UOL Notícias Internacional
 

13/03/2007

De uma platéia extasiada, um pedido para esfriar a badalação

The New York Times
William J. Broad
Hollywood tem uma queda por Al Gore e seu filme de alerta sobre o aquecimento global, "Uma Verdade Inconveniente", que conquistou o Oscar de melhor documentário. Assim como muitos ambientalistas, que o elogiam como um visionário, e muitos cientistas, que o aplaudem por aumentar a conscientização das pessoas sobre a mudança climática.

Stuart Isett/The New York Times 
O professor Don J. Easterbrook afirma que há muitas incorreções no filme de Al Gore

Mas parte de sua platéia científica está incomodada. Em conversas, artigos e blogs que apareceram desde que seu filme e livro que o acompanha foram lançados no ano passado, estes cientistas argumentam que alguns dos pontos centrais de Gore são exagerados ou errôneos. Eles estão alarmados, alguns dizem, pelo que consideram seu alarmismo.

"Eu não quero atacar Al Gore", disse Don J. Easterbrook, um professor emérito de geologia da Universidade de Washington Ocidental, para centenas de especialistas no encontro anual da Sociedade Geológica da América. "Mas há muitas incorreções nas declarações que estamos vendo e temos que moderá-las com dados reais."

Gore, em uma troca de e-mails sobre as críticas, disse que seu trabalho apresentou "os pontos mais importantes e salientes" sobre a mudança climática, se não "alguns nuances e distinções" que os cientistas podem querer. "O grau de consenso científico sobre o aquecimento global nunca foi mais forte", ele disse, acrescentando: "Eu estou tentando comunicar a essência dele na linguagem leiga que entendo".

Apesar de Gore não ser um cientista, ele se apóia bastante na autoridade da ciência em "Uma Verdade Inconveniente", que é o motivo para os cientistas estarem tão sensíveis com seus detalhes e alegações.

As críticas a Gore vêm não apenas de grupos conservadores e céticos proeminentes do aquecimento global, mas também de cientistas comuns como Easterbook, que disse aos seus pares não ter um machado político para afiar. Alguns poucos vêem uma variação natural como mais central ao aquecimento global do que os gases responsáveis pelo efeito estufa. Muitos parecem ocupar um meio termo no debate climático, vendo a atividade humana como uma ameaça séria, mas contestando o que chamam de extremismo tanto de céticos quanto de fanáticos.

Kevin Vranes, um climatologista do Centro para a Pesquisa de Ciência e Políticas Tecnológicas da Universidade do Colorado, disse sentir uma crescente reação contra o exagero. Apesar de elogiar Gore por "transmitir a mensagem", Vranes questionou se suas apresentações estavam "exagerando nossa certeza sobre o futuro".

Normalmente, a preocupação não é pela existência da mudança climática, ou a idéia de que a produção humana de gases responsáveis pelo efeito estufa é em parte ou a principal responsável pelo recente aquecimento global. A pergunta é se Gore foi além das evidências científicas.

"Ele é uma figura muito polarizadora na comunidade científica", disse Roger A. Pielke Jr., um cientista ambiental que é um colega de Vranes no centro da Universidade do Colorado. "Muito rapidamente estas discussões passam do assunto para a pessoa e se tornam um referendo de Gore."

"Uma Verdade Inconveniente", dirigido por Davis Guggenheim, foi lançado em maio do ano passado e faturou mais de US$ 46 milhões, o tornando um dos documentários de maior bilheteria de todos os tempos. O livro que o acompanha, de autoria de Gore, se tornou um best seller, chegando ao primeiro lugar na lista do "The New York Times".

Gore descreveu um futuro no qual as temperaturas aumentam, as camadas de gelo derretem, o nível dos mares sobe, furacões atacam as costas e pessoas morrem em massa. "A menos que atuemos de forma ousada", ele escreveu, "nosso mundo sofrerá uma série de catástrofes terríveis".

Ele claramente tem simpatizantes entre importantes cientistas, que elogiam suas popularizações e consideram sua ciência basicamente sólida. Em dezembro, quando falou em San Francisco para a União Geofísica Americana, ele recebeu uma recepção digna de um astro do rock, com milhares de participantes.

"Ele tem credibilidade nesta comunidade", disse Tim Killeen, o presidente do grupo e diretor do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica, um dos principais grupos que estudam a mudança climática. "Não há dúvida de que ele leu muito a respeito e é capaz de responder de forma bastante eficaz."

Alguns simpatizantes reconhecem pequenas imprecisões, mas as consideram aceitáveis para um político. James E. Hansen, um cientista ambiental, diretor do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da Nasa e um importante consultor de Gore, disse: "Al faz um trabalho excepcionalmente bom em distinguir a floresta das árvores", acrescentando que Gore freqüentemente se sai "melhor do que os cientistas".

Ainda assim, disse Hansen, o trabalho do ex-vice-presidente pode ter "imperfeições" e "falhas técnicas". Ele apontou para os furacões, um ícone para Gore, que acentua a devastação do furacão Katrina e cita pesquisa que sugere que o aquecimento global causará um aumento tanto da freqüência quanto da mortalidade das tempestades. Mas a última estação no Atlântico produziu menos furacões do que o previsto (cinco em vez de nove) e nenhum atingiu os Estados Unidos.

"Nós precisamos ser mais cuidadosos na descrição da história do furacão do que ele", disse Hansen sobre Gore. "Por outro lado", disse Hansen, "ele apresentou o básico certo: a maioria das tempestades, pelo menos aquelas movidas pelo calor latente da evaporação, tenderá a ser mais forte, ou terá o potencial de ser mais forte, em um clima mais quente".

Em seu e-mail, Gore defendeu seu trabalho como fundamentalmente preciso. "É claro", ele disse, "sempre haverá dúvidas em torno das margens da ciência e temos que contar com a comunidade científica para que continue fazendo perguntas e a contestar e responder tais perguntas".

Ele disse "nem todo consultor" concordou com ele em cada ponto, "mas concordamos nos elementos fundamentais", que o aquecimento é real e causado pelos seres humanos.

Gore acrescentou que não percebeu uma reação geral entre os cientistas contra seu trabalho. "Eu recebi um bocado de retorno positivo", ele disse. "Eu também recebi comentários sobre itens que deviam ser mudados e tenho atualizado o livro e a exibição de slides para refletir tais comentários." Ele não falou especificamente sobre que pontos revisou.

Ele disse que após 30 anos tentando comunicar os riscos do aquecimento global, "eu acho que finalmente estou um pouco melhor nisto".

Apesar de a maioria dos críticos elogiar o livro e o filme, céticos do aquecimento global protestaram quase que imediatamente. Richard S. Lindzen, um climatologista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e membro da Academia Nacional de Ciências, que há muito expressa ceticismo diante das previsões climáticas sombrias, acusou Gore no "The Wall Street Journal" de "alarmismo estridente".

Alguns dos detratores centristas de Gore apontam para o relatório do mês passado do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, a entidade da ONU que estuda o aquecimento global. O painel foi mais longe do que antes em dizer que os seres humanos são a principal causa do aquecimento global desde 1950, parte da mensagem de Gore que poucos cientistas contestam. Mas também retratou a mudança climática como um processo lento.

Ele estimou que os mares do mundo sofrerão uma elevação máxima neste século de 58 centímetros - uma redução em comparação a estimativas anteriores. Gore, citando nenhum prazo em particular, prevê um aumento de 6 metros e descreve partes de Nova York, da Flórida e outras áreas altamente povoadas como afundando sob as ondas, implicando, pelo menos visualmente, que a inundação é iminente.

Bjorn Lomborg, um estatístico e cientista político na Dinamarca, há muito cético do aquecimento global catastrófico, disse em um artigo distribuído para vários jornais que o painel, diferente de Gore, não se deixou levar pelo alarmismo. "A mudança climática é um problema real e sério" que pede por análise cuidadosa e política sólida, disse Lomborg. "A cacofonia dos gritos", ele acrescentou, "não ajuda".

Um relatório de junho passado, das Academias Nacionais, também pareceu contradizer o retrato de Gore das recentes temperaturas como sendo as mais altas do último milênio. Em vez disso, disse o relatório, as altas atuais parecem sem iguais apenas desde 1600, o extremo de um aumento das temperaturas conhecido como período quente medieval.

Roy Spencer, um climatologista da Universidade do Alabama, em Huntsville, disse em um blog que o filme de Gore "fez um bom trabalho em apresentar os cenários mais sombrios". Mas o relatório de junho, ele acrescentou, mostra "que tudo o que realmente sabemos é que estamos mais quentes agora do que estivemos nos últimos 400 anos". George El Khouri Andolfato

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