UOL Notícias Internacional
 

09/03/2007

Visita de Bush acende o debate dos latinos sobre o socialismo

The New York Times
Jim Rutenberg, em São Paulo

e Larry Rohter, em Buenos Aires, Argentina
O presidente Bush tem retratado sua viagem à América Latina nesta semana como uma turnê "Nós nos Importamos" que visa a afastar a percepção de que ele tem negligenciado seus vizinhos do sul.

Mas as pichações frescas nas ruas aqui de São Paulo, onde ele pousou na noite de quinta-feira (8/3) para sua primeira parada, o chamam de assassino. O pequeno número de protestos e o posicionamento de veículos militares por toda a cidade, a maior da América do Sul, também apresentam uma interpretação alternativa para sua visita: como um choque entre o capitalismo aberto que Bush promove e a abordagem socialista promovida pelos líderes esquerdistas que crescem em poder e popularidade.

AFP 
Antes da chegada de George Bush, manifestantes protestaram pelas ruas de São Paulo

E enquanto o governo se prepara para usar a visita do presidente aos cinco países para acentuar o novo acordo de desenvolvimento de etanol com o Brasil - o produtor mais eficiente do combustível - e programas de atendimento de saúde e educação em outros lugares, grande parte da atenção está concentrada no que poderia ser melhor chamado de "a Briga no Rio".

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o principal adversário de Bush na região, irá liderar um protesto contra ele em Buenos Aires, assim que Bush chegar, na sexta-feira, a Montevidéu, no Uruguai, que fica do outro lado do Rio da Prata. "Nossos aviões quase cruzarão no caminho", disse Chávez nesta semana, apesar de ter negado qualquer intenção de sabotar a visita de Bush.

Em entrevistas para repórteres latino-americanos nesta semana, Bush minimizou o comício planejado por Chávez, dizendo para um grupo, na terça-feira: "Eu vou a muitos lugares e há manifestações de rua. E minha postura é: eu adoro a liberdade e o direito das pessoas se expressarem".

Mas inadvertidamente ou não, Bush irritou Chávez com um discurso na segunda-feira, em Washington, no qual disse que Simón Bolívar, o herói da luta pela independência na América do Sul - e ídolo de Chávez - "pertence a todos nós que amamos a liberdade". Isto provocou uma resposta dura e sarcástica de Chávez no dia seguinte, durante seu programa de rádio semanal.

Mas apesar das tentativas do governo de minimizar a sombra de Hugo Chávez - que chamou Bush de "o diabo" e tem promovido uma agenda agressivamente antiamericana por toda a região - a viagem em si parece pelo menos em parte voltada a combater sua influência. Chávez conquistou tal influência em parte despejando dinheiro por todas as comunidades pobres da região, para custear habitação e atendimento de saúde, além de fornecer petróleo a preços baixos.

O novo acordo de Bush com o Brasil para aumentar a produção de etanol na região representa uma forma de reduzir a influência que o petróleo de Chávez lhe dá, ao mesmo tempo em que encoraja a criação de empregos e o desenvolvimento econômico. E antes de chegar aqui, Bush anunciou uma série de programas para ajudar os pobres da região, aos quais se referiu, em espanhol, como "trabalhadores e camponeses".

Ele prometeu centenas de milhões de dólares para ajudar as famílias a comprarem casas e disse que enviará um navio-hospital para a região para fornecer atendimento de saúde gratuito.

Em suas entrevistas nesta semana, Bush repetiu que a ajuda dos Estados Unidos à região dobrou durante seu mandato, para cerca de US$ 1,6 bilhão anuais. "Quando se totaliza todo o dinheiro gasto, graças à generosidade de nossos contribuintes, isto representa US$ 8,5 bilhões para programas que promovem a justiça social", incluindo educação e saúde, ele disse aos repórteres na terça-feira.

Mas o ponto de vista aqui dificilmente poderia ser mais diferente. Em um editorial intitulado "O Pífio Pacote do Tio Patinhas", o jornal conservador "O Estado de São Paulo" notou, na quarta-feira, que a oferta de Bush representava "o equivalente ao custeio de cinco dias da guerra no Iraque e uma gota d'água perto do oceano de petrodólares por onde o chavismo navega a todo vapor, da Argentina à Nicarágua".

Alguns dos assessores de Bush disseram estar preocupados com as percepções de que os Estados Unidos negligenciaram seus vizinhos do sul, e a frustração das classes mais baixas que não colheram os benefícios do livre comércio, estarem ajudando a alimentar os movimentos esquerdistas.

Stephen J. Hadley, o conselheiro de segurança nacional de Bush, disse: "Algo que não fizemos bem o suficiente é transmitir a plenitude da mensagem do presidente".

Bush disse aos repórteres que espera combater a mensagem de Chávez promovendo os benefícios do livre comércio. Ao ser perguntado por um repórter sobre o "chamado modelo alternativo de desenvolvimento" de Chávez, que pede pela estatização da indústria, Bush disse: "Eu acredito fortemente que uma indústria dirigida pelo governo é ineficiente e levará a mais pobreza. Eu acredito que se o Estado tentar dirigir a economia, ele ampliará a pobreza e reduzirá a oportunidade." E acrescentou: "Assim, os Estados Unidos trazem uma mensagem de mercados abertos e governos abertos à região".

Mas mesmo os anfitriões brasileiros de Bush parecem divididos em sua reação a tal mensagem. Apesar do encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Bush, nesta sexta-feira, para assinar o acordo do etanol e estar marcada a visita deste a Camp David, em 31 de março, o esquerdista Partido dos Trabalhadores - que ele lidera - optou por apoiar e participar das manifestações anti-Bush.

O partido alertou em seu site que Bush "não conte com o Brasil para ações imperialistas na região". Um ensaio o chamou de "o chefão do terrorismo internacional", enquanto outro declarou que Bush era "persona non grata" no Brasil. "Os Estados Unidos, em geral, e o governo Bush, em particular, são de uma violência brutal", escreveu Valter Pomar, o secretário do partido para relações internacionais. "Nós só estaremos livres desta ameaça quando o povo norte-americano constituir um governo de esquerda."

Em um protesto na hora do rush na região central comercial daqui de São Paulo, vários milhares de ativistas usavam adesivos mostrando Bush com um bigode estilo Hitler e uma suástica ao lado de sua cabeça, com as palavras "Fora Bush".

Com a tropa de choque da polícia posicionada, os manifestantes antiguerra se misturaram a sindicalistas e ambientalistas, que temem que a produção de etanol da cana-de-açúcar poderá prejudicar a Amazônia. Um mar de cartazes dizia "Adolf Bush" ou "Pare de Brincar com o Meio Ambiente".

Posteriormente, a imprensa brasileira noticiou que os policiais usaram gás lacrimogêneo e cassetetes contra os manifestantes que atiravam pedras e enfrentavam os policiais, o que levou centenas a saírem correndo pelas ruas de São Paulo. Não foram informados feridos graves. George El Khouri Andolfato

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