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09/03/2007

Carência insuportável ou dependência saudável?

The New York Times
Benedict Carey
As cenas domésticas que lentamente sufocariam o casamento não foram "cenas" no sentido habitual, mas silêncios, negligências imaginárias, temores particulares que passaram sem ser comentados. Ela pedia que ele lavasse a louça depois do jantar e sentia-se estremecer quando ele deixava para depois, como se fosse uma rejeição.

Ou ela se vestia para sair e depois lutava contra um temor crescente, com o passar dos minutos, pois ele não dizia que estava bonita. "Eu nunca disse nada, mas tinha essa necessidade de aprovação, essa terrível carência que ele não conseguia entender", disse Ronni Weinstein, 61, uma terapeuta que mora na região de Chicago, sobre seu ex-marido.

De fato, ela acrescentou, depois aprendeu que seus surtos de dependência poderiam ter sido usados para unir o casal, em vez de prejudicá-lo. "É isso que os casais saudáveis aprendem a fazer", disse. "Depender voluntariamente um do outro e decidir quem está fazendo o quê pelo relacionamento."

A carência tem uma face conhecida: a amiga íntima que está constantemente pedindo aprovação, conselhos, ajuda para lidar com o computador. A adulta bem-sucedida que pula de relação em relação, fazendo a gueixa para cada novo parceiro. A mulher agredida que tem medo de ir embora. Mas só recentemente os pesquisadores começaram a perceber que se de certas formas a dependência pode minar a saúde mental, de outras pode representar um valioso apoio social.

Em um extremo está uma necessidade desesperada de atenção - um problema constante que os psiquiatras diagnosticam como distúrbio de personalidade dependente. Em formas mais brandas, a dependência pode parecer uma carência aborrecida. Mas também pode ser um afeto protetor que cimenta os relacionamentos românticos em tempos de estresse. É o modo como as pessoas administram os surtos de dependência que determina o efeito do comportamento carente nos relacionamentos, segundo pesquisadores.

"Existem pessoas dependentes que entram em pânico com facilidade, que telefonam para um amigo ou para a mulher 15 vezes por dia, minando o relacionamento, e depois há aquelas que aprenderam a modular seus impulsos", disse o dr. Robert F. Bornstein, psicólogo na Universidade Adelphi e co-autor, com sua mulher, Mary A. Languirand, de "Healthy Dependency" [Dependência saudável] (Newmarket Press, 2003). "Essas pessoas podem ter necessidades de dependência muito intensas", ele continuou, "mas desenvolveram técnicas sociais, aprenderam a fazer os outros se sentirem bem em ajudá-las. E isso faz toda a diferença."

Um cabo-de-guerra entre a dependência persistente e a vulnerabilidade carente é visível desde a infância. Nos chamados estudos de ligação afetiva, crianças pequenas ou primatas que confiam no afeto de suas mães tendem a ser confiantes quando exploram um espaço desconhecido ou encontram um estranho.

As que são menos seguras muitas vezes se agarram às mães em situações novas, principalmente as temíveis. "Essa é uma dinâmica absolutamente fundamental que sustenta todas as nossas relações interpessoais, assim como os diagnósticos psiquiátricos", disse o dr. Sydney Blatt, professor de psicologia e psiquiatria na Universidade Yale.

Os pesquisadores medem a força dos traços de dependência fazendo as pessoas classificarem o quanto endossam certas opiniões, como "Depois de uma briga com um amigo, devo fazer as pazes assim que possível"; "Sou muito sensível aos sinais de rejeição dos outros"; ou "Tenho muita dificuldade para tomar decisões sozinho".

Nos estudos, as pessoas que têm notas altas nesses testes também tendem a classificar seus pais como autoritários ou excessivamente protetores (ou um de cada). "A mensagem quando a pessoa está crescendo é: 'Você é frágil, você é fraco, precisa de alguém forte para cuidar de você'", disse Bornstein.

Essa criação leva muitas pessoas, conforme amadurecem, a buscar pares igualmente dependentes entre amigos, colegas e parceiros românticos. O padrão persiste pelo menos em parte porque é freqüentemente recompensado.

Em um estudo recente, psicólogos classificaram 48 homens e mulheres que estudavam no Gettysburg College na Pensilvânia sobre medidas de dependência, e calcularam suas notas médias. Depois de controlar as notas nos exames escolares dos estudantes e a dificuldade de seus currículos, entre outros fatores, os pesquisadores descobriram, para sua surpresa, que os estudantes que tinham notas mais altas em medidas de dependência se saíam significativamente melhor nos estudos, em média, do que os que eram mais auto-suficientes.

Um motivo provável, segundo os autores, era que os estudantes dependentes tinham muito maior probabilidade de dizer que buscavam a ajuda dos professores para os trabalhos do curso.

Em outro experimento, apresentado em janeiro na reunião anual da Associação Psicanalítica Americana, psicólogos da Universidade de Louvain, na Bélgica, mediram traços de dependência, satisfação nos relacionamentos e níveis de conflito em 266 adultos em relacionamentos duradouros. Os pesquisadores descobriram que os parceiros dependentes tinham notas significativamente mais altas em satisfação do que os mais auto-suficientes - mas só quando os casais estavam brigando.

Pelo menos em curto prazo, as características de dependência pareciam proteger os relacionamentos em tempos de crise, sugerem os autores. Temendo perder o relacionamento, "os indivíduos mais dependentes podem realmente se comportar de maneira mais positiva com seus parceiros, como ser mais cordatos e mais amorosos", disse Bénédicte Lowyck, psicóloga que liderou o estudo.

Em longo prazo, disse Lowyck, não está claro se esses instintos protetores alimentam o relacionamento ou o prejudicam. A resposta dependerá do casal, segundo especialistas, e provavelmente do conteúdo da dependência do parceiro: como ela é expressa, se a pessoa é generosa além de carente, flexível além de ansiosa.

Para distinguir diferentes matizes ou variedades de dependência, dois psicólogos, Aaron L. Pincus, da Pennsylvania State, e Michael B. Gurtman, da Universidade de Wisconsin em Parkside, aplicaram uma exaustiva bateria de questionários sobre dependência a 654 estudantes de psicologia. As notas classificaram tudo, de confiança social a preferência por solidão e necessidade de agradar aos outros. A análise das respostas pelos psicólogos sugeriu que há três variedades diferentes de padrões de comportamento dependente.

Um é definido predominantemente pela submissão ("Eu não tenho o que é necessário para ser um bom líder" ou "Sou facilmente convencido em uma discussão"). Outra se caracteriza principalmente pela explorabilidade ("Tenho medo de ferir os sentimentos das pessoas" ou "Eu faço coisas que não são do meu interesse para agradar aos outros"). E uma terceira, que os psicólogos chamaram de dependência amorosa, baseia-se numa necessidade de conexão social ("Ficar isolado dos outros tende a levar à infelicidade" ou "Depois de uma briga com um amigo, devo fazer as pazes assim que possível").

As pessoas que lutam com uma necessidade exagerada de aprovação dos outros podem exibir momentos dos três tipos. "Mas essa dependência amorosa é a mais adaptativa", disse Pincus. "São pessoas que formam ligações muito fortes, que não estão felizes se não estiverem cercadas de amigos e da família" e têm menor probabilidade de tropeçar em suas próprias ansiedades.

Weinstein, a terapeuta de Chicago, disse que em mais de 30 anos de prática ela viu dezenas de casais em que a submissão e a exploração puseram fim a casamentos. E estudos atuais sugerem que em relacionamentos muito perturbados e abusivos o agressor, assim como a vítima, muitas vezes tem um medo dependente de perder o relacionamento.

"Esse é o tipo de casal em que o marido pode dizer: 'Você vai fazer compras sozinha? Vai me deixar aqui sozinho? Você não pode fazer isso. Olhe, vou levá-la de carro", disse Weinstein. "E esse tipo de intercâmbio que parece trivial pode se tornar muito exigente e até violento, por causa desse medo irracional do abandono."

Terapeutas tarimbados podem ajudar as pessoas a administrar esses medos, mas há poucas pesquisas que orientem o tratamento. Em uma abordagem, as pessoas aprendem a identificar e modificar alguns hábitos de conversa que tornam suas interações com os outros tão voláteis.

Por exemplo, elas aprendem a reduzir o número de vezes que procuram aprovação em uma conversa - "Você não está dizendo isso, está?" ou "Você realmente quer dizer isso?" - e, eventualmente, a mudar o foco da conversa para o outro.

O paciente também pode aprender a diluir seus temores de perder o relacionamento aceitando algumas evidências do compromisso do parceiro: flores, jantares românticos, massagens nas costas. O parceiro também pode ajudar, pelo menos em casos de carência mais branda.

Os psiquiatras muitas vezes aconselham uma espécie de distanciamento simpático: reconhecer os medos da pessoa; oferecer um pouco de tranqüilidade; mas incentivar a pessoa a pelo menos experimentar interesses, hobbies ou hábitos que não girem em torno do relacionamento. E depois desligar o celular durante algumas horas. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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