disse que Libby inventou uma história de que soube da identidade de Wilson em uma conversa com Tim Russert, da "NBC News", em 10 ou 11 de julho de 2003, para esconder o fato de que já sabia da identidade dela por meio de vários funcionários do governo.

O único dos 11 jurados que falou publicamente logo após o veredicto disse que havia grande simpatia por Libby na sala do júri, mas que o caso apresentado pela promotoria era irrefutável.

O juiz Reggie M. Walton, que presidiu quatro semanas de depoimentos e apresentação de evidências, marcou a sentença para 5 de junho. Segundo diretrizes e que não são mais obrigatórias, Walton conta com amplo arbítrio para estabelecimento da pena de prisão.

Mas advogados não envolvidos no caso, que têm experiência na questão do sentenciamento, calcularam que segundo as diretrizes, Libby poderá ser sentenciado a algo entre 20 e 27 meses.

Walton permitiu que Libby permanecesse livre sob fiança. Os planos da defesa para pedir um novo julgamento e então apelar do veredicto significam que poderá levar muitos meses até que Libby seja obrigado a ir para a prisão. Isto também fornece uma janela para Bush perdoar Libby, uma questão sobre a qual a Casa Branca tem se mantido em silêncio, mas que se tornou rapidamente motivo de especulação em Washington.

O senador Harry Reid, democrata de Nevada e líder democrata, emitiu uma declaração pública pedindo a Bush que prometa "não perdoar Libby por sua conduta criminosa".

Patrick J. Fitzgerald, o promotor, disse que apesar de satisfeito com o veredicto, "é triste termos uma situação onde um alto funcionário, uma pessoa que trabalhou no gabinete do vice-presidente, obstruiu a Justiça e mentiu sob juramento".

Em comentários feitos a repórteres do lado de fora do tribunal, Fitzgerald também falou extensamente sobre as críticas à sua decisão de processar Libby por mentir aos investigadores, mas não acusar ninguém pelo vazamento do nome de Wilson aos repórteres.

O nome de Wilson apareceu pela primeira vez em uma coluna de Robert Novak, em 14 de julho de 2003, dias depois do "The New York Time" ter publicado um artigo de opinião de autoria de seu marido, Joseph C. Wilson IV. Em seu artigo, Wilson afirmava que a Casa Branca de Bush tinha distorcido intencionalmente inteligência sobre os esforços do Iraque para adquirir urânio na África para reforçar seu argumento para ir à guerra.

Os depoimentos no julgamento mostraram que as críticas de Joseph Wilson alarmaram e enfureceram membros do governo Bush, porque representavam um ataque direto ao principal motivo para a invasão no Iraque: a alegação de que Saddam Hussein tinha um programa ativo de desenvolvimento de armas não convencionais. Os críticos acusaram que a identidade de Valerie Wilson como agente da CIA foi vazada para punir o marido dela pelas críticas.

Na época em que Fitzgerald foi nomeado promotor especial na investigação do vazamento, os investigadores já sabiam que as fontes de Novak eram Richard L. Armitage, o vice-secretário de Estado, e Karl Rove, o principal conselheiro político do presidente.

Em comentários feitos aos repórteres na terça-feira, Fitzgerald disse que não teve escolha a não ser buscar o indiciamento quando assumiu a investigação, em dezembro de 2003, porque também tinha informação de que Libby contou uma falsa história ao FBI e ao grande júri sobre sua conversa com Russert.

"É inconcebível que qualquer promotor responsável se afaste dos fatos que vimos em dezembro de 2003 e diga: 'Não há nada aqui, vamos passar para outra'", disse Fitzgerald.

"Nós não podemos tolerar perjúrio", ele disse, acrescentando: "A verdade é o que move nosso sistema judicial. Se as pessoas não se apresentarem e contarem a verdade, nós não temos esperança de fazer o sistema judicial funcionar".

Fitzgerald também enfrentou críticas por forçar vários repórteres a deporem sobre suas conversas confidenciais com autoridades, os ameaçando com cadeia por desacato. No caso de Miller, na época do "The New York Times", ele a manteve presa por 85 dias até que ela concordou em depor perante o grande júri.

Casos anteriores de vazamento terminaram em fracasso após os repórteres terem se recusado a cooperar com as autoridades, dizendo que precisavam proteger suas fontes para a realização de seu trabalho. Mas as táticas de Fitzgerald, com o apoio da Justiça, mudaram a paisagem da relação repórter-fonte na capital e em outras partes.

"Não é possível conduzir este caso sem falar com os repórteres", disse Fitzgerald. Ele disse que qualquer promotor deve considerar o ato de forçar os repórteres a discutirem suas conversas com suas fontes como "o último recurso em circunstâncias incomuns". Este caso se encaixa em tal descrição, ele disse, porque os repórteres eram testemunhas dos crimes de Libby e "nós não achamos que o que o sr. Libby disse aos repórteres foi uma denúncia".

Joseph Wilson, que freqüentemente expressou ultraje com o vazamento da identidade de sua esposa, que também é conhecida como Valerie Plame, disse na terça-feira que acha que a imprensa se comportou mal em todo o episódio.

"Eu acho que uma das subtramas de todo este julgamento é como a imprensa foi usada e abusada por este governo", disse Wilson em uma teleconferência com os repórteres. Ele disse que os repórteres foram usados para enganar as pessoas sobre os motivos para ir à guerra e então para prejudicar a carreira de sua esposa, expondo seu disfarce.

As condenações foram baseadas nas declarações de Libby ao grande júri sobre suas conversas com Russert e Cooper, assim como as declarações de Libby ao FBI sobre Russert. O júri absolveu Libby da acusação de que fez uma declaração falsa ao FBI sobre sua conversa com Cooper.

Kirby D. Behre, um advogado de Washington e especialista em sentenciamento, disse que as diretrizes sugerem uma pena de cerca de dois anos, independente de Libby ser condenado em uma ou todas as cinco acusações. George El Khouri Andolfato

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